Crítica | Saída Pela Loja de Presentes

“Eu acho que a piada está… eu não sei onde está a piada. Nem sei se há uma piada, na verdade.”

Um homem mascarado joga um buquê de flores. Um soldado é revistado por uma menina. Dois oficiais de polícia se beijam. Uma garotinha desprende-se de seu balão vermelho. A arte de Banksy, que ganhou o mundo tanto pela sua habilidade em provocar através de grafites quanto pelo mistério acerca de sua identidade, possui um significado. Os homens, as flores, as garotinhas, os balões, os soldados, os policiais e os beijos existem. Qual a relevância, porém, destas provocações artísticas em um mundo no qual ninguém manifesta-se violentamente? Em que soldados não revistam pessoas indiscriminadamente? Em que a homofobia não mata, muito menos existe? Qual a relevância destas obras de arte, efêmeras em suas particularidades, em uma dimensão na qual crianças não são obrigadas a desprenderem-se de suas infâncias, que, como um balão, vai e não mais volta. A arte de rua, ao mesmo tempo, também tem um contexto. As obras, em certo momento, tomam uma grande força dentro do cenário artístico, encapsulando valores altíssimos e, em razão disso, vistas com outros olhares, distante de qualquer marginalidade. Como se é visto o artista quando ele não tem propósito senão ganhar dinheiro e ser famoso? Como se é visto o artista quando a arte dele não é única, especial, mas um conjugado de ideais a base de uma construção fordista?

De início, a decisão do artista em dirigir um documentário sobre grafite, arte de rua e, no final das contas, sobre a arte urbana e sobre a arte em si prova ser extremamente acertada, a começar pela introdução promovida pelo próprio, com o rosto coberto e a voz completamente modificada. Saída Pela Loja de Presentes é, antes de qualquer coisa, considerado por muitos como um prankumentary, dos mais engraçados e instrutivos, apesar de, crendo ou não, ser possível embarcar na jornada proposta, extremamente verdadeira nessa contemplação do meio artístico neste novo século de inovações, renovações e destruições. O artista, de antemão, revela a natureza do documentário: uma obra sobre uma pessoa que queria fazer uma obra sobre os artistas de rua, especialmente Banksy. O filme, consequentemente, abraça a trajetória de Thierry Guetta, indivíduo fora do âmbito artístico, mas que, curiosamente, tornar-se-ia uma das figuras mais bem sucedidas no ramo. O homem com uma câmera, hobbie compulsivo desse personagem magnífico, passa a gravar diversos artistas de rua, interessando-se mais e mais pelo clima da situação – a cidade noturna, o perigo da ilegalidade e a busca por algo maior -, e, de última instância, prometendo um documentário em troca.

Onde está essa fita? Aqui e ali, basicamente. A narrativa do documentário, inicialmente, embarca na trajetória de Thierry Guetta, conhecendo nomes expressivos como Shepard Fairey e, é claro, o próprio Banksy. A espirituosidade é uma marca da obra, ainda mais pelo fascínio do espectador em uma criatura tão ímpar quanto Guetta. O grande ponto de virada acaba por ser o lançamento do documentário feito pelo próprio, o Mr. Brainwash. Life Remote Control, resultado da montagem de milhares e milhares de gravações completamente aleatórias e misturadas, é, no mínimo, pelo que apresenta o filme, uma lavagem cerebral abstrata, um documentário, obviamente, mas não o documentário que Banksy esperava, ou, então, acreditava ser bom. O tom da obra muda completamente e esta torna-se uma comédia, pois, enquanto Banksy decide, continuando com a história, pegar o material de Guetta e fazer um novo longa-metragem, o artista, seguindo indicação de seu ídolo, é instruído a fazer “arte”. O nascimento de Mr. Brainwash ou é é uma das coisas mais geniais de todos os tempos, construída sobre uma história ficcional interessada em entender a arte de rua, ou é a maior piada pronta da humanidade. “Banksy nunca mais incentivou uma pessoa a fazer arte”, surge no final do filme.

A coletânea de imagens gravadas por Guetta é minimamente verídica, mas, ao final da sessão, não é muito complicado o espectador, pensando muito na obra, terminar encarando-a como uma farsa, combinando elementos reais com elementos fabricados. A grande questão é que Saída Pela Loja dos Presentes cresce ainda mais para o espectador quando vista como uma mentira – seja, em uma espécie de paradoxo, uma mentira realmente mentirosa ou uma mentira passada como mentirosa, mas verdadeira -, como mais uma das obras de arte criadas por Banksy. Life is Beautiful, gigantesca exposição de Guetta, não seria um gigantesco trote do artista? Guetta não seria o próprio Banksy? As teorias da conspiração percorrem toda essa história e, no final das contas, encontra espaço de justificativa dentro da própria narrativa do documentário, com possíveis furos a serem notados e admirados pelos espectadores. O único caso no qual esses furos acabam sendo possíveis deslizes para a história contada é em relação aos membros da família de Thierry, presentes pontualmente, mas insignificantes para o conjunto. Em alguns momentos, a localização geográficas deles é completamente esquecida, enquanto Guetta continua viajando e viajando, como se não tivesse filhos em algum lugar do mundo. A arte, de qualquer forma, sempre o rodeia.

Saída Pela Loja de Presentes, todavia, muito mais do que um mistério, é um poderoso contemplador da arte e desmitificador dela. A própria quebra da estrutura da arte urbana é notada, durante a investida de Thierry Guetta nesse meio, passando a filmar os artistas da esfera urbana. A efemeridade, portanto, do grafite torna-se algo desconstruído, visto que, por exemplo, as aventuras de Banksy estão expostas pela internet, não mais durando alguns dias, não mais que alguns dias. Ao mesmo passo, a arte de rua torna-se um comércio, indo da arte pela arte, da arte pela sociedade, para encontrar a arte estampando uma caneca de plástico ou um quadro multimilionário. A saída financeira para os artistas é a loja de presentes. Banksy, por exemplo, tornou-se uma pessoa extremamente rica – se já não fosse. Por que o Mr. Brainwash, como Guetta decide se auto-apelidar, está errado, no final das contas? O processo foi encurtado e o objetivo foi atingido. A arte é a grande farsa. Um material como esse, portanto, é de uma riqueza absurda, conseguindo abranger tantas áreas de discussão sobre a arte de uma maneira tão sólida que é impossível abordá-las completamente em um texto de modo tão capaz quanto Banksy consegue o fazer, através de uma mentira ou de uma verdade, em seu próprio filme.

Saída Pela Loja de Presentes – Reino Unido/EUA, 2010
Direção: Banksy
Roteiro: Banksy
Elenco: Thierry Guetta, Banksy, Shepard Fairey, Rhys Ifans, Brad Pitt, Angelina Jolie
Duração: 87 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.