Crítica | Samurai Jack – 5X02: XCIII

estrelas 5,0

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

XCII, o primeiro episódio dessa nova temporada de Samurai Jack conseguiu, em todos os sentidos, reviver a série, não apenas dando continuidade à não terminada jornada de Jack, como resgatando tudo aquilo que fez as quatro temporadas originais do desenho se destacarem como uma das melhores animações já feitas para a televisão. Agora no Adult Swim, a obra conta com a oportunidade de explorar temáticas ausentes até então e é exatamente isso que vemos aqui em XCIII, que, como esperado, dá adeus à estrutura procedural que definira o seriado no passado. Esse é um novo Samurai Jack.

O capítulo se inicia no lar de Aku, com uma das poucas cenas com diálogo. Encontramos, após esses longos anos, um senhor das trevas desanimado, ainda não acostumado com o fato de que Jack, seu nêmesis, não envelheceu nada em todo esse tempo. Dublado por Greg Baldwin, que substituíra o saudoso Mako, a sequência adota o característico humor do desenho quando se trata de Aku, cujo tom sarcástico só é rivalizado pelas suas espalhafatosas expressões, tão essenciais à sua persona. O vilão, porém, não é tão fácil de ser revivido da mesma forma que o protagonista da série, ele é profundamente definido pelo seu rosto e o traço, com mais curvas, contrastando com o de Jack, precisa demonstrar poucos movimentos e expressões estáticas que resumem seu humor. Em geral, a arte não decepciona, mas se compararmos com o velho antagonista, notamos a diferença. Felizmente, Baldwin nos afasta desse ponto através de uma excelente imitação de Mako, que aproveita todas as nuances de sua entonação para, certamente, extrair risadas do espectador.

Mas vamos sair da sequência inicial, pois ela funciona apenas como um breve prólogo, um alívio cômico para o que estaríamos prestes a ver: um dos embates mais dramáticos de toda o seriado.

Encontramos Jack novamente em sua motocicleta, desta vez, em um caminho por uma floresta. Em montagem paralela, um lobo solitário, bela menção a uma das principais obras que influenciaram Samurai Jack, segue por uma estrada similar. Desde já fica claro o paralelo entre os dois, mesmo o olhar do animal parece o do protagonista e os cortes na tela denunciam isso com a maior clareza. A jornada do guerreiro, contudo, é interrompida, primeiro por um besouro robótico gigante, depois pelo séquito de assassinas, as filhas de Aku, que conhecemos no episódio passado. Como dito anteriormente: adeus estrutura procedural, pela primeira vez, tivemos um vilão (no caso um grupo de) construído em mais de um capítulo, à exceção do principal do desenho, é claro.

Seguindo os mesmos moldes de XCII, que, por sua vez, herdou das temporadas anteriores, XCIII mantém o uso de cores em degradê quando se trata dos fundos – em geral, o quadro é tomado por uma tonalidade apenas, contrastando com os personagens, que assumem cores mais vivas ou o sempre presente preto. Dito isso, esse segundo episódio consegue se diferenciar essencialmente de seu predecessor através da forma como a ação se desenvolve. Enquanto que no combate contra Scaramouch sabíamos que Jack sairia vitorioso, aqui essa certeza simplesmente não existe, já sendo destroçada, junto com a armadura e armas do protagonista, logo quando as assassinas aparecem. Fica evidente que estamos diante de um perigo maior.

Essa urgência é ainda aumentada quando o guerreiro é forçado a se esconder em uma cabana e aqui temos um dos pontos de maior destaque do episódio: o encontro de Jack com o seu “eu” do passado. Ao contrário do que é mais comum encontrarmos em obras de ficção, com o presente se demonstrando desmotivado e o passado tentando ressurgir, o que vemos aqui é a consciência do herói implorando para que ele desista – é uma jogada interessante do roteiro e que dialoga perfeitamente com o antigo Jack, que, apesar de ter continuado sua jornada firmemente, evidenciava seu descontentamento em relação a esse futuro, algo que o seu novo “eu” parece estar mais habituado, vide as armas que ele empunha. O uso do azul, que preenche a manifestação da consciência cria um desconforto quando em conjunto com a ira que o acompanha, em geral a cor está ligada à harmonia, serenidade, o que se encaixaria com aquele velho samurai que calmamente andava por esse mundo futurístico. Ao nos depararmos com esse mesmo repleto de angústia, fica bastante claro o sofrimento interno do protagonista.

