Crítica | Sal de Prata

Sal de Prata

estrelas 3

Sal de Prata é uma das produções da Casa de Cinema de Porto Alegre, reduto intelectual que produz bastante na região sul e é um dos responsáveis pela dinamicidade atual do cinema brasileiro enquanto esquema industrial. Giba Assis Brasil, um dos fundadores da casa em 1987, levou o prêmio de melhor montagem pelo filme, durante o Festival de Gramado. Resumindo: uma produção entre amigos, pessoas que compartilham praticamente das mesmas ideias.

Responsável por obras renomadas (e, algumas, questionadas na posteridade, como Ilha das Flores), a fundação já realizou filmes como Tolerância, Meu Tio Matou um Cara, Saneamento Básico, entre outros. Orçado em U$4 milhões, Sal de Prata foi a quarta realização cinematográfica de Carlos Gerbase,

O filme está dividido em quatro segmentos: andante, largo, adagio e allegro. Ao longo dos 97 minutos de narrativa, Sal de Prata nos apresenta ao drama de Cátia (Maria Fernanda Cândido). Ela é uma economista muito bem sucedida. Apaixona-se por Veronese (Marcos Breda) um cineasta fracassado que vive de uma loja de revelação de fotografias e sempre está ligado aos produtores de curtas, pensando numa próxima oportunidade de se relacionar com o cinema.

O cineasta Carlos Gerbase, também responsável pelo roteiro do filme, nos entrega uma história com complexos personagens opostos. Enquanto ela é moradora de um sofisticado apartamento, ele mora num local velho e cheio de bugigangas. Enquanto retrata os conflitos e transições de um relacionamento, Gerbase aborda o sal de prata do seu título, substância capaz de deixar o filme sensível à luz, numa produção que adentra nos bastidores de realizações dos personagens para refletir de forma indireta a morte do filme convencional, graças ao advento da imagem eletrônica.

Os protagonistas são diferentes, mas percebe-se que há sentimentos fortes em torno de ambos. Ela gostaria de morar junto com ele, mas o rapaz prefere da forma como está. Ela não se interessa pelo mundo dele, nem ele pelo dela. Mas, após um ponto de virada interessante, a moça inicia uma jornada rumo ao mundo do cinema e, perigosamente, começa a perder o equilíbrio entre o que é real e o que é imaginado.

No filme, Jacob Soletrinick mesclou, de forma bem desafiadora, imagens em 35 mm e DV (Digital Video), tendo em mira espelhar as duas possibilidades. Daí, o filme flerta com estas mudanças no processo de realização cinematográfica, questão contemplada através de gestos e em diálogos do filme, sendo o segundo, um dos problemas, pois às vezes soam mecânicos e pouco emocionantes.

O espaço narrativo também é aproveitado de maneira plena. Porto Alegre é uma cidade muito explorada ao longo do filme, por isso, somos remetidos aos mais diversos elementos urbanos que nos direcionam ao imaginário da cidade. A geografia, o cotidiano da população e a aspectos básicos da sua infraestrutura, delineados através de uma câmera que funciona bem em alguns momentos.

Outro destaque é a trilha sonora com músicas do século XIX, ao som de instrumentos de corda, numa possível tentativa de trazer aspectos românticos para a atmosfera do filme. Há uma canção de Rita Lee para quebrar a linha reta da música no filme, mas o diretor musical Tiago Flores prefere ovacionar clássicos, como por exemplo, o Quarteto de Cordas nº 01, de Tchaikovsky. A direção de arte também merece destaque: o quarto de Veronese é repleto de quadros de obras-primas do cinema, tais como Laranja Mecânica e Cidadão Kane.

Sal de Prata não é um filme ruim, ao contrário, deve ser visto como algo não convencional, num intenso espetáculo onde Carlos Gerbase emoldura as suas metáforas visuais e conduz a narrativa que em alguns momentos parece fazer uso da estética nonsense. Em 2005, a nossa cinematografia já havia alcançado um posicionamento mais versátil, mas ainda ecoava a nossa herança do eixo sertão e favela que determinou as nossas produções durante muitas décadas. Não é um filme facilmente palatável, receptivo, de fácil acesso.

Para adentrá-lo e, talvez, compreendê-lo, é preciso que o espectador se livre de algumas amarras, tais como as narrativas que explicam milimetricamente cada personagem, as escolhas narrativas, os filmes com notas de rodapé, geralmente explicativos, tramas que esmiúçam a narrativa para o público.  De maneira parecida com Tolerância, Gerbase volta a tocar nas cordas sensíveis da fidelidade. No entanto, desta vez, não ligada ao matrimônio, mas a fidelidade ao cinema. E como destaque, importante perceber que não podemos deixar de mencionar o ótimo desempenho dramático de Camila Pitanga na cena de abertura, num clima que envolve sexo oral e uma abordagem corajosa do desejo feminino.

Sal de Prata — Brasil, 2005
Direção:
 Carlos Gerbase
Roteiro: Carlos Gerbase
Elenco: Bruno Garcia, Camila Pitanga, Janaína Kremer, Júlio Andrade, Maitê Proença, Marcos Breda, Maria Fernanda Cândido, Nelson Diniz
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.