Crítica | Saint Young Men – Vol.1

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estrelas 4,5

Não precisou muito para meu irmão me convencer da leitura desse mangá. Bastou ele dizer que a história era sobre “Jesus e Buda dividindo um apartamento em Tóquio” e pronto, eu já tinha um ‘próximo da fila’ para assim que terminasse o primeiro arco de JoJo’s Bizarre Adventure.

A publicação de Saint Onii-san teve início em setembro de 2006 e ganhou o seu primeiro volume (reunindo os capítulos 1 a 8) em janeiro de 2008, no Japão. O mangá é uma comédia, uma sátira no estilo slice of life que acompanha Jesus Cristo e Buda Gautama como colegas de quarto em um pequeno apartamento em Tóquio. Como é comum encontrarmos em quadrinhos com esse estilo de crônica, as ações não possuem exatamente uma grande linha narrativa que evolui, com novos personagens, arcos temáticos e coisas do tipo. Claro que existem elementos que vão mudando, compondo a história de maneira recorrente, do começo ao fim do volume, mas o foco mesmo são as várias situações vividas por Jesus e Buda em suas férias na Terra.

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O blog de Jesus.

Minha preocupação inicial era para a explicação de como essas duas grandes figuras na História da humanidade acabaram morando juntas e o por quê deles estarem na Terra. Mesmo tendo em mente a intenção da autora em fazer uma sátira com os dois personagens, não dá para desconsiderar a questão obrigatória de sentido nas explicações para um enredo com esse cenário. Para minha surpresa, a explicação veio simples, aplicada a uma “humanização divina”, se é possível criar esta categoria, dos dois personagens, dando a eles certas nuances que conhecemos bem sem jamais lhes tirar as características sobrenaturais.

Para os leitores religiosos, é importante ter em mente o propósito do mangá e a relativização de culto e santidade de um objeto sagrado, que é algo particular, jamais Universal. Todavia, a sátira e o humor de Hikaru Nakamura não são em nenhum momento desrespeitosos com o cristianismo e o budismo. Há, inclusive, no belo penúltimo capítulo, intitulado Posso Fazer ou Não?, diversas alusões aos ensinamentos das duas figuras e isso pode ser encontrado com pitadas menores também no início do volume. Mesmo que a trama foque em brincadeiras, “programas de índio” e situações mundanas desses personagens, não é intenção da mangaká zombar da santidade, iluminação ou nada disso. O respeito, inclusive, torna a história ainda mais terna, diria até fofa em alguns momentos.

Na maior parte do volume, a arte adota uma representação clean, com o objetivo de destacar os protagonistas e não os cenários. Quando o ambiente, por algum motivo, tem um significado maior, como nos festivais ou nas ocasiões em que a dupla deve conhecer determinados espaços, há uma boa integração entre eles e o lugar, que mesmo assim não é desenhado de forma espalhafatosa. Destaca-se também a simplicidade nos desenhos de Jesus e Buda, cada um com feições, símbolos ou elementos que nos faz identificá-los (ou a partes de sua história) rapidamente.

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Uma tirinha de Buda que faz Jesus rolar de rir.

A construção das personalidades dos dois é o que mais me chamou a atenção, por ser a coisa mais rica do volume. Novamente, eles são retratados como jovens adultos [quase] comuns, mas considera-se o tempo todo os seus poderes, como o fato de Jesus transformar coisas, operar milagres e Buda atrair o amor de todos os animais e conquistar a qualquer um por seu sorriso iluminado, o que torna tudo ainda melhor. As irradiações de luz e extremo controle de Buda (eu gargalhei na cena em que ele anda de montanha-russa) e as fanfarronices, a sociabilização e mania de gastar dinheiro de Jesus são bons exemplos de união entre o “comum” e o “divino”. Ambos são educados e gentis, mas tem explosões de diversas formas, tanto positivas quanto negativas, e a minha favorita é quando Jesus lê uma tirinha escrita e desenhada por Buda e acha tão engraçado que começa a operar milagres sem querer. É uma das coisas mais legais que eu já vi em um contexto de representação religiosa fora de mídias religiosas.

Cheio de brincadeiras, ótimas piadas e com uma relação de amizade e santidade entre Jesus e Buda que nos prende do começo ao fim, Saint Young Men é uma das poucas obras em quadrinhos que eu vi tratar de maneira inteligente um personagem de uma religião ou filosofia de vida explorando possibilidades alheias à religião/ensinamentos e, ao mesmo tempo, flertando com o cânone religioso/filosófico (quem se interessa pelo tema, sugiro fortemente a leitura da minissérie Punk Rock Jesus). Mais uma capítulo impagável na história das muitas representações ‘divinais’ que a arte nos proporciona.

Saint Young Men Vol.1 (Saint Onii-san 1) — Japão, 2008
Roteiro: Hikaru Nakamura
Arte: Hikaru Nakamura
132 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.