Quando se trata do uso de cores, porém, talvez nenhum seja mais cativante aos olhos quanto um dos trechos posteriores, mas aqui estamos falando da ausência delas, o preto no branco. Com flashes marcados pelo encontro das lâminas, acompanhamos o combate entre o herói e as vilãs, denotando a força do traço típico de Genndy Tartakovsky. Como dito antes, esse episódio se diferencia essencialmente do anterior e aqui temos uma das provas, mostrando como o desenho sabe nos oferecer cenas de luta únicas não somente pela movimentação dos personagens, como pelo visual de cada uma, a tal ponto que, se olharmos para trás, saberemos identificar facilmente onde e quando cada uma delas aconteceu. Percebe-se, portanto, uma grande preocupação com a identidade visual e não somente com a história que é contada.

As sequências de ação aqui vistas também são marcadas por extensa movimentação, seja de Jack correndo pelos corredores em um plano sequência que torna tudo o mais claustrofóbico possível, nos colocando na pele do personagem, seja do próprio quadro, que se movimenta, ora acompanhando os indivíduos em si, ora suas armas, um delicioso toque que fornece um belo dinamismo através de um recurso inédito à série – afinal, a passagem dos anos abriu tantas portas quanto a migração para o Adult Swim. Ainda sobre os movimentos de “câmera”, é muito bom enxergar como a animação computadorizada é utilizada para complementar a tradicional, não apenas tomando seu lugar, como é o costume hoje em dia. Trata-se de um recurso a mais que se faz presente na medida certa, sem quebrar nossa imersão, visto que não contrasta de forma grotesca com o restante do desenho.

Agora vamos adereçar o elefante no quarto: a morte de uma pessoa pelas mãos do samurai. Já era claro, pelos trailers, que veríamos uma animação mais direcionada para o público adulto, mas não há como não sentir um certo arrepio quando a morte se faz presente em tela. Estamos falando de um personagem que, por quatro temporadas, jamais tirou a vida de alguém (não vamos entrar na discussão sobre inteligência artificial), por mais que seu silêncio tenha marcado os minutos finais do capítulo, é claro que isso surtirá um gigantesco impacto em Jack, que pode até abraçar a desolação de sua consciência manifestada. É preciso, também, ressaltar o profundo simbolismo do sangue aqui, que aparece na medida certa como uma derrota, um elemento estranho dentro de tudo aquilo, imprimindo um peso gigantesco àquela cena. Tal derrota é reafirmada pela sua queda no rio e o lobo caído nos segundos finais. Sem nenhuma palavra ser dita, ouvimos claramente um “o que eu fiz?”.

XCIII aumenta a sensação de urgência dessa nova temporada, pesando ainda mais a atmosfera introduzida em XCII. Sabendo se diferenciar do capítulo anterior, unindo a forte identidade visual da série com sequências verdadeiramente únicas, o episódio leva o guerreiro por caminhos ainda não trilhados, abre portas para que a morte seja encarada como uma realidade, com o sangue colorindo onde antes o óleo preto das máquinas se esparramava. A transição para o Adult Swim denota sua grande marca, ao passo que Aku, enfim, encontrou alguém que pode acabar com seu maior problema e esse pode ser o próprio Jack e sua consciência.

Samurai Jack – 5X02: XCIII — EUA, 2017
Direção:
 Genndy Tartakovsky
Roteiro: Bryan Andrews, Genndy Tartakovsky
Elenco: Phil LaMarr,  Greg Baldwin, Chris Parnell
Duração: 22 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.