Crítica | Samurai Jack – 5X01: XCII

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estrelas 5,0

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Onze anos após o último episódio de Samurai Jack, Adult Swim anunciou algo que levou todos os fãs do desenho original à loucura: o retorno de Jack em uma nova temporada, dessa vez com a classificação etária de 14 anos para cima, nos trazendo a esperança de, enfim, assistirmos o final da jornada do samurai que fora jogado no futuro por Aku. Em uma era de continuações, rebootsremakes é curioso constatar que tal anúncio foi tão bem recebido, sem o medo de que a experiência original fosse estragada, afinal, Genndy Tartakovsky estaria no comando novamente, o que nos proporcionou a segurança de que o estilo autoral do desenho fosse mantido.

A quinta temporada tem início cinquenta anos após os eventos da quarta, algo já prenunciado pelo título da premièreXCII – o último da temporada anterior era o de número LII. Aqui vemos um Jack (Phil LaMarr) diferente daquele que deixamos há tantos anos: ele não mais utiliza seu famoso gi, tendo o substituído por uma armadura samurai completa e, ao invés da espada, temos armas de fogo e lanças que refletem a tecnologia de sua atual época. Ainda vagando sem um aparente destino ele é assolado por visões de seu passado, dizendo que ele abandonara seu propósito, mas isso não quer dizer que sua vida ainda não está em risco, já que ele continua sendo caçado pelos servos de Aku, no caso deste episódio, o assassino Scaramouch (Tom Kenny). Em paralelo acompanhamos o treinamento das filhas de Aku, jovens garotas criadas com uma única missão: matar o samurai.

O roteiro de Bryan Andrews, também veterano da série, e Genndy Tartakovsky não se preocupa em nos fornecer informações extremamente detalhadas sobre a história dos anos anteriores, nos trazendo apenas o básico, tornando capaz de que novos espectadores entendam a premissa do seriado, sem cansar aqueles que acompanharam a jornada de Jack até aqui através de didatismos desnecessários. De início já reconhecemos a identidade visual do desenho, com uma introdução sem qualquer diálogo (excetuando a forma de comunicação através de mensagens das criaturas salvas pelo protagonista) e que faz uso dos mesmos recursos estéticos que tornaram o seriado famoso.

O personagem principal, que faz sua primeira aparição aqui em uma motocicleta faz referência direta a The First Fight, terceiro episódio da primeira temporada, com ele combatendo os velhos besouros robóticos. À princípio me perguntei como fariam em relação aos cortes da tela, que transformavam o velho letterbox em widescreen quando aquele ainda era o formato padrão na televisão e é com grande satisfação que constatamos que tal recurso permanece, com algumas adições. A imagem continua a ser reduzida de tamanho a fim de fornecer o efeito dramático de determinadas sequências, porém, a partir de agora, cortes verticais também ocorrem, aumentando ainda mais o dinamismo das sequências de ação da animação. Com isso em mente, não há como olhar para XCII e não pensar: isso é Samurai Jack de verdade!

É preciso olhar apenas para esse pequeno prólogo para constatarmos que tais sequências mantiveram o mesmo brilho das originais de onze anos atrás – tudo flui de maneira ágil, os movimentos dos personagens claramente herdam da linguagem de quadrinhos, com ações muitas vezes sendo resumidas a fim de tornar tudo veloz e de fácil entendimento. Outro ponto a ser observado é a criatividade de cada embate, especialmente o contra Scaramouch, que utiliza a música para controlar objetos inanimados, similarmente a Yondu de Guardiões da Galáxia. O humor característico do seriado faz seu retorno triunfal através desse antagonista, principalmente quando sua flauta é cortada e ele é forçado a cantar para controlar sua espada.

Mas Samurai Jack também sempre se destacou pelos seus momentos de “calmaria” e isso, felizmente, se mantém aqui. As sequências com o passado de Jack retornando para assombrá-lo são especialmente devastadoras, justificando o aumento da classificação etária. A morte não é mais disfarçada no desenho, tomando conta da tela em mais de uma ocasião nesses curtos vinte e cinco minutos. No semblante de Jack enxergamos o peso dessa sua tarefa – sua barba e cabelo solto nos trazem a ideia de um homem com muitos anos vividos e seu olhar entrega a dor dessa sua imortalidade no futuro. Temos aqui um samurai mais feroz, o que já é deixado bem claro através da onomatopeia de seu grito, que aparece na imagem nos minutos iniciais do capítulo, fator que é reiterado pela sua falta de piedade em relação a Scaramouch, que é cortado em dois sem mais nem menos. Mais do que nunca o óleo no lugar do sangue jorrando traz um efeito dramático que perfeitamente reflete a ira contida do guerreiro.

