Crítica | Runaways – 1X10: Hostile

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– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Runaways, aqui.

A primeira temporada de Runaways exemplifica bem o extremo de uma tendência das séries televisivas, que vem crescendo certamente há mais de uma década, recebendo força mais recentemente principalmente a partir das novas formas de se assistir (e produzir) televisão via streaming. É apenas com o fechamento do último episódio, com a temporada já completa, que podemos ter uma ideia melhor do sentido da produção, e situar melhor alguns dos seus momentos em relação ao que a série realmente se propôs inicialmente. Isso é um problema para outra discussão, mas acredito ser necessário lançar aqui essa hipótese: Runaways é uma série que funciona melhor em binge watching do que em formato episódico semanal, e provavelmente teria se beneficiado se tivesse sido lançada assim, ao invés da entrega semanal optada pelo Hulu.

Deixando de lado o quanto isso afeta negativamente ou não outras produções (e eu acredito que sim, e deste gênero em especial, inclusive), Hostile traz duas noticias, uma boa e uma ruim, para os fãs que ansiavam já há mais de uma década por uma boa adaptação televisiva da minissérie em quadrinhos de Brian K. Vaughan. A boa notícia é que a série finalmente toma corpo do lado dos adolescentes, não apenas retratando a sua tão esperada fuga de casa, mas trabalhando bem a dinâmica interna do grupo, que até então funcionava em uma base de “falar e não mostrar”, e normalmente percorrendo sempre as mesmas batidas já manjadas. A má notícia, já deve ser óbvio, é que isso acontece apenas no season finale, de todos os momentos possíveis.

As cenas de ação continuam a sofrer de uma direção um tanto fora de prumo. Embora o valor de produção para os efeitos especiais seja competente, toda cena de luta é telegrafada em um ritmo um tanto lento e sem dinâmica, milhas atrás de outras produções televisivas como Demolidor e a própria Agents of S.H.I.E.L.D., pra ficarmos nos exemplos da casa. A batalha contra o Orgulho não empolga para além da excitação em vermos os nossos heróis finalmente utilizarem seus poderes em conjunto novamente. Infelizmente tudo é embalado por diálogos pouco inspirados, e a coisa acaba de forma um tanto galhofa na disputa de raios luminosos entre Karolina (Virginia Gardner) e Jonah (Julian McMahon), significantemente menos empolgante do que quando acontece em Dragon Ball Z.

Por outro lado, a partir daí temos uma guinada na narrativa, que finalmente traz um senso de excitação após o desfecho um tanto letárgico dos últimos episódios. Cabe inclusive se perguntar o quanto a própria sequência inicial de ação não se encontra prejudicada justamente por herdar um desenvolvimento sonso do desastroso Doomsday, que forçou colocar todos os personagens no mesmo lugar apenas para cumprir a formalidade do enredo em haver esse início de confronto. Em todo caso, deixando Karolina para trás, passamos a acompanhar o grupo que, ao longo do restante do episódio, finalmente se apresenta como aquilo que deveria ter sido há pelo menos 5 episódios atrás.

A partir do confronto com o Orgulho, nossos (agora finalmente) Fugitivos passam a ter aquilo que lhes faltou ao longo de toda a temporada: um propósito. Relegados ao segundo plano e andando em círculos com planos mal concebidos de expor os pais, a iminência do confronto os une finalmente em torno de um objetivo claro e presente – escapar – e é notável como os personagens crescem e funcionam melhor nesse novo status quo. É como se as peças finalmente se encaixassem, e pudéssemos dar uma espiada em uma adaptação realmente boa de Fugitivos – onde este episódio certamente não seria o final da primeira temporada. O roteiro faz um bom uso das relações interpessoais dos adolescentes conforme apresentadas ao longo da temporada, que são agora trazidas à luz pela situação emergencial em que se encontram.

Até mesmo as subtramas dos casais se beneficiam disso e tomam forma, adquirindo identidade própria para além dos clichês juvenis que foram apresentados até então. O romance entre Gert (Ariela Barer) e Chase (Gregg Sulkin) é aproveitado num sentido mais leve, servindo para quebrar a seriedade da situação e render bons momentos de personagem para a interpretação sempre acertada de Barer, e de um Sulkin que vem crescendo, ainda que tardiamente, no papel. Por outro lado, a relação entre Nico (Lyrica Okano) e Karolina serve para nos apresentar um raro lado alegre na personagem, e é bem sensível a forma como a série mostra que a paixão devolve algum colorido a sua vida, após tanto tempo fechada ao mundo devido à tragédia com a irmã, e em meio a uma situação tão adversa como a em que se encontram. Na contraparte temos Alex (Rhenzy Feliz) que se sente rejeitado, e muito provavelmente tem a audácia de se pensar injustiçado por Nico no que concerne ao que ele sabia a respeito de Amy. O filho dos Wilder continua interessante como o cabeça do grupo, cuidando das estratégias de sobrevivência enquanto os outros ainda têm dificuldades em fazê-lo, ainda que relutante em relação ao resgate de Karolina e não se enturmando realmente com ninguém.

