Crítica | Samurai III: Duelo na Ilha Ganryujima

estrelas 4,5

Obs: Leiam as críticas de cada um dos filmes da Trilogia Samurai de Hiroshi Inagaki, aqui.

É muito interessante ver a evolução da Trilogia Samurai, de Hiroshi Inagaki. Ela não só foi imaginada efetivamente como um filme só dividido em três partes, o que dá fluidez à narrativa, ainda que individualmente os filmes se percam um pouco, como a jornada de crescimento e iluminação do protagonista, Musashi Miyamoto (Tochirô Mifune) tem uma lógica inversa a que estamos acostumados nos frenéticos dias atuais. Basta pensarmos em outras famosas trilogias por aí, como a do Homem-Aranha, de Sam Raimi ou mesmo a de Batman, de Christopher Nolan. Nelas, a cada novo episódio, a grandiosidade aumentou, o espetáculo passou a ser mais importante que a história ou ao crescimento do personagem.

Sei que a comparação é injusta, pois são épocas diferentes e filmes fundamentalmente diferentes de culturas separadas por um oceano, mas o raciocínio pode ser aplicado literalmente a todas as continuações modernas: mais é visto como sinônimo de melhor. No caso da trilogia de Inagaki, o caminho que seus filmes seguem é o oposto. A cada novo capítulo, há menos frenesi, menos combates e mais contemplação. Em Samurai I: O Guerreiro Dominante, Musashi é um elemento da natureza, completamente descontrolado. Em Samurai II: Morte no Templo Ichijoji, ele continua sendo um elemento da natureza, mas que observa e se curva à regras de conduta que canalizam suas habilidades como espadachim. E, finalmente, em Samurai III: Duelo na Ilha Ganryujima, Musashi chega ao ponto alto de sua carreira como espadachim errante, com grande sabedoria e serenidade.

E essa tranquilidade do personagem é sentida na combinação de um roteiro parcimonioso de Inagaki com Tokuhei Wakao no quesito duelos com uma fotografia quase etérea por parte de Kazuo Yamada. Esses dois elementos, somados à atuação realmente transformativa de Mifune, emprestam a Samurai III uma qualidade quase filosófica e pensativa, fazendo-nos, talvez, entrar de verdade na mente do protagonista que, hoje em dia, é um mito no Japão.

Vamos começar pela fotografia. Yamada trabalha filtros suaves que são sentidos mais fortemente ao longo da projeção se comparados com as duas primeiras partes dessa trilogia. Ele também uma uma paleta de cores bem mais rica, mais esperançosa, quase de conto-de-fadas, a começar pela sequência inicial em que vemos Kojiro Sasaki (Kôji Tsuruta) diante de uma cachoeira, com direito a arco-íris, pensando no futuro duelo que ele terá com Musashi. Mesmo quando o foco se volta a Musashi, Yamada continua trabalhando de maneira a passar, visualmente, uma aura transcendental ao personagem, pois esse é um aspecto importantíssimo nessa fita. Musashi Miyamoto já é uma lenda viva quando nós o vemos, com 60 duelos em que saiu sem derrotas. Ele é temido e amado na mesma proporção e Kojiro é o único que, em princípio se iguala a ele, mas que deseja definir qual dos dois realmente é o melhor.

Esse duelo final, que dá o título do filme e que é retratado de acordo com o que a lenda determina, ganha uma fotografia esplendorosa ao por-do-sol, em que vemos somente as silhuetas dos personagens à contra-luz em uma dança que ao mesmo tempo parece uma balé perfeitamente ensaiado e algo que poderíamos aceitar como verdadeiro, visceral. Mas esse é, literalmente, o único duelo de toda a fita e muitos poderão estranhar essa economia.

Mas Inagaki e Wakao estavam caminhando para esse desfecho e ele tinha que ser especial. A única maneira de alcançar seu objetivo além da supremacia técnica da sequência era usar um princípio básico de economia: quanto menos oferta, mais valioso é o produto. Ao rarear os duelos em Samurai III, os roteiristas deixam o espectador clamando por um combate e, quando ele chega, por mais curto que ele possa ser – e é curto – sorvemos cada detalhe, cada gota de suor da testa dos duelistas.

No entanto, aqueles que pensam que o espaço “vazio” deixado pela ausência de lutas ao longo da narrativa foi preenchido com platitudes estarão enganados. Em Samurai III, Inagaki e Wakao estão livres para trabalhar os personagens de maneira mais eficiente, pois não mais precisa apresentá-los. A sofrida Otsu (Kaoru Yachigusa) e a enganosa Akemi (Mariko Okada) ganham muito tempo para terem seus respectivos arcos narrativos encerrados de maneira convincente. O mesmo vale para o próprio Musashi que, agora, conta com dois discípulos e só luta quando realmente inevitável e, claro, o ambicioso Kojiro que vive para lutar com Musashi. Cada um dos quatro personagens principais tem seus momentos em que ele é foco, sem qualquer tipo de distração. Olhamos para todos com calma e apreensão, com a convergência de interesses que sabemos que se avizinha. Com isso, quando chegamos ao duelo final, o ponto alto da vida de Musashi (tanto na ficção quanto na realidade), só temos mesmo esse aspecto para direcionar nossas atenções. Mas há problemas ainda se lembrarmos dos personagens coadjuvantes dos outros dois filmes, pois seus arcos narrativos acabam ficando pendentes. Não é algo que atrapalhe a progressão da obra – na verdade ajuda – mas não deixa de parecer estranho.

Além da coreografia do duelo em Ganryujima, em grande parte lindamente emoldurado por duas árvores na praia, há, também, uma majestosa combinação de fotografia e coreografia na invasão do vilarejo onde Musashi vive como fazendeiro (em preparação espiritual para o duelo) pelos bandidos locais. Há muita balbúrdia, muita confusão e muita coisa acontecendo ao mesmo. Sentimos como se estivéssemos lá, com uma câmera que não se furta de ficar no meio da ação, com uma coreografia de extras quase inacreditável, comparável a muitos trabalhos de Akira Kurosawa, cineasta que particularmente reputo como sendo o grande mestre da composição cenográfica de batalhas da Sétima Arte. E detalhe: a fotografia nessa sequência é noturna, com o belíssimo uso de chamas para pintar de vermelho as tomadas.

Sem dúvida alguma, Samurai III é a exceção que confirma a regra. Trilogias normalmente têm um terceiro capítulo mais fraco e, aqui, é o inverso que acontece. Inagaki deixa Musashi Miyamoto também no panteão dos heróis do cinema.

Samurai III: Duelo na Ilha Ganryujima (Miyamoto Musashi kanketsuhen: kettô Ganryûjima, Japão – 1956)
Direção: Hiroshi Inagaki
Roteiro: Hiroshi Inagaki, Tokuhei Wakao (baseado em romance Eiji Yoshikawa e peça de Hideji Hôjô)
Elenco: Toshirô Mifune, Kôji Tsuruta, Kaoru Yachigusa, Mariko Okada, Michiko Saga, Takamaru Sasaki, Daisuke Katô, Haruo Tanaka, Kichijirô Ueda, Kenjin Iida, Akihiko Hirata, Michiyo Kogure, Mitsuko Mito
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.