Crítica | S.W.A.T. – 1ª Temporada (Nova Série)

Quem acompanha minhas críticas aqui no site deve ter estranhado a associação de meu nome aos comentários sobre a primeira temporada do reboot de S.W.A.T., que originalmente foi ao ar entre o final de 2017 e começo de 2018. Afinal, considerando o que escrevi neste artigo aqui, é de se presumir que eu fujo como o diabo foge da cruz de séries com estrutura de mais de 20 episódios e com casos da semana. E, de fato, isso é verdade e o estranhamento é bastante razoável. No entanto, há uma palavra – ou melhor, sigla – mágica aqui: S.W.A.T.

E eu explico, fazendo uma breve – e reveladora – viagem nostálgica. Quando muito jovem, adorava a série original homônima criada por Robert Hamner e Rick Husky que contou com apenas duas temporadas (e 37 episódios no total) entre 1975 e 1976 e que foi reprisada na TV brasileira por anos a fio. Ela marcou época especialmente por sua música-tema instrumental composta por Barry De Vorzon, um dos mais icônicos – e melhores – temas de série de TV já criados (e um dos poucas a constar da lista Billboard Hot 100), com uma abertura que apresentava os protagonistas em sua também famosa van. Em uma época em que réplicas de armas podiam ser vendidas como brinquedos para crianças sem as transformar em serial killers, era incomum que eu passasse mais de uma semana sem encarnar meu herói Jim Street, vivido pelo saudoso Robert Urich, juntamente com meus amigos.

Portanto, foi instintiva minha excitação quando soube do reboot e quando, à guisa de teste, assisti o primeiro episódio, notei que não só os personagens seriam os mesmos (quase todos) como também e principalmente a inesquecível música-tema seria utilizada com um novo arranjo, sedimentando minha escolha por adicionar a série à minha lista, apesar de seus problemas insanáveis de origem. E foi assim que acabei arregaçando as mangas para assistir tudo revivendo minha infância (mas sem a arma e a fantasia, que incluía o boné azul, lógico) e escrever a presente crítica.

Feita essa introdução talvez alongada demais, mas que não pude evitar, cabe abordar diretamente a série.

Desenvolvida por Aaron Rahsaan Thomas e Shawn Ryan, a nova versão de S.W.A.T. segue substancialmente a fórmula da original e de praticamente todas as séries de TV dos anos 70 e 80, ou seja, capítulos auto-contidos que poderiam facilmente ser assistidos fora de ordem sem prejudicar a compreensão geral. Cada episódio lida com um novo caso que a equipe comanda por Daniel “Hondo” Harrelson (Shemar Moore, a atual voz do Ciborgue nas animações da DC) tem que lidar em seu dia-a-dia em Los Angeles, de conflito de gangues passando por sequestros e atos terroristas. No entanto, os showrunners acrescentaram fiapos narrativos que dão um semblante longínquo de uma história macro una sendo contada, mas nada que realmente desclassifique a série como uma que siga a velha estrutura de “caso da semana”.

Com isso, entremeando os 22 episódios de tamanho regulamentar, a temporada lida com o relacionamento amoroso secreto entre Hondo e sua chefe, a Capitã Jessica Cortez (Stephanie Sigman ); as ideias progressistas (e mal recebidas pelos policiais) da referida capitã para a polícia e sua relação, para esse fim, com o político Michael Plank (Peter Facinelli, o Maxwell Lord da série Supergirl); a relação complicada do novato Jim Street (Alex Russell) com sua mãe presidiária Karen (vivida por Sherilyn Fenn, a eterna Audrey Horne de Twin Peaks) e o pontapé inicial da temporada, que é a demissão sumária do capitão da equipe, William “Buck” Spivey (Louis Ferreira), por ter alvejado um garoto negro desarmado durante uma operação. É esse último aspecto que, por sinal, coloca Hondo na chefia da equipe não necessariamente por seus méritos como policial, já que, por senioridade, David “Deacon” Kay (Jay Harrington) deveria ser a escolha, mas sim por ele ser também negro, o que funciona como uma boa jogada de marketing para a S.W.A.T., algo maquinado pelo comandante Robert Hicks (Patrick St. Esprit), cabendo a Hondo, então, provar que é mais do que apenas um garoto propaganda, algo que, claro, ele faz com louvor desde o primeiro minuto.

É perfeitamente possível notar, imediatamente, que os showrunners querem jogar seguro com a série apenas pela descrição dos assuntos abordados nas histórias que perpassam a temporada. Eles abordam todo o tipo de assunto socialmente relevante, algo que começa pela composição da equipe que também conta com uma mulher de origem latina, Christina “Chris” Alonso (Lina Esco) e um homem de ascendência oriental, Victor Tam (David Lim) e continua com um didatismo extremo a cada novo episódio. Se a temática é preconceito racial ou de gênero, por exemplo, ela será explicada em detalhes para o espectador em dolorosos minutos perdidos com textos paternalistas que não deixam qualquer espaço para dúvida.

