Crítica | Saga – Vol. 3

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estrelas 5,0

obs: Há spoilers dos volumes anteriores, mas não do terceiro. Leiam as críticas dos volumes anteriores, aqui.

Não sei como deixar isso mais claro, mas tentarei mesmo assim: se você não leu Saga, cujo primeiro volume foi publicado no Brasil pela Devir, e gosta de quadrinhos e de ficção científica/fantasia, pare tudo o que está fazendo e leia. Arriscaria dizer que essa publicação, encabeçada pelo sensacional Brian K. Vaughan, autor das já encerradas Y: O Último Homem e Ex Machina e da graphic novel Os Leões de Bagdá, é a melhor publicação em continuidade do gênero nos últimos 10 ou 15 anos. E não estou exagerando.

saga v 3 coverPara quem não conhece Saga, basta dizer que essa revista é o equivalente do século XXI ao que Star Wars e Star Trek representaram ao século XX.  E, novamente, não estou exagerando, mas claro que as coisas devem ser vistas proporcionalmente. Não tenho a menor pretensão de comparar Saga com as duas franquias acima de maneira absoluta, pois o alcance e influência delas na cultura pop, cinematográfica e televisiva como um todo é algo sem paralelos e que talvez nunca se repita nessa mesma intensidade. Em termos relativos, porém, considerando-se a riqueza da criação de mitos, mundos, personagens, planetas e histórias, Saga é sim algo do mesmo naipe das obras citadas e de outras ainda, como o fantástico mundo criado por Tolkien.

Vaughan usa como base o clássico Romeu e Julieta, obra tornada famosa pela incomparável adaptação de Shakespeare, criando um caso de amor entre Alana, mulher alada nativa do planeta Landfall e Marko, homem com chifres (no bom sentido!) nativo de Wreath, lua de Landfall. Quando a história começa, a situação intergalática de rivalidade entre Landfall e Wreath já está estabelecida: há uma antiga guerra entre esses dois povos que se odeiam por razões indeterminadas ou esquecidas, mas que, depois de muito combaterem em seus respectivos territórios, “terceirizaram” as batalhas para toda a galáxia de maneira a evitar sua destruição física mútua. Com isso, incontáveis povos e planetas são tragados para uma guerra insana, sem que nunca tenham sequer participado de decisões ou da origem da rivalidade, sofrendo todas as consequências comuns a guerras. Nesse contexto, os dois amantes são caçados por seus respectivos compatriotas por terem deserdado de seus exércitos e, mais do que isso, pelo sacrilégio de estarem juntos e – pior ainda! – terem uma filha, Hasel, que nasce logo no primeiro quadro do primeiro volume.

Se o leitor realmente espremer, notará que a trama é substancialmente linear e carregada de clichê. Um casal quebra as convenções da sociedade ao mostrar que o amor não tem barreiras e os dois fazem de tudo para permanecer juntos e proteger sua filha. Até aí, nenhuma novidade. Mas a mágica está nos detalhes. E são muitos detalhes, cada um deles perfeitamente costurado dentro da trama, sem que Vaughan tenha que exagerar em textos expositivos. O povo de Wreath é baseado em mágica e do de Lanfall em tecnologia, sendo que o segundo ainda tem como aliado uma monarquia robótica com cabeça de monitor de computador, representada principalmente pelo Príncipe Robô IV que é encarregado de capturar o casal em fuga e trazer Hasel viva. Do lado de Wreath, Marko é perseguido por sua família e por sua ex-noiva enfurecida, Gwendolyn, que não se conforma com o acontecido. Há, também, a presença constante do caçador de recompensas The Will (todos os caçadores de recompensa nesse universo tem The no começo do lacônico nome) que também tem seus próprios problemas particulares, especialmente o amor que sente por The Stalk, uma caçadora de recompensas metade aranha, metade mulher. E The Will anda acompanhado de Lying Cat, uma enorme gata que seria da raça siamesa se fosse na Terra, cuja única função é detectar mentiras de quem quer que seja.

E isso nem arranha a superfície do que Saga tem a oferecer. Eu poderia literalmente escrever parágrafos e mais parágrafos sobre os absolutamente cativantes personagens escritos por Vaughan e deliciosa e originalmente desenhados por Fiona Staples, mas se o gostinho de minha descrição acima não for o suficiente para ativar a curiosidade do leitor, então nada será. Vaughan não escreve pelo espetáculo, mas sim para servir à trama. Cada personagem é bem desenvolvido e explorado, cumprindo funções específicas que têm ramificações mais para a frente. Há um claro plano no que o autor escrever e isso é uma características muito clara dele e que ele já demonstrou com os sensacionais Y: O Último Homem, com seus 60 números e Ex Machina, com seus 50 números.

