Crítica | Runaways – 1X08: Tsunami

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Runaways, aqui.

Entrando na reta final de sua primeira temporada, o episódio desta semana de Runaways lida com as consequências do final trágico de Refractiononde Janet (Ever Carradine) atira contra o marido Victor (James Marsters) para evitar que assassinasse o filho com suas próprias Fistigonas, em um acesso de raiva movido a: distúrbio psicológico gravíssimo agravado ou não por tumores cerebrais e/ou ressaca de um soro mágico proveniente de um alienígena/demônio. Com esse prelúdio, parece que estamos prontos pra algo bem empolgante e movimentado, certo? Afinal de contas, a série é também um drama familiar, mas antes de tudo é uma série da Marvel sobre adolescentes com super-poderes… Não é? Bom, às vezes sim, às vezes não.

Em termos de roteiro a série segue investindo em sua diferenciação do material original, em especial no que diz respeito à caracterização e, subsequentemente, ao papel que os membros do Orgulho têm na história. Evoco aqui o quadrinho não por conta de pensar que a série tem a obrigação de ser mais fiel a ele ou de que, enquanto espectador essa era minha expectativa. Na verdade é de se esperar e é tradicional que sejam feitas mudanças do tipo nessas adaptações – mesmo que no caso específico de Runaways, a série original se oferecia a um modelo ideal para duas ou três temporadas bem fechadinhas de televisão. O caso aqui é que as mudanças na forma como a série apresenta os personagens dos pais muda o próprio conceito da trama central, em direção a algo mais… desarranjado. Pintados cada vez mais como vítimas das circunstâncias, ainda que moralmente irredimíveis, os membros da Orgulho assumem um papel secundário frente ao verdadeiro e único supervilão da série, Jonah (Julian McMahon).

Se por um lado ganhamos na caracterização individual dos pais como personagens, e com isso e por tabela fortalecemos as motivações e os dramas pessoais de cada um dos Fugitivos em lidar com sua descoberta (sendo que eu mesmo elogiei bastante esse enfoque quando bem realizado, como foi o caso em Kingdom), por outro isso cobra seu preço nessa reta final, com o peso dado a humanizar os membros do Orgulho fazendo a trama tender não a uma rebelião dos filhos contra os pais, mas dos filhos (e dos pais?) contra Jonah, em nome de si mesmos e como que para redimir algo dos progenitores. Espero que não seja esse o encaminhamento final das coisas, pois nesse caso se trata realmente de enfraquecer o que há de mais único e interessante no conceito.

Embora possua premissas de roteiro sólidas e dramáticas, Tsunami enfrenta problemas sérios na tradução delas para a tela. Existe um problema de pacing que já se tornou meio que lugar-comum na série. Mesmo com um elenco extenso e com tantas possibilidades de interação e desenvolvimento da história disponíveis, muitos dos episódios passam a impressão de arrastar algumas tramas para além de sua medida ideal. A direção de Millicent Shelton consegue amplificar este problema. Muitas das cenas se esticam em uma somatória monótona de diálogos. Não são raros os cortes sem inspiração entre dois núcleos de personagens mergulhados em diálogo expositivo. Claro que isso ultrapassa o escopo da direção (é um problema que apareceu em outros momentos), mas aqui torna-se mais evidente pela monotonia completa com que se apresentam algumas das situações.

Não ajuda, portanto, que este episódio careça de uma unidade temática que perpasse as subtramas de forma a interliga-las de maneira mais interessante do que a mera necessidade de enredo. Os flashbacks de Amy (Amanda Suk) são espalhados por entre a exposição de Alex (Rhenzy Feliz) e a reação de Nico (Lyrica Okano). Embora a dinâmica dos dois permaneça interessante, dada a centralidade da morte de Amy para a trama da temporada como um todo a impressão é de que o encaminhamento da subtrama tem sido feito de forma um tanto anticlimática. Ainda resta saber ao certo o que aconteceu (provavelmente saberemos no próximo episódio, já que nosso cliffhanger foi justamente esse – quem é “ele” de quem fala a mensagem de alerta que ela recebeu?), mas justamente essa pulverização das revelações acaba tendo um efeito de perda de momentum.

Se ao final do primeiro episódio o espectador poderia estranhar o quão repentina e apressada a reunião dos Fugitivos fora, 7 episódios mais tarde a impressão que predomina é a de que as coisas andam lentas demais. Enquanto os adultos oscilam entre dramalhões novelescos e cenas dramáticas genuinamente intrigantes, nossos adolescentes permanecem andando em círculos entre encontros com muita conversa e pouca ação. Aqui, o embate entre Alex e Nico consegue ser o mais interessante, com a conduta do primeiro mostrando um lado extremamente babaca do qual só tínhamos tido pistas até então. Tanto ao esconder de Nico as informações que tinha a respeito de Amy, quanto na forma com que ele reage à reação justificadamente perplexa dela, Alex prova-se bastante incompreensivo e facilmente desgostável, o que é uma boa virada nas coisas já que até então na dinâmica dos dois era Nico quem parecia ser desnecessariamente fechada, enquanto que Alex passava a imagem do bom moço ponderado. É o tipo de trama de que a série necessita, embora a forma como esteja inserida aqui faça perder um pouco do impacto necessário.