Além disso, Hondo e sua equipe simplesmente não existem de verdade (sim, eu sei que é uma série de ficção, mas não é isso que quero dizer, claro). Em linhas gerais, todos eles seriam exemplares perfeitos da raça humana em absolutamente todos os termos: aparência, moralidade, simpatia, empatia e todos os adjetivos positivos que o espectador imaginar. O único que foge um pouco – mas só um pouco mesmo – desse arquétipo raso, fruto de roteiros que simplesmente se recusam a construir personagens com um mínimo de complexidade, é Street, já que ele tem a função narrativa de ser a “bola fora da curva”, o cara que entra na equipe “pela janela”, já que é apadrinhado do respeitado Buck e que age de forma mais imatura e irresponsável. Mas mesmo Street fica seguramente próximo à linha altiva e nobre de seus colegas.

Apesar de todos esses problemas derivados da vontade dos showrunners de manter a correção política no “volume 11”, é de certa forma simpático, ainda que inocente e maniqueísta, ver uma série que só tem preto ou branco, jamais qualquer tom de cinza. Chega a ser até engraçado ver Hondo e Deacon, os bastiões da moralidade, preocuparem-se igualmente com as vítimas e com os bandidos, basicamente adotando as pessoas como seus protegidos para a vida toda ou ajudando-os a conseguir algo que a ação policial inadvertidamente dificultou. Digo engraçado, pois é tão irreal e tão “lindo” que isso chega a distrair o espectador, obrigado a usar o cinismo para simplesmente dizer algo como “esse cara simplesmente não é uma pessoa que teria chance de existir no mundo real”. E é bem isso mesmo: o núcleo de S.W.A..T. é composto de pessoas iluminadas, que transcenderam o bem e o mal.

De toda maneira, os “casos da semana” divertem por sua variedade e pelas soluções dadas pelos roteiros, sempre utilizando equipamentos da mais alta tecnologia e estabelecem um ritmo bom para a temporada. No entanto, há maneirismos técnicos que irritam profundamente. Não só há didatismo nas questões sociais, como também nas explicações dos casos e nos planos, algo que normalmente acontece ao redor de uma mesa digital no QG da S.W.A.T. São momentos de revirar os olhos, já que eles, depois, são reiterados por uma incessante repetição do passo-a-passo ao longo da missão em si, transformando a equipe em um monte de “velha fofoqueira” falando pelos cotovelos em meio à pancadaria. Como se isso não bastasse, os momentos didáticos e expositivos são enfeitados por uma câmera angustiante que vive rodando em círculos ao redor dos personagens, algo muito comum também em Arrow, comparação que, infelizmente, me sinto forçado a fazer. E isso sem contar com as sequências de ação propriamente ditas que devem ser editadas pelo estagiário do montador com o pé esquerdo.

Se estivesse falando de qualquer outra série que não fosse S.W.A.T., provavelmente minha avaliação objetiva em estrelas, considerando os aspectos negativos que abordei, seria pelo menos meio ponto mais baixa, mas quem eu quero enganar, não é mesmo? Trata-se de S.W.A.T., meu xodó, meu guilty pleasure televisivo que não tenho vergonha de confessar. Portanto, deixe-me recarregar meu revólver de espoleta e virar o boné azul para trás e correr atrás de bandidos imaginários cantarolando a música-tema em paz, pois a série – e minha infância – merecem.

S.W.A.T. – 1ª Temporada (EUA – 02 de novembro de 2017 a 17 de maio de 2018)
Desenvolvimento e showrunners:  Aaron Rahsaan Thomas, Shawn Ryan (baseado em criação de Robert Hamner e Rick Husky)
Direção: Justin Lin, Billy Gierhart, Greg Beeman, Guy Ferland, Eagle Egilsson, John Showalter, Holly Dale, Larry Teng, Omar Madha, Elodie Keene, Alex Graves, Hanelle M. Culpepper, Rob J. Greenlea, Norberto Barba, Doug Aarniokoski, Nina Lopez-Corrado
Roteiro: Aaron Rahsaan Thomas, Shawn Ryan, Craig Gore, Sam Humphrey, Kent Rotherham, VJ Boyd, Michael Jones-Morales, Alison Cross, A.C. Allen, Michael Gemballa, Robert Wittstadt, Matthew T. Brown
Elenco: Shemar Moore, Stephanie Sigman, Alex Russell, Lina Esco, Kenny Johnson, Peter Onorati, Jay Harrington, David Lim, Patrick St. Esprit, Louis Ferreira, Aaron Bledsoe, Lou Ferrigno Jr., Sherilyn Fenn, Bre Blair, Peter Facinelli
Duração: 924 min. aprox. (22 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.