Crítica | Sabotador

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estrelas 2,5

Sabotador, quinto filme de Alfred Hitchcock em Hollywood, marcou o início de sua separação umbilical de David O. Selznick, o lendário produtor que o trouxera aos Estados Unidos e que catapultaria sua carreira logo em sua primeira tentativa, com Rebecca, A Mulher Inesquecível. Com a história alinhavada, Selznick autorizou a confecção do roteiro, mas, na hora “H”, seu então editor, Val Lewton, vetou o resultado do trabalho, o que forçou o diretor a procurar a Universal para levar seu projeto à cabo.

Todo mundo sabe o resultado desse movimento. Hitchcock fez Sabotador e Sombra de Uma Dúvida em seguida pela Universal e teria lá sua segunda casa, aonde criaria muitos de seus grandes e inesquecíveis clássicos.

Mas, voltando a falar especificamente de Sabotador, o problema é que, por maior que tivesse sido o sucesso de Hitchcock até então, a Universal não podia simplesmente investir muito em diretor que estreava no estúdio. Assim, nada de atores de primeira linha, o que resulta no primeiro grande corte da fita. O diretor foi basicamente obrigado a aceitar trabalhar com Robert Cummings e Priscilla Lane, figurinhas fáceis, mas inexpressivas que a Universal tinha sob contrato  de trabalho.

E, apesar de Hitchcock sempre ter sido conhecido pelo quão estritamente controlava seu “gado”, atores de nome acabam mesmo fazendo a diferença. Mas o outro grande problema de Sabotador é que ele literalmente começou a ser filmado duas semanas depois do ataque japonês à Pearl Harbor e a consequente e definitiva entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. O que isso significou na prática? Ora, um filme que já era patriótico tornou-se absurdamente – mesmo para os padrões de hoje – maniqueísta, com personagens que ou são muito maus ou muito bons, sem absolutamente nenhum meio termo. Dorothy Parker, roteirista trazida pela Universal, se encarregou de “enriquecer” o roteiro com papagaiadas expositivas de fazer rolar os olhos.

Mas esse é apenas um dos problemas de Sabotador. Antes, porém, vou brevemente abordar a história do filme.

Tudo começa com a sabotagem de uma fábrica de aviões na costa oeste americana, com a culpa pelo ocorrido recaindo no obviamente inocente Barry (Robert Cummings) que, ato contínuo, foge para provar sua inocência. Como material investigativo, ele só tem a memória de um esbarrão em Fry (Norman Lloyd), um funcionário da mesma fábrica logo antes do incêndio e sua desconfiança de que há algo de errado com essa pessoa. Uma espécie de road movie então se inicia, com Barry fugindo de carona em carros, caminhões e até em um circo nômade para descobrir a verdade.

A luta para limpar seu próprio nome é sempre uma temática interessante. Mas o primeiro erro do roteiro é nos entregar o vilão nem bem com 15 minutos de projeção. As lembranças de Barry o levam exatamente na riquíssima casa de um vilanesco senhor, com direito a roupão, bebida na mão, uma linda criancinha caminhando pela piscina para contrastar sua pureza com a maldade do avô e alguns capangas bombados. Chega a incomodar a sequência, que leva a outra ainda pior: o encontro fortuito de Barry com um senhor cego e que mora sozinho em uma cabana no meio do nada e que imediatamente “vê” a bondade em Barry e o entrega à sua filha Pat (vivida por Priscilla Lane) para que ela o auxilie a se livrar das algemas que o aprisionam.

E claro, no meio disso tudo, Barry é ajudado pelo santo de todos os caminhoneiros, um homem que, sem nem querer saber quem é Barry, faz das tripas coração para ajudá-lo. É como se o mundo fosse tomado, única e exclusivamente, de pessoas más ou de pessoas boas, nunca de pessoas maldosamente boas ou bondosamente más e isso só para simplificar. Ah, e eu já falei que as atrações circenses de um circo nômade chegam ao cúmulo de determinar uma votação democrática para verem se ajudam Barry e Pat?

Só que a coisa não para por aí. Hitchcock fez muito uso de filmagens em locação, o que acabou enriquecendo enormemente sua obra, com um belo trabalho de fotografia de Joseph A. Valentine, que viria trabalhar com o diretor no filme seguinte e em Festim Diabólico. Até aí, só tenho elogios. O problema é mesmo geográfico. E antes que os mais afoitos venham reclamar, não sou xiita quanto ao uso errôneo da geografia em filmes. Não me importo se a ação começa em um lugar e, plausivelmente, acaba em outro, mesmo que seja distante.

O problema em Sabotador é que os personagens dizem que estão indo para “leste” e, como se tivessem pedido teletransporte para Scotty, da Enterprise, logo aparecem em Nova Iorque (vindos da Califórnia que, hoje em dia, exige voos de 6 horas, imagine em 1942…). E o mais irritante é que Barry e Pat se separam, mas sempre se encontram novamente, não interessa a distância, tudo porque, também usando filmagem em locação e meio que servindo de test drive para o final de Intriga Internacional, Hitchcock força um final difícil de engolir na Estátua da Liberdade.

Ainda que a tecnologia usada à época fosse de tirar o chapéu, com câmeras com poderosos zooms, superimposições e um trabalho impressionante de fusão entre locação e filmagem em estúdio, é muito difícil sentir qualquer resquício de tensão na perseguição climática, especialmente depois da interminável fuga de Barry e Pat por todos os EUA, com direito a Pat jogando um pedaço de papel de um arranha-céu que cai perfeitamente na frente de pessoas dispostas a ajudá-la (lá no 70º andar de um prédio qualquer em Nova Iorque – minha suspensão da descrença quebrou nesse momento).

Mesmo considerando o orçamento baixo imposto pela Universal e os atores “B” também determinados pelo estúdio, Hitchcock já tinha uma bagagem invejável na mão para errar tão feio em Sabotador. É como se ele tivesse se enquadrado em uma cartilha de fazer filme que traiu completamente sua personalidade, mesmo que a fotografia em locação e algumas sequências de ação lembrem de relance o diretor que ele já era em 1942.

Mas reputo muito mais à Selznick pela peça que ele pregou em Hitchcock e à fatalidade de Pearl Harbor por esse soluço na carreira americana do Mestre do Suspense ainda em formação do que ao diretor (não que ele seja isento de culpa, pois não é). Tanto é assim, na verdade, que Sombra de Uma Dúvida funcionaria como um “noves fora” logo no ano seguinte.

Sabotador (Saboteur, EUA – 1942)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Peter Viertel, Joan Harrison, Dorothy Parker
Elenco: Priscilla Lane, Robert Cummings, Otto Kruger, Alan Baxter, Clem Bevans, Norman Lloyd, Alma Kruger, Vaughan Glaser, Dorothy Peterson, Ian Wolfe
Duração: 109 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.