Crítica | Samurai X – O Filme

estrelas 3,5

Adaptar obras literárias para as telonas é um eterno conflito entre linguagens, o próprio audiovisual, mesmo no âmbito da ficção, possui gêneros narrativos distintos que, ao dialogar para contar uma mesma história, podem resultar em verdadeiro desastre, pelo menos para uma das partes. Harmonia de linguagens, porém, é o que predomina em Samurai X – O Filme, que adapta não apenas a série de mangás de Nobuhiro Watsuki para o cinema, como também dialoga em ótima diplomacia com o anime dirigido pelo próprio autor.

O longa, com direção de Keishi Tomo, resgata o princípio das aventuras de Kenshin Himura (Takeru Satô), que até o fim do xogunato era conhecido como “Battousai, o retalhador”, mas que após o conflito se arrepende de seus atos e passa a viver como andarilho. O espadachim conhece a jovem Kaoru Kamiya (Emi Takei), que mantém sozinha uma escola de kendo, fundada por seu falecido pai e prestes a fechar por falta de alunos. Kenshin logo descobre que a carência de estudantes se deve a um assassino misterioso, atuando sob o nome de Battousai, que elimina seus alvos com o estilo ensinado pela moça. O andarilho acaba se envolvendo ainda mais com Kaoru e, consequentemente, tem de enfrentar um inimigo incerto e, sobretudo, o próprio passado.

Apesar da popularidade dos mangás e especialmente do anime, não se trata de uma adaptação com padrões comerciais, pois busca retratar a narrativa – cheia de subentendidos e de certa infantilização no comportamento dos personagens em uma atmosfera nada infantil – que vemos na obra original. Ora, falamos aqui da transposição dessa história para uma linguagem que preza pelo mais real e o menos caricato possível, inclusive a partir do que é mais inverossímil. Mesmo para quem nunca interagiu diretamente com os mangás ou o anime, porém, a fidelidade com que as primeiras aventuras de Kenshin e seus amigos foram aproximadas do que podemos entender como realidade deve chamar a atenção pelo engenho de alguns de seus personagens, em virtude de certos requintes de tratamento à situações de um desenrolar que, por si só, não passaria do previsível – salve os flashbacks do protagonista e a própria intensidade da luta final – e, é claro, por seus elogiados detalhes técnicos (cenários, trabalho de trilha, figurinos).

Satô cai como uma luva no papel de protagonista, incorporando brilhantemente o típico ingênuo desajeitado, para não dizer pateta, que, em um piscar de olhos, se transforma em um guerreiro seguro de si, altivo e, apesar do cavaleirismo, até ameaçador quando provocado. Sem falar, naturalmente, nas belas coreografias de lutas de espada – descontando-se eventuais exageros em nome do fantástico. São tais aspectos que mostram não apenas a preocupação em agradar os fãs da obra original, mas que impõem a releitura de um universo digno de ser recontado. O roteiro, contudo, tem suas falhas – Sanosuke (Munetaka Aoki), por exemplo, apesar da ótima presença de Aoki, poderia ter sido melhor inserido na trama – ponto que ainda assim não traz prejuízos gritantes à adaptação.

Adeptos do anime dublado também devem se sentir agraciados: quase todas as vozes imortalizadas no Brasil estão no longa, associadas aos seus respectivos personagens no anime e a do herói é uma delas. Outro ponto positivo é que a conclusão do longa, fiel à primeira fase da história original, não exige uma sequência – ou seja, o filme fala por si só, ainda que a terceira parte da anunciada trilogia tenha estreado no Japão em setembro.

Samurai X, portanto, permanece em nosso imaginário como uma bem-sucedida adaptação, sabendo mesclar as linguagens do cinema, mangá e anime em um produto audiovisual merecedor de nossa atenção. Fãs e não-fãs da obra de Nobuhiro Watsuki não irão se decepcionar, apesar de alguns deslizes pontuais.

Samurai X – O Filme (Rurôni Kenshin: Meiji kenkaku roman tan – Japão, 2012)
Direção:
 Keishi Ohtomo
Roteiro: Kiyomi Fujii, Keishi Ohtomo
Elenco: Takeru Satô, Emi Takei, Yû Aoi, Teruyuki Kagawa, Yôsuke Eguchi, Munetaka Aoki, Taketo Tanaka
Duração: 134 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.