Crítica | Sala Verde

Sala Verde, o terceiro longa de Jeremy Saulner é, em uma palavra, econômico. Em mais de uma, é linear, objetivo e lida com a morte de maneira simples, realista, mas sem precisar ser explícito sempre. É um filme pequeno, mas cruel e para ser assistido em uma sentada só, sem desgrudar os olhos da tela, talvez roendo as unhas de aflição. É violento, mas sem exageros e é tenso dentro de sua proposta básica de não ser mais do que é: um suspense bem construído, do tipo “pão, pão, queijo, queijo”, sem maiores pretensões artísticas.

A história lida com uma banda de punk rock que, ao fazer um show em um lugar ermo, quartel-general de roqueiros neonazistas, acaba vendo o que não devia e são enjaulados ali mesmo, na chamada sala verde (que é o nome da antesala onde ficam os artistas nos intervalos ou após apresentações), com o líder dos skinheads, Darcy, vivido de forma assustadoramente calma por ninguém menos do que Patrick Stewart, fazendo de tudo para atraí-los para fora. Os amigos Pat (Anton Yelchin), Sam (Alia Shawkat), Reece (Joe Cole) e Tiger (Callum Turner) são ratos em um labirinto quase que completamente sem saída, mas que não pretendem desistir facilmente, mesmo diante do que parece ser impossível.

Mas enganam-se aqueles que esperam um filme em que os heróis bolam um plano mirabolante ou em que suas ações são abordadas de maneira gloriosa, cheia de efeitos e câmera lenta. Saulnier não é afeito a firulas e nem entrega o que aguardamos de uma obra assim, estruturada em torno de um espaço confinado, um clichê cinematográfico. Muito ao contrário, seu roteiro é seco e preciso, sem violência ou mortes estilizadas ou espetaculares. Com uma fotografia sombria, mas nunca escura de verdade, ele maneja bem as armadilhas do gênero e entrega uma obra que mantém o ritmo acelerado do começo ao fim, de maneira substancialmente homogênea, evitando até mesmo um clímax glamouroso, se é que podemos chamar o clímax de clímax mesmo.

Ele, porém, arrisca-se em ignorar quase que por completo a construção de personagens. Sabem aqueles filmes que apresentam os personagens um a um, mostram suas qualidades e defeitos e, depois, os usam para levar as narrativas a seus respectivos desfechos? Isso não existe em Sala Verde. Sabem aquela pré-definição clara sobre quem sobreviverá e quem morrerá e como isso acontecerá? Também não há nada disso aqui. E não, Saulnier não vive de surpreender o espectador com momentos mirabolantes. Como disse, ele não tem firulas e executa seu plano de forma rápida e brutal a ponto de por vezes termos que realmente parar para lembrar quem foi que acabou de morrer, já que ele não se preocupa em fechar a câmera no personagem na medida em que a morte ocorre. Ela simplesmente só acontece, seja off camera, seja com ângulo que torna a identificação difícil, seja em plano geral, técnicas que ele usa para fugir da sanguinolência explícita desnecessária e que, hoje em dia, tende a substituir a técnica. Afinal, a melhor violência, aquela que tem efeito mais duradouro, não é necessariamente a que vemos em detalhes. Mesmo assim, para quem gosta de sangue, ele está presente também, só não aos borbotões como, por exemplo, no também excelente Confronto no Pavilhão 99.

Portanto, de certa forma, não há desenvolvimento de personagens. Eles apenas estão lá, o que, aqui, funciona para o objetivo do filme unicamente porque o roteirista e diretor sabe criar tensão e apelar para aquela nossa torcida interior pelo lado que percebemos ser o certo (e isso fica fácil, pois são neonazistas do outro lado, afinal de contas). Não nos interessamos e nem torcemos necessariamente por esse ou aquele personagem, já que não os conhecemos, o que também abre o jogo para a morte de qualquer um ou de todos mais facilmente. É, para todos os efeitos, a saída “mais fácil”, mas, por outro lado, a que poderia alienar o interesse do espectador. Saulnier joga um bom jogo e ele é sábio em saber encerrá-lo no momento certo, sem enrolação.

Sala Verde não tem significados escondidos ou mesmo mensagens edificantes ou significados maiores do que o que está na tela. Mas o diretor sabe manipular e trabalhar o tempo e o ritmo de tal forma que são 95 minutos que passam em cinco. E as unhas roídas terão que ser varridas quando os créditos começarem a rolar.

Sala Verde (Green Room, EUA – 2015)
Direção: Jeremy Saulnier
Roteiro: Jeremy Saulnier
Elenco: Anton Yelchin, Imogen Poots, Alia Shawkat, Joe Cole, Callum Turner, Patrick Stewart, Macon Blair, Mark Webber, Kai Lennox, Eric Edelstein, David W. Thompson, Brent Werzner, Taylor Tunes, Samuel Summer, Mason Knight, Colton Ruscheinsky, Jacob Kasch
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.