Crítica | Samurai Jack – 5X04: XCV

samurai-jack-xcv-plano-critico

estrelas 5,0

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Depois de um dos mais dramáticos episódios de toda a série e o posterior hiato de duas semanas, enfim, a quinta temporada de Samurai Jack retorna, nos entregando um aprofundamento da personagem Ashi, que segue pelo caminho esperado, como apontei na crítica de XCIV. Venho dizendo nas críticas de cada capítulo que Genndy Tartakovsky e sua equipe criativa vem inovando a cada semana, apresentando visuais diferenciados que tornam cada episódio uma obra de arte à parte. XCV não é exceção, sendo facilmente o capítulo mais diferente dessa temporada.

Após batalhar contra as filhas de Aku, Jack cai em um precipício e acorda, um tempo depois, apenas para descobrir que uma de suas inimigas ainda vive. Ao acorrentar Ashi, o samurai, então, se dá conta que ela conta com uma visão completamente distorcida da verdade, acreditando que Aku é bom e Jack, por sua vez, é mau. Ambos entram, pois, em uma jornada na qual descobrem mais de cada um, enquanto devem escapar das entranhas de uma criatura colossal que os engolira no início do episódio.

O elemento que mais diferencia XCV daqueles que o antecederam é a quantidade de diálogos. Sim, outros já apresentaram Aku e seus lacaios falando, mas este é o que o protagonista mais verbaliza, o que denuncia que ele lentamente se afasta daquela figura desolada e silenciosa que encontramos no início da temporada. Claramente ainda há muito pela frente, mas o contato com outro ser vivo pode ajudar Jack, que, aparentemente, vivera em exílio até aqui, mantendo o grau de contato com outros seres ao mínimo – algo que podemos ver no season première, no qual, após salvar as duas criaturas do início, ele não diz nada.

Esse regresso ao que ele antes fora pode ser observado nas armas improvisadas que o samurai porta ao longo do capítulo. Enquanto antes ele utiliza mais lanças (maior distância dos outros) e armas de fogo, agora ele empunha lâminas que lembram espadas (maior proximidade), o que pode significar que, em breve, veremos o guerreiro conseguindo de volta sua katana lendária, forjada pelos próprios deuses. Cria-se, portanto, a velha história de que o herói não é digno de empunhar tal arma e que precisa se reencontrar a fim de carregar a lâmina mais uma vez.

As diferenças com os episódios anteriores, porém, não param no roteiro. Enquanto o restante dessa quinta temporada se apoiou em um contraste entre o preto e o branco, utilizando cores monocromáticas como fundo ou, brevemente, como fonte de iluminação, mas sem uma grande variedade tonal, aqui enxergamos uma gama muito mais diversificada, a tal ponto que beira o surrealismo, similarmente à arte de Jack Kirby nas páginas de Doutor Estranho. As mais variadas tonalidades tomam conta do interior dessa criatura e a escolha de preencher XCV com tantas cores certamente não é por acaso.

Vamos começar pelo teor surreal, que dialoga com as concepções distorcidas de Ashi sobre o mundo. Ela claramente passou por uma extensa lavagem cerebral e precisa se libertar desse falso universo no qual fora aprisionada. Tartakosvky, contudo, brinca com a explosão de cores em mais níveis. A aparência de Jack e essa “viagem” colorida nos remetem ao movimento hippie, ao flower power dos anos setenta. Pode parecer pura teoria, mas sobre o que o episódio fala? Sobre a paz! Depois de vermos o auge da violência em Samurai Jack (até agora), presenciamos um retorno ao protagonista pacifista, tentando fazer sua inimiga enxergar a verdade e, consequentemente, trazê-la para seu lado.

Outro ponto que deve ser levantado também é bastante óbvio: antes víamos o preto e o branco e aqui enxergamos que o mundo não é maniqueísta através da descoberta de Jack sobre a mentalidade de Ashi – mais cores, portanto, são reveladas nesse espectro, mostrando que a eterna guerra do bem contra o mal não é assim tão simples.

Em apenas vinte e dois minutos, portanto, Tartakovsky consegue trabalhar a fundo dois personagens, mostrando, através da característica arte, como Samurai Jack revela muito mais do que aparenta, trabalhando sua história através não somente do roteiro, como de todo o visual dos episódios. Depois de presenciar a violência do combate entre o herói e as filhas de Aku, ganhamos um capítulo que focaliza na paz, anunciando que Jack retorna ao seu antigo “eu”, o que pode significar que, muito em breve, veremos a famosa espada de volta em suas mãos.

Samurai Jack – 5X04: XCV — EUA, 2017
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Genndy Tartakovsky
Elenco: Phil LaMarr, Tara Strong, Grey DeLisle,  Corey Burton
Duração: 22 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.