Crítica | Samba (2014)

estrelas 3

Existe uma questão urgente na Europa, nessas décadas iniciais do século XXI. Retratada ora como problema, ora como um fator de identidade bem acolhido no continente (algo que, na maioria dos casos, não é), a imigração vem sido mostrada por cineastas de diversas orientações ideológicas e com diferentes mensagens na relação entre os envolvidos no “problema”. Obras como Eu, Você, Os Outros (2010), O Porto (2011) e Samba (2014) mostram diferentes faces da relação entre nativos e estrangeiros, dando-nos uma ideia de convivência social bastante similar à que temos aqui no Brasil para a mesma questão: enquanto alguns veem como natural a integração entre povos, sob qualquer aspecto, outros, guiados por xenofobia, racismo, preconceito ou alguma “justificativa” que criam para essa rejeição, veem os imigrantes como ameaça ao mercado ou à própria nação.

Samba, aguardado filme que se seguiu a Intocáveis (2011), tremendo sucesso mundial da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, traz à tona a questão da imigração em suas nuances institucionais e um outro problema bastante incômodo na França atual, a crise no mercado de trabalho, questão mostrada pelos irmãos Dardenne em um filme desta mesma safra, Dois Dias, Uma Noite (2014). Na trama, Samba Cissé (Omar Sy, em uma atuação mais intimista que a de Intocáveis) é um imigrante sem documentação que foi preso pela polícia. Atendido por Alice (Charlotte Gainsbourg) uma assistente social a quem se liga imediatamente, Samba tenta sobreviver com o medo e a necessidade de estar sempre fugindo. Mais adiante na trama, um argelino chamado Walid/Wilson (Tahar Rahim) se faz amigo de Samba e ambos tentam encontrar uma saída para a situação ilegal em que vivem. Infelizmente, o personagem de Rahim é abandonado pelos diretores, um dos muitos erros de fechamento que a obra possui.

É fácil perceber que o tema de Samba é necessário e que as intenções dos diretores são boas. Em certa medida, eles discutem a ação do governo frente às necessidades de uma parte da população, mostram os meandros burocráticos das instituições e fazem um humor bastante incomum, algo que tem se mostrado um belo charme nos roteiros que pendem para o ‘politicamente incorreto’ (este aqui, a propósito, baseado no livro Samba Pour La France, de Delphine Coulin). Mas todos esses pontos estão entrelaçados a um cenário romântico, caricato, de massa — no pior sentido do termo. Charlotte Gainsbourg, por exemplo, passa a estranha sensação de uma caricatura de sua personagem em Ninfomaníaca. Omar Sy, apesar de estar bem no filme, teve seu personagem construído mais ou menos dentro da mesma forma dramática que Driss. É como se os diretores não confiassem no material que tinham em mãos e, por isso mesmo, tivessem facilitado os alvos de ataque e a forma como isso deveria aparecer na tela. Com isso, tanto o público quanto os cineastas saíram perdendo.

Na trilha sonora, o desencontro também aparece. Apesar da presença de duas canções brasileiras bem colocadas na fita (Palco, de Gilberto Gil e Take it Easy My Brother Charles, de Jorge Ben), certas peças do compositor Ludovico Einaudi parecem não se encaixar nas cenas, a despeito de toda sua beleza. Waiting in Vain de Bob Marley & The Wailers, infelizmente vai pelo mesmo caminho. Por pouco, as ótimas Love theme from Spartacus (Terry Callier) e To Know You Is To Love You (Syreeta & Stevie Wonder) não seguiram a mesma trilha, mas no todo acabaram sendo bem utilizadas. O que talvez compense esse uso menos exigente da trilha sonora é a ótima edição e mixagem de som, com seus cortes secos que servem para deslocar o espectador de uma cena para outra como em uma síncope, um recurso bastante antigo no cinema mas muito eficiente para construir sensações dramáticas contrastantes sem fazer uso de uma cena com diálogos para isso.

Com uma direção pouco ousada e elementos técnicos mais insípidos — a fotografia esmaecida e pouco atrativa de Stéphane Fontaine é um bom exemplo –, Samba é um filme que consegue divertir em partes, que consegue fazer o público pensar e sentir um pouco, mas traz no meio desses dois importantes blocos o amargor da busca pela bilheteria a todo custo, uma espécie de tentativa desajeitada de seguir uma fórmula da qual os diretores não precisavam, gerando um resultado final parcialmente desanimador. E isso não é dito totalmente pela qualidade geral da obra, que, apesar de tudo, é boa. Mas porque sabemos que a fonte que a gerou poderia nos entregar algo muito, muito melhor.

Samba (França, 2014)
Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano
Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano, Muriel Coulin (baseado na obra de Delphine Coulin)
Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izïa Higelin, Isaka Sawadogo, Hélène Vincent, Youngar Fall, Christiane Millet, Jacqueline Jehanneuf, Liya Kebede, Sabine Pakora
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.