Crítica | Samurai Jack – 1ª Temporada

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estrelas 5,0

Poucos foram os nomes que marcaram tanto a história da animação para a televisão quanto o de Genndy Tartakovsky. O realizador russo não só nos trouxe O Laboratório de Dexter nos anos 1990, como esteve envolvido em diversos outros projetos do Cartoon Network, como A Vaca e o FrangoAs Meninas Super-Poderosas. De todas as suas obras, porém, uma se destaca ainda mais e esta é Samurai Jack, que estreou nas telinhas em agosto de 2001, como um filme dividido em três partes. Estamos falando de um desenho que a todo e qualquer momento transpira autoria e que até hoje nos impressiona pela sua narrativa única.

A história tem início com o retorno de Aku, um demônio há muito tempo aprisionado, e que agora visa continuar seus planos de dominação mundial. Ciente da espada utilizada para derrotá-lo em tempos passados, a criatura consegue acabar com seu antigo nêmesis e toma conta do Japão. O que ele não esperava, contudo, é que o filho do líder daquelas terras escaparia e começaria seu longo treinamento para derrotar esse algoz. Anos se passam e o samurai retorna para terminar o reinado de Aku, mas, à beira da vitória, ele é enganado pelo demônio e é enviado para o futuro, onde a palavra desse vilão é lei. Cabe ao guerreiro solitário, que passa a ser chamado de Jack, encontrar o caminho para o passado a fim de destruir o demônio antes de seu poder se tornar absoluto em uma inspiração temática tirada da graphic novel Ronin, de Frank Miller, lançada em 1983.

Já é possível enxergar que estamos diante de uma obra diferenciada nos primeiros minutos da primeira temporada. Os três capítulos que formam a première da série são um espetáculo à parte, definindo todo o estilo da narrativa a ser seguida nos próximos episódios. Estamos falando de um desenho basicamente ausente de diálogos, com a história toda sendo definida pela ação, que vai desde o protagonista percorrendo grandes distâncias até combates verdadeiramente épicos. Tartakovsky, que dirige todos os episódios, algumas vezes ao lado de nomes de peso, como Randy Myers e Rob Renzetti, brinca com suas sequências, muitas vezes dividindo a tela em quadros a fim de ilustrar uma ação.

Um dos aspectos que logo de cara chamam a nossa atenção em Samurai Jack é como seu criador se preocupa com a linguagem cinematográfica que define a identidade do desenho. Closes no olhar do protagonista são constantes e fornecem a necessária tensão dramática a inúmeros trechos. Através unicamente da expressão de cada personagem podemos entender o que cada um pensa ou como se sente, dispensando, portanto, os diálogos, que, como já dito antes, só aparecem quando estritamente necessários. O curioso dessa abordagem única é como o realizador consegue nos fazer gostar do personagem principal, que é extremamente carismático mesmo em seu silêncio.

Toda a herança da animação, naturalmente, não deve ser descartada. Tartakovsky evidentemente se inspira em inúmeras obras para construir essa sua série. Os 300 de EspartaOs Sete SamuraisStar Wars, a Trilogia dos DólaresOcarina of Time são apenas algumas dessas que podemos listar, isso sem falar nas dezenas de referências cinematográficas que aparecem ao longo dos treze episódios da temporada, uma delas, inclusive, a O Iluminado de Stanley Kubrick. Claro que o desenho também faz claras homenagens à toda a cultura japonesa, além de utilizar elementos da composição visual dos animes, especialmente na movimentação, ainda que a animação em si seja mais fluida.

Outro aspecto que faz de Samurai Jack algo único é sua paleta de cores, cada capítulo tomando uma determinada cor como o foco principal, compondo a imagem através de degradês dentro daquele espectro específico. As escolhas são mais do que óbvias de acordo com o que vemos em tela, mas dialogam perfeitamente com a simplicidade do traço de Tartakovsky, que dispensa o realismo a favor de sua arte autoral, fortemente apoiada em formas mais angulares. Nisso tudo, é interessante observar como o protagonista consegue se destacar de seu meio, ainda que, em determinados momentos, suas cores espelhem às de sua localização atual. Não há como ver um plano sequer da obra sem saber a qual ela pertence, tamanha é a sua identidade.

A trilha sonora também não fica de fora dessa. Composta por James L. Venable, que posteriormente trabalharia com o realizador russo em Clone Wars, encaixa-se perfeitamente com a imagem, mesclando melodias clássicas (algumas orientais, outras árabes) com a música eletrônica, representando de maneira ideal a situação de Jack: um homem fora de seu tempo. Por estarmos falando de uma obra marcada pelo seu silêncio, a música faz-se essencial para o funcionamento de muitas de suas sequências. Certamente não há como assistir o desenho sem prestar atenção em suas melodias e deixar-se levar pelas sensações que elas evocam em nós, definindo o tom de aventura de toda a narrativa.

Samurai Jack é uma daquelas obras que marcam para sempre quem a assistiu. Lembro-me até hoje de como fiquei perplexo com o desenho à época de sua estreia e esse encantamento, felizmente, não diminuiu com os anos. Estamos falando não só da obra-prima de Genndy Tartakovsky, que abriu espaço para o posterior Clone Wars, como de uma das melhores animações já feitas – afirmação ousada que faço sem medo de errar. Essa é uma série única, com uma linguagem visual própria, com tanta identidade que chega a ser impossível confundi-la com qualquer outra e essa primeira temporada já consegue demonstrar isso com clareza.

Samurai Jack – 1ª Temporada — EUA, 2001
Criação:
Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky, Randy Myers, Rob Renzetti, Robert Alvarez
Roteiro: Genndy Tartakovsky, Paul Rudish, Chris Reccardi, Chris Mitchell, Mark Andrews, Bryan Andrews, Charlie Bean, Carey Yost, Mike Manley
Duração: 13 episódios de aprox. 23 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.