Crítica | Samurai X – O Inferno de Kyoto

estrelas 4,5

Se Samurai X – O Filme foi bem sucedido na transposição de uma história contada em mangás e em anime para um live action competente, Samurai X – O Inferno de Kyoto amadurece seu roteiro em relação ao da primeira parte e esbanja na violência para gritar a atrocidade meramente aludida na versão animada. O resultado é, em definitivo, um grande filme de samurai, este, sim, com potencial não apenas para surpreender, mas para encantar de todo o espectador. De fato, o filme só não é perfeito por se apoiar no pressuposto de que o público necessariamente assistiu ao primeiro longa da franquia.

Na trama, Kenshin (Takeru Satô) vive em paz com Kaoru (Emi Takei) e seus amigos na escola de kendo da moça, até que é convocado pelo governo Meiji para dar fim à ascensão de terror de Shishio Makoto (Tatsuya Fujiwara, dos live actions de Death Note): aquele que, nos mangás e no anime, é um dos maiores inimigos do protagonista. Antes assassino contratado pelo Meiji, Shishio foi traído pelo governo após prestar seus serviços e condenado a morrer queimado. Só que o assassino sobrevive, não sem sequelas, e reuni um exército enquanto conspira para derrubar o regime vigente. Kenshin reluta, mas ao ver a carnificina de Shishio sobre soldados e em um povoado, aceita a convocação.

É verdade que o arco de Kyoto é uma das fases mais eletrizantes das aventuras de Kenshin na história original, mas o longa não cai na facilidade de cenas de ação gratuitas ou em atuações superficiais agarradas à imponência dos eventos, ou pelo menos ao princípio deles. Não, o que temos, mais uma vez, é uma releitura inteligente, na medida exata, talvez até enfatizando um pouco mais o realismo dos fatos do que o primeiro filme. A violência aparece sem pudor algum, com o sangue e, sobretudo, a tristeza pela barbárie humana se impondo como poucas vezes se vê no circuito comercial – salve a contemplação no cenário do tal povoado dizimado, de partir o coração, que parece documental, ainda acrescida com uma performance impressionante de sofrimento.

Pensando assim, seria fácil para a produção se deixar levar pela degradação sem fim, mas também não é o que acontece. O filme evidencia a originalidade de sua história, abordando eventos paralelos ao conflito central que, porém, dada a intensidade e inventividade com que são retratados, não parecem enrolação, mas sim uma narrativa que foge dos padrões e que mostra, de fato e pela segunda vez, ter uma história para contar. Assim, mesmo o adiar do aguardado conflito entre Kenshin e Sojiro (o ótimo Ryûnosuke Kamiki) é plenamente justificado pelas experiências vividas pelo herói em sua jornada por um reparo que se reflete do psicológico para o físico.

Quanto à trilha sonora, se o seu bom gosto era visível no primeiro longa, aqui ele é retumbante, com as faixas se harmonizando perfeitamente com momentos de maior contemplação ou ação ilusoriamente desenfreada. Por falar em ação, suas sequências também superam as do filme antecessor. Particularmente o último ato, que se encerra em pleno oceano, é imperdível, também mais eficaz do que nunca no auge da ênfase de Kaoru como sempre bela inspiração primordial para a retidão do novo Kenshin.

Apenas é fato, sim, que a produção perde um pouco em autoafirmação quando não se preocupa em resgatar, ainda que brevemente, a natureza do vínculo de Kenshin com o kendo e seus ocupantes – mesmo com Kaoru -, mas a riqueza na experiência com demais personagens, o roteiro e direção aprimorados não só criam um live action digno de fãs e não fãs da obra original, como o fazem de modo que, definitivamente, não se pode mais ignorá-lo. Agora, é aguardar a chegada por aqui da última parte da franquia e do seu, espera-se, estrondoso retinir final de espadas.

Samurai X – O Inferno de Kyoto (Rurôni Kenshin: Kyôto Taika-Hen – Japão, 2014)
Direção: Keishi Ohtomo
Roteiro: Nobuhiro Watsuki
Elenco: Takeru Satô, Emi Takei, Tatsuya Fujiwara, Yôsuke Eguchi, Yûsuke Iseya, Munetaka Aoki, Yû Aoi, Ryûnosuke Kamiki
Duração: 138 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.