Enquanto o primeiro volume de Saga foi dedicado ao estabelecimento da trama básica e à apresentação do núcleo principal de personagens, o segundo expandiu horizontes e aprofundou-se na multifacetada caçada dos amantes que, com Klara, mãe de Marko, fogem pela galáxia em uma sensacional e inteligente “árvore foguete”. Tudo é narrado por Hazel, em forma de diário, a partir de um futuro que não sabemos o quão distante está dos acontecimentos que vemos desenrolar diante de nossos olhos. O fato é que o final do segundo volume apresenta um cliffhanger que potencialmente coloca Alana e Marko em conflito com Príncipe Robô IV, em um farol isolado no planeta Quietus onde mora Oswald Heist, ser ciclópico que é o autor de livros favorito de Alana e que ela acha que pode ajudá-lo com aconselhamentos.

mosaico saga v3

(1) Upsher e Doff são apresentados; (2) Oswald Heist, Alana, Marko, Klara e Izabel em momento de tranquilidade; (c) Marko e Alana enfrentam Gwendolyn.

O terceiro volume, que reúne Saga #13 a 18, então, é dedicado a abordar essa questão e aprendemos que a situação final acima descrita, na verdade, aconteceu semanas após Alana, Marko, Klara, a pequena Hazel e a babá fantasma Izabel (sim, babá fantasma!) terem chegado a Quietus. Com isso, Vaughan volta um pouco no tempo para descrever os acontecimentos em Quietus e, paralelamente, o que aconteceu com The Will, Lying Cat e Gwendolyn depois que eles quase interceptaram a “árvore foguete” dos fugitivos anteriormente.

No entanto, mais importante do que a trama em si, é a exploração, por parte de Vaughan, da pluralidade racial, religiosa e sexual desse universo que criou. Sua mensagem é clara: a intolerância é um mal que deve ser combatido. E, usando esse motif, o autor aborda os mais variados tipos de preconceitos e, de certa forma, ainda consegue quebrar tabus das maneiras mais “chocantes” possíveis. Se muitos de nós – membros de uma sociedade medieval – achamos repugnante a amor entre humanos do mesmo sexo, então Vaughan não só paga para ver como dobra a aposta, mostrando o relacionamento entre The Will, para todos os efeitos um humano e The Stalk, para todos os efeitos uma aranha. Bestialidade? Ou uma forma de nos sacolejar para a realidade em que vivemos? E, claro, ele não deixa de abordar mais diretamente o amor entre seres de mesmo sexo, ao nos apresentar a Upsher e Doff, dois anfíbios humanoides que são jornalistas de tabloide e casal gay dentro de uma sociedade 100% intolerante e que, por isso, têm que esconder seu amor. E Vaughan não para só aí e não deixa de tocar em assuntos complicados de serem aceitos por todos como o amor na terceira idade e rituais “de castração” de mulheres, algo infelizmente ainda tão comum em diversas partes do mundo.

Dessa maneira, Vaughan amplifica sobremaneira o alcance e relevância de sua obra, potencialmente tocando em uma miríade de assuntos-tabu que, em um ambiente de ficção científica e fantasia absolutamente original, mexe com o imaginário ao mesmo tempo que provoca discussões sadias. É a Nona Arte servindo a seu propósito mais nobre.

Fiona Staples continua com seus traços enganosamente simples, criando seres diversos – na grande maioria baseados em nossa fauna, flora e mitologia – e cativantes. Cada quadro é uma novidade e a fluidez da ação e da progressão narrativa de Vaughan é ainda mais salientada pelo encadeamento perfeito das tiras e das páginas desenhadas por Staples que também se encarrega da arte-final e das cores, sempre privilegiando a primariedade delas que parecem trazer esperança ao futuro dos personagens, mas com um esmaecimento estratégico que parece apontar para a tragédia. Afinal, não podemos esquecer que estamos falando de Shakespeare, não é mesmo?

Saga é leitura obrigatória para fãs de quadrinhos e/ou de ficção científica e/ou de fantasia. Imperdível do começo ao fim, ao ponto de levar uma certa tristeza ao leitor quando a última página é virada.

Saga – Vol. 3 (EUA – 2013/14)
Contendo: Saga #13 a 18 (publicados originalmente entre agosto de 2013 e janeiro de 2014)
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Fiona Staples
Letras: Fonografiks
Editora (nos EUA): Image Comics
Editora (no Brasil): Devir (não publicado no Brasil na data dessa crítica)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.