A perda de sua espada, que é introduzida através de uma breve sequência e diálogo traz um peso colossal dentro dessa mitologia, simbolizando perfeitamente o desvio do caminho do protagonista. Além disso, explica sua desmotivação e seu medo da figura misteriosa do samurai que aparece em suas visões. Ele não é mais o homem que percorria aquele mundo há cinquenta anos e não sabemos ao certo se ele luta simplesmente para não se entregar ao desespero ou se verdadeiramente procura proteger os fracos das criaturas de seu nêmesis – sua demora para chegar até o vilarejo com a fumaça no horizonte marca esse dilema. Outro ponto que constrói a desmotivação do protagonista é a (aparente) nova abertura, que funciona como um mantra repetido pelo herói a fim de não esquecer sua origem: preciso retornar ao passado.

Em paralelo, criando uma não-linearidade no capítulo, que funciona como elipses temporais para o foco em Jack, temos o treinamento das filhas de Aku, sequências esteticamente apaixonantes, que fazem uso das sombras para criar cortes na imagem que dialogam com a própria identidade visual do desenho. O trabalho de cores realizado aqui é digno de nota, trazendo belos contrastes do preto com o branco ou o vermelho, que nos remetem à velha luta do bem contra o mal, foco da animação desde seu início. A movimentação dessas personagens é de uma fluidez que denota a preocupação de Tartakovsky não apenas com a história, mas com a forma como ela é contada – enquanto algumas ações são resumidas, como dito anteriormente, outras são dilatadas a fim de causar um impacto maior, mas nada que, em momento algum, prejudique o ritmo da obra. É digno de nota que temos, através desse treinamento, elementos que deixam clara a natureza não-procedural dessa nova temporada, com antagonistas sendo construídos em mais de um episódio, algo que era exclusivo de Aku nas temporadas anteriores.

E, por falar no principal vilão da série, ele faz um breve cameo através de sua voz, com a ligação de Scaramouch que pode ser vista como uma ótima referência ao episódio Jack versus Aku, da quarta temporada. Novamente o humor característico do seriado se faz presente, mesmo que estejamos diante de um ano mais sério do desenho. Desde já podemos ver o trabalho de Greg Baldwin, que substitui Mako, como o demônio, buscando mimetizar a marcante voz do dublador/ator, que, infelizmente, nos deixara em 2006. A intenção de Tartakovsky era, inicialmente, de dar um novo tom para o vilão, mas, visto que sua voz é tão essencial para a sua persona, ele optou por trazer alguém capaz de imitar o trabalho de Mako e Baldwin já o fizera com o personagem Hiroh em A Lenda de Korra.

Com tais pontos em mente não há como não reconhecer a essência de Samurai Jack em XCII, um ótimo season première, que mantém o padrão de qualidade estabelecido nas primeiras temporadas do desenho. Temos aqui um protagonista no qual enxergamos claramente o peso de sua longa e interminável jornada, dialogando perfeitamente com a ausência de um fim propriamente dito nos anos anteriores, que mostraram todas as suas tentativas de retornar ao passado sendo infrutíferas. Ao ouvirmos a clássica música de encerramento (também tocada na antiga abertura), que repete gotta get back, back to the past, Samurai Jack, impossível não se ver entusiasmado pelo que Genndy Tartakovsky e sua equipe no Adult Swim nos trarão a seguir.

Samurai Jack – 5X01: XCII — EUA, 2017
Direção:
 Genndy Tartakovsky
Roteiro: Bryan Andrews, Genndy Tartakovsky
Elenco: Phil LaMarr,  Greg Baldwin, Grey DeLisle, Sab Shimono, Lauren Tom, Tom Kenny, Kari Wahlgren
Duração: 25 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.