Fora o núcleo interessante Alex/Nico, a subtrama dos nosso heróis que se salva é a de Molly (Allegra Acosta) tendo que lidar com ter sido levada para morar com uma parente distante, e as pistas que recebe para se direcionar para a verdade a respeito da morte dos Hernandez. No restante, temos Gert (Ariela Barer) que mal pôde reagir à partida de Molly, reunindo-se com Alfazema sua velociraptor ainda não nomeada e Karolina (Virginia Gardner), indo atrás de investigar o que raios aconteceu na casa dos Stein. Como uma subtrama com Gert, Karolina e uma velociraptor no banco de trás do carro pode ser maçante, eu não sei – mas eles conseguiram!

No setor dos pais temos novamente a parte mais substanciosa do roteiro (a essas alturas, convenhamos – a série poderia se chamar The Pride). Porém mesmo aqui temos problemas, desta vez de tonalidade, e que provavelmente remetem novamente à má direção. A cena na garagem/oficina dos Stein se estende por todo o episódio, acumulando todos os personagens em torno do ocorrido, ao longo do que vai se perdendo algo do sentido de urgência e ganhando contornos indesejados de humor. A direção “aponta e filma”, somada ao diálogo tendendo à monotonia fazem com que a situação perca toda a dinâmica, até o ponto em que Jonah exige um sacrifício para reviver Victor, e entramos no território de um humor deslocado, onde cada membro do Orgulho passa a tentar sugerir seus desafetos enquanto tenta proteger a própria pele.

Claro que algumas dessas linhas são efetivamente divertidas – as de Dale Yorkes (Kevin Weisman), principalmente – mas no geral, ao não se levar tão a sério e deixar escorregar a tonalidade dramática, a cena falha em convencer e faz os nossos vilões parecerem um bando de babacas desamparados. O desfecho, com Robert (James Yaegashi) armando-se com uma das Fistigonas e tentando se sacrificar no lugar de Janet é bem construído e chega a surpreender, mas a entrega é um tanto arrastada. Falta emoção, falta aos pais demonstrarem o desespero e o medo que possuem de Jonah ao invés de verbalizarem a respeito dele. O racha no Orgulho é interessante e verossímil com o desenvolvimento dos personagens, mas acontece cedo demais aqui – nossos heróis nem mesmo conseguiram se organizar minimamente, e os vilões já se mostram uma ameaça bem menor do que no primeiro episódio, na medida em que descobrimos que são apenas executores da vontade de Jonah, e não efetivamente uma cabala de vilões autossuficientemente terríveis.

E por fim temos o encontro dos adolescentes, onde Chase (Gregg Sulkin) e Karolina novamente são tomados por uma onda pró-pais e se posicionam contra a divulgação dos vídeos que finalmente foram decriptados por Alex. As microinterações entre os personagens permanecem interessantes, mas no final das contas vai tudo por água abaixo quando, com a briga que se segue, Chase acaba tendo sucesso em destruir o laptop de Alex. Com dois episódios restantes até o final da temporada, nossos Fugitivos não apenas ainda não fugiram como toda investigação que fizeram aparentemente voltou à estaca zero. Não que não seja interessante que tenhamos conflitos internos, nem que o conflito em questão não faça sentido – o problema aqui é que a facilidade com que voltamos à estaca zero sugere que, ao longo da temporada, nossos heróis progrediram muito pouco. Ao invés de se preocupar com nossos heróis e seu futuro, não seria de surpreender que o espectador, ao ver o notebook em pedaços, se preocupasse antes de tudo em questionar se o tempo gasto até aqui com essa subtrama valerá a pena em algum momento. Espero sinceramente que Alex tenha feito um backup dos arquivos que obteve. Pra uma série que gosta de destacar o quão contemporânea/futurista é, apresentando Candy Crush e Star Wars Battlefront como coisas do passado enquanto jovens são capazes de projetar armamentos com conhecimentos de física do ensino médio, confiar em um laptop quebrado pra convencer sobre a destruição de um arquivo importantíssimo, em tempos de popularização de cloud storage, seria um tanto quanto preguiçoso.

Andando em círculos e perdendo novamente o pique, Tsunami apresenta vários dos problemas que esporadicamente afetaram a série condensados em um episódio fraco. Nos momentos em que funciona, a narrativa nos sugere que há muito potencial desperdiçado, principalmente em termos de personagens e atuação. O enredo dá sinais de desorientação, em especial ao esticar desnecessariamente subtramas que no final das coisas acabam redundando em muito pouco, e a direção e roteiro apostam forte no falar sobre ao invés do mostrar. Entrando na reta final de seus dois últimos episódios, resta saber se o desfecho será capaz de retomar os acertos da temporada e redimir o elenco de personagens a tempo de nos apresentar algo mais interessante no futuro. Tipo… uma fuga, quem sabe?

Runaways – 1X08: Tsunami – EUA, 26 de dezembro de 2017
Criação: 
Josh Schwartz, Stephanie Savage
Showrunner: Josh Schwartz, Stephanie Savage
Direção: Millicent Shelton
Roteiro: Rodney Barnes, Michael Vukadinovich
Elenco: Rhenzy Feliz, Lyrica Okano, Ariela Barer, Virginia Gardner,  Gregg Sulkin, Allegra Acosta, Angel Parker, Ryan Sands, Annie Wersching, Kip Pardue, Ever Carradine, James Marsters, Brigid Brannagh, Kevin Weisman, Brittany Ishibashi, James Yaegashi, Julian McMahon, Marlene Forte, Amanda Suk
Duração: 50 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.