Todo o episódio é pontuado por diálogos bem escritos, não apenas no humor como na caracterização, algo que infelizmente foi bastante raro no decorrer da temporada como um todo. Momentos como os de Nico, Chase e a sempre carismática Molly (Allegra Acosta) preparando seus disfarces mostram o potencial que o elenco tinha de trocas inusitadas entre esses pares menos comuns de personagens, mas que foram impedidas por um formato de roteiro que prezou pelo repetitivo e por um ritmo lento. Tanto nos momentos de descontração quanto nos de mais puro perrengue, a fuga dos adolescentes é brilhantemente executada aqui e envolve o espectador de uma forma inesperada após a construção apática que os episódios anteriores ofereceram. Exemplo disso é a rápida infiltração na Igreja de Gibborim para o resgate de Karolina, que tem tudo aquilo que faltou na invasão à Wizard em Metamorphosis: senso de urgência e perigo, bons momentos de personagem e uso empolgante de suas habilidades especiais – para não falar em cumprir algum propósito no desenvolvimento da trama.

Ao mesmo tempo, os membros do Orgulho encaram as consequências de suas ações e concretizam o cenário “todos vs. Jonah”, que vinha se desenhando de forma cada vez mais nítida desde Tsunami. Tomando a temporada como um todo, acredito que a escolha em conceder aos pais o co-protagonismo da história teve mais efeitos adversos do que positivos para o desenvolvimento de uma primeira temporada. É verdade que as intrigas familiares internas, presentes e passadas, serviram para dar mais profundidade aos adultos e nuançar mais suas personalidades para além de simplesmente supervilões sem moral. Porém, a coisa foi levada a um extremo em que o próprio caráter vilanesco deles acaba posto em dúvida ou no mínimo passado a largo em favor de pintá-los como vítimas da chantagem de um ser ultrapoderoso. E o custo desse desenvolvimento anticlimático foi o de que tudo isso que tivemos neste episódio, e poderíamos ter tido lá atrás no terceiro episódio da temporada, acabou postergado em favor dessa preparação alongada e arrastada.

Com isso chegamos à consideração final, tanto do episódio, quanto da temporada: com todos seus acertos, Hostile no fim das contas não apenas não faz mais do que a obrigação, ao nos mostrar finalmente a dinâmica entre os protagonistas que os personagens merecem, como dificilmente pode ser considerado um ato final de uma história. A primeira temporada de Runaways acaba assim se revelando como um alongado prequel a uma história com potencial em ser realmente interessante. Optar pelo drama doméstico em detrimento à aventura acabou se revelando uma espécie de estratégia bizarra em estender a história para além da boa medida, e se temos aqui um final realmente empolgante, ele vem à custa de aceitar que acabamos de acompanhar aproximadamente 10 horas de introdução que, ainda que com seus momentos, poderiam ter sido mais divertidas – como a própria aventura dessa semana torna claro.

Hostile é um desfecho bom para uma produção de altos e baixos, que começou muito devagar, entregou alguns momentos interessantes mas perdeu o foco na reta final, pondo em risco um elenco bem escolhido e uma visão promissora de adaptação do material original. Sendo ou não renovada, o fato é que a série perdeu a chance de começar com o pé direito e cativar de cara uma audiência com o que tinha de melhor a oferecer, literalmente guardando o melhor para o final e desgastando todo o resto no processo. Uma produção que desperdiçou muitas oportunidades, mas que não foi de todo perdida, a primeira temporada de Runaways merece uma chance dos interessados no mínimo pela possibilidade de uma segunda temporada (já confirmada) realmente à altura do que a série prometeu, mas não cumpriu. Só não depositemos muitas esperanças nisso. Mas, bem, como diria Molly Hernandez: “The struggle is real”!

Runaways – 1X10: Hostile – EUA, 9 de janeiro de 2018
Criação: 
Josh Schwartz, Stephanie Savage
Showrunner: Josh Schwartz, Stephanie Savage
Direção: Jeremy Webb
Roteiro: Michael Vukadinovich
Elenco: Rhenzy Feliz, Lyrica Okano, Ariela Barer, Virginia Gardner,  Gregg Sulkin, Allegra Acosta, Angel Parker, Ryan Sands, Annie Wersching, Kip Pardue, Ever Carradine, James Marsters, Brigid Brannagh, Kevin Weisman, Brittany Ishibashi, James Yaegashi, Julian McMahon, DeVaughn Nixon
Duração: 45 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.