Crítica | Samantha! – 1ª Temporada

Dizem por aí que Samantha! é uma sitcom, mas creio que esse enquadramento seja reducionista e até, de certa forma prejudicial à série desenvolvida por Felipe Braga. Sim, há uma veia cômica que permeia toda a obra e sim, ela poderia ser classificada como uma comédia, mas seu lado dramático, seus comentários sociais e seu sub-texto melancólico a aproxima de um drama cômico ou, como inventaram um dia, uma “dramédia”.

E, sinceramente, acho importante compreender isso para evitar encarar a 1ª temporada da série como algo feito para rir e não para pensar, traços hoje normalmente visto como mutuamente excludentes. A terceira produção brasileira do Netflix é um primor, ainda que falho, de auto-crítica e de comentários que cutucam fortemente a busca insana pela celebridade, por aqueles minutos de fama custe o que custar, por um momento que seja de mentira fabricada para agradar as massas.

No epicentro da narrativa, há Emanuelle Araújo brilhando como a versão de meia idade de Samantha!, apresentadora mirim de um programa infantil na década de 80 que nós tanto vimos e vemos por aí constantemente, aqui e lá fora. Samanthinha, vivida por Duda Gonçalves, é aquela criança-astro mimada de nove anos que achamos fofinha exteriormente, mas que temos vontade de afogar na privada mais próxima e a Samantha de Araújo é a perfeita transposição de alguém que não cresceu para um corpo crescido, ainda vivendo do passado e fazendo todo o possível para manter-se nos holofotes.

A atriz (Araújo) é também o grande chamariz da temporada, construindo uma personagem tonalmente perfeita, que tenta equilibrar essa sua sana por fama com sua vida familiar, agora que é mãe de duas crianças. Seu ex-marido, o ex-jogador de futebol Dodói (Douglas Silva), acabou de sair da prisão, onde ficou por 12 anos completamente afastado da família que nunca viu fora das grades. Apesar do crime que cometeu, ele permanece no imaginário popular e é idolatrado pela turba que precisa de alguém para gritar e tatuar o nome no corpo, algo que irrita Samantha imensamente e a coloca ainda mais claramente em busca de sua volta triunfal à televisão. No meio disso tudo, temos Cindy (Sabrina Nonata), de 11 anos e Brandon (Cauã Gonçalves) de oito, crianças precoces que estabelecem um rapport imediato com o espectador em razão de seu carisma instantâneo.

Quando disse que a série tem falhas, elas estão concentradas nas conveniências deste seio familiar, que é convenientemente vazio de conflitos verdadeiros. Dodói é um inconsequente promíscuo, mas, basicamente, tudo bem, isso não é um grande problema. Sua volta é recebida pelas crianças com a maior naturalidade do mundo, o que faz com que a série evite abordar essa questão, tornando sua ausência preso por 12 anos apenas um detalhe quase que completamente sem relevância (teria sido igual se ele tivesse sumido por qualquer razão e reaparecido agora). É aqui que a série resvala mais “perigosamente” na estrutura leve de uma sitcom, além da natureza episódica de cada situação, mas esse tangenciamento para por aí.

Em seu âmago, Samantha! é o culto da celebridade visto por dentro, com toda a corrosão que isso traz para a vida de todos os envolvidos. Não há a seriedade e a profundidade de uma série como UnREAL, mas esse nem é o objetivo. A protagonista vive de sua aparência e de sua fama passada, sem jamais ter tentado construir uma carreira que a desvencilhasse da figura daquela garotinha insuportável que era na década de 80. Sim, ela é uma mãe carinhosa (outra, digamos, conveniência, pois seria pesado demais se não fosse assim) e ainda nutre sentimentos pelo malandro do ex-marido (obviamente), mas, no fundo, ela está disposta a fazer absolutamente qualquer coisa para renovar essa sua fama passada, mesmo que, em um interessante conflito de gerações, a série estabeleça muito inteligentemente a efemeridade da celebridade atual versus a maior perenidade das celebridades do passado.

Aliás, a inserção de uma social influencer (é muito ridícula essa denominação…) na figura da ainda menos escrupulosa Laila (Lorena Comparato) é o momento em que a temporada realmente ganha destaque e consegue mostrar efetivamente a que veio. Aqui, a crítica à estrela de rede social é arrasadora e muito eficiente ao ponto de eu ficar pensando se esse pessoal conseguirá se ver ali e, em caso positivo, se ficarão com raiva da forma como foram retratados. Escorre veneno nos textos do roteiro, mas ele não fica reservado ao novo, ao atual. A própria Samantha é uma paródia viva e fica mais do que nas entrelinhas o tipo de exploração oitentista de mini-celebridades.

Samantha! também tenta ser politicamente incorreta, o que, por si só, é um respiro em meio à tanta obra sanitizada por aí. Douglas Silva, que também demonstra um ótimo e natural timing cômico e uma química perfeita tanto com Araújo quanto com Sabrina Nonata e Cauã Gonçalves, é o estereótipo do jogador de futebol que um dia teve sucesso. Ainda que seu crime no passado não seja explorado e fique em subtexto que sua prisão foi injusta, o fato é que ele é um ex-presidiário que também tenta viver de sua fama passada dentro da sempre efêmera carreira de jogador, com sua forma física atual sendo motivo de piadas constantes, além de sua incapacidade de fazer absolutamente qualquer coisa que não seja relacionada com sua ex-carreira. Samantha também é a incorreção política em pessoa, mas, aqui, faltou mais incisividade. Claro, seu “mentor” desde criança é um senhor de idade que se veste de maço de cigarro (Ary França, como Zé Cigarrinho), algo por si só hilário ao nos fazer lembrar o quanto o cigarro estava presente em nossas vidas, mas falta ao texto algo mais pesado para Araújo trabalhar, talvez com medo de alienar uma boa parte do público.

Com apenas sete curtos episódios, uma fenomenal vantagem no panorama do Netflix, que volta e meia insiste em formatos mais longos sem ter realmente o que dizer, Samantha! é uma inteligente e muito bem atuada série cômica, mas de veia dramática (ou seria o contrário) que não perdoa ninguém que aparece em sua mira. Sem militância explícita de um lado ou de outro e sem discursos politizados estéreis (há política, mas ela é mantida em xeque pela tal incorreção política dos roteiros), a série é uma bela lufada de ar fresco que dá vontade de imediatamente ver uma 2ª temporada.

Samantha! (Brasil, 06 de julho de 2018)
Showrunner: Felipe Braga
Direção: Luis Pinheiro
Roteiro: Roberto Vitorino, Patricia Corso, Rafael Lessa, Filipe Valerim
Elenco: Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonata, Cauã Gonçalves, Daniel Furlan, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Maurício Xavier, Lorena Comparato, Duda Gonçalves, Sidney Alexandre, Enzo Oviedo, Alessandra Negrini, Fernanda Matias, Alice Braga, Luciana Vendramini
Duração: 25 a 35 min. por episódio (7 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.