Crítica | Saída Pela Esquerda: As Crônicas do Leão da Montanha

Às vezes nós ficamos tão preocupados com o enredo da vida que esquecemos que só os personagens importam.
– da Montanha, Leão

Nunca pensei que um dia estaria escrevendo, empolgado, a crítica de uma HQ dramática e política de uma editora mainstream sobre ninguém menos do que o Leão da Montanha, aquele leão cor de rosa de colarinho, gravata e punhos com abotoaduras que fazia parte do vasto panteão de personalidades inesquecíveis das animações da Hanna-Barbera ao longo dos anos 60 e 70. Afinal de contas, dentre tantos outros personagens mais famosos da mesma época, a escolha do Leão da Montanha para ser o protagonista de uma história passada nos anos 50 nos EUA em que ele é um dramaturgo gay sofrendo perseguição pelo Comitê de Atividades Antiamericanas durante o macartismo chega a ser surreal.

Mas um surreal que faz todo sentido e, por isso mesmo, é algo tão genial.

O projeto de resgate dos personagens da Hanna-Barbera e Looney Tunes, pela DC Comics, começou em 2016, com versões “ousadas” de animações consagradas: Scooby Apocalipse, Future Quest e Corrida Maluca. A maturidade veio rapidamente, já no ano seguinte, quando a festejada releitura de Os Flintstones, comandada por Mark Russell, chegou às lojas, mesmo tendo durado apenas doze edições. Curiosamente, considero Os Flintstones uma HQ com ideias boas, mas mal executadas, graças a um texto desajeitado de Russell que carrega demais no didatismo e na exposição, como aquelas lições de moral ao final de animações dos anos 80, só que ao longo de toda a duração da obra. Foi por isso que, quando Saída pela Esquerda: As Crônicas do Leão da Montanha (minha tradução direta do original Exit Stage Left: The Snagglepuss Chronicles, já que a história não foi editada no Brasil na data de publicação da presente crítica) foi anunciado ao final de 2017, fiquei desconfiado ao ver o nome de Russell como roteirista, e isso sem contar com a atenção dada pela mídia e pelo marketing da editora para a “revelação” de que o protagonista seria gay, já que sempre vejo esse tipo de estratégia como uma forma vazia de se chamar atenção para uma obra.

Acontece que Russell mais do que se redime aqui, abordando as temáticas centrais – homofobia, demagogia, liberdade de expressão, paranoia – com elegância e autoridade, fazendo da sexualidade do Leão da Montanha algo integral à narrativa e não apenas um artifício para vender mais revistas. No universo que o autor cria, os animais antropomorfizados vivem em harmonia com os humanos de forma idêntica ao que podemos ver em Bojack Horseman e o Leão da Montanha é, nesse contexto, o maior dramaturgo vivo dos EUA (provavelmente inspirado no grande Tennessee Williams), gozando de uma vida de glamour e de sucesso em 1953, quando a história começa. No entanto, Leão da Montanha tem um “defeito sério” que ele precisa manter escondido: ele é homossexual. Para disfarçar essa sua “condição inaceitável”, ele tem uma esposa “falsa” que aparece ao seu lado nos eventos públicos como o que abre a HQ: a noite de encerramento de uma de suas peças da Broadway, em Nova York.

(1) O Leão da Montanha chega ao teatro e (2) Marilyn Monroe!

Ficando apenas nessa premissa, já dá para ver a absoluta inspiração de Russell em sua construção. Faz todo sentido o Leão da Montanha ser gay se, em retrospecto, lembrarmos dele nas animações. Ele carregava um ar de sofisticação não só em seu figurino espartano, mas reminiscente de escolhas de extremo bom gosto, como também por sua erudição, por sempre tentar melhorar as condições de vida de sua caverna e, lógico, ser todo rosa. Uma conclusão um tanto quanto estereotipada? Talvez, mas é uma visão respeitosa e que, sejamos francos, funciona muitíssimo bem. E o mesmo vale para sua profissão, já que seu bordão mais famoso, Exit Stage Left que, no Brasil, foi traduzido como “Saída Pela Esquerda”, é uma instrução de palco em roteiros de peças de teatro significando, na literalidade, “Saída do Palco Pela Esquerda” (ele saía por outras direções também, mas a escolha da “esquerda”, aqui, é óbvia, não é mesmo?). E, claro, ele é sempre perseguido por um caçador diminuto, o que é trazido para a graphic novel como a perseguição macartista empreendida por Gigi Allen, emissária do Departamento de Estado para suprimir a “subversão nas artes” e que coloca o protagonista em sua mira, por descobrir que ele é gay, algo que ela pretende usar ou para destruir o Leão ou para trazê-lo para o seu lado.

Sim, já vimos essa história e variações dela várias vezes antes, especialmente no cinema. Mas ela nunca deixou de ser relevante e o texto de Russell é irresistível ao imprimir realismo – há diversos personagens reais, como Marilyn Monroe – com aquela qualidade surreal que permite que aceitemos facilmente o Leão da Montanha ser amante de um humano cubano ou Peter Potamus como diretor teatral, ou Dom Pixote como o amigo de infância do Leão que, depois de casar e ter filho, é expulso de casa por ser flagrado como gay. Há outras participações especiais ainda – até da Lula Lelé! – que, sozinhas, já valem mergulhar profundamente na história. Só que há mais, bem mais. Afinal, o trabalho de Russell, historicamente detalhado, lida de maneira sensível com a paranoia da Guerra Fria (olhando também, ainda que brevemente, para o lado soviético), a caça às bruxas catalisada pelo Senador Joseph MacCarthy e a hipocrisia e demagogia que decorrem daí, em uma obra que ensina sem didatismos além do que é estritamente necessário para nivelar o público que, por acaso, não conheça muito esse momento histórico dos EUA, o que torna a leitura, de toda forma, mais indicada a adultos.

E, como as cerejas no bolo, Russell é ainda capaz de oferecer não só um final lógico para sua história, basicamente o único possível para sua pegada realista, como também brindar os leitores e fãs das animações da Hanna-Barbera com conexões de se tirar o chapéu que deixarei propositalmente de abordar aqui para evitar spoilers. Mas garanto que quem conhecer a história dos cartuns da HB ou pesquisar um pouco sobre eles em geral e sobre o do Leão da Montanha em particular, fechará a última página da graphic novel com um sorriso no rosto, mesmo que seja um sorriso acridoce.

A arte de Mike Feehan exige costume pelo leitor, mas não por ter algum problema intrínseco a ela e sim pela premissa da história que reúne animais “humanizados” juntamente com humanos comuns, algo que fatalmente trará estranhamento. Mas, depois de algumas páginas ou, na pior das hipóteses, uma edição inteira, isso se torna mais comum e, portanto aceitável. Ultrapassado esse ponto, sua abordagem dos icônicos personagens animados que povoam a história é exemplar e até perturbadoramente lógica ao ponto de ser possível até mesmo esquecer que o protagonista é um leão rosa ou que o diretor teatral é um hipopótamo. A sobriedade é a chave de suas recriações e elas funcionam, sem exceção. Para manter o tom dramático da narrativa, o artista é comedido na forma como ele dispõe os quadros, normalmente quatro por página, evitando splash pages. É uma decisão acertada, já que o tom do texto de Russell não pede mais do que isso e ele arriscaria trair a premissa série se fizesse diferente. As artes finais ficaram ao encargo de variados artistas que imprimem seus próprios estilos aos traços de Feehan, mas sem solução de continuidade perceptível, o que empresta um ar harmônico a toda a obra. O mesmo pode ser dito das cores digitais de Paul Mounts, que são carregadas de sobriedade apesar do “colorido” dos personagens que desfilam pelas páginas.

Saída pela Esquerda: As Crônicas do Leão da Montanha é uma inacreditável joia em quadrinhos que deveria ter tido muito mais atenção do que teve. Mark Russell merece todas as comendas por ter retirado o Leão da Montanha do limbo e por tê-lo recriado de forma relevante e atual em uma HQ sofisticada e ousada como seu protagonista.

E cai a cortina.

Saída pela Esquerda: As Crônicas do Leão da Montanha (Exit Stage Left: The Snagglepuss Chronicles, EUA – 2018)
Contendo: Exit Stage Left: The Snagglepuss Chronicles #1 a 6
Roteiro: Mark Russell
Arte: Mike Feehan
Arte-final: Mark Morales, Sean Parsons, Jose Marzán Jr.
Cores: Paul Mounts
Letras: Dave Sharpe
Capas: Ben Caldwell
Editoria: Diego Lopez, Marie Javins
Editora: DC Comics
Data original de publicação: março a agosto de 2018 (encadernado: 29 de agosto de 2018)
Páginas: 167

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.