Crítica | Saneamento Básico

estrelas 4

O bem humorado Jorge Furtado, na posição de diretor e roteirista, nos entrega uma história envolta num ambiente bucólico. Esqueça a agitação dos centros urbanos de Meu Tio Matou Um Cara e O Homem Que Copiava. Em Saneamento Básico temos a hora e a vez do interior, isto é, a fictícia Linha Cristal, na Serra Gaúcha.  Ao longo dos 112 minutos, a trama nos insere em um atraente jogo de metalinguagem, repleto de ironias, fruto de um roteiro que durou dois anos para ficar pronto.

Na trama, os moradores da cidade fictícia, uma vila de descendentes de italianos, reúne-se para tomar providências a respeito da construção de uma fossa para fornecer o devido tratamento de esgoto ao local. Para isso, eles se organizam e elegem uma comissão, tendo em vista uma resolução mais administrada para a questão. Feita a comissão, os integrantes partem para a próxima etapa: driblar a burocracia e resolver os problemas.

Mesmo reconhecendo as celeumas ambientais oriundas pelo problema da fossa, a prefeitura informa que não há grana para viabilizar o trabalho, entretanto, há a quantia de R$10 mil reais disponíveis para um edital de produção de um filme. O dinheiro fornecido pelo governo federal está preste a ser devolvido, caso ninguém dê conta da atividade. Daí, uma ideia pulula dentre os envolvidos na comissão: a metalinguagem.

A tarefa a seguir é produzir um filme do próprio problema. Os conflitos, por sua vez, começam quando uma das regras é a criação de um roteiro e de um projeto do produto final, o filme em questão, de ficção por sinal, não documental. A ideia inicial é produzir um filme barato sobre um monstro que habita as obras de construção de uma fossa.

Produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, Saneamento Básico é um filme que flerta com o modus operandi do cinema. O roteiro de Furtado usa e abusa da metalinguagem: ironiza o público que não tem consciência do que é a produção de um filme, põe na mesa discussões sobre a função da montagem, a lógica de um roteiro, as confusões de pessoas que não confundem ficção com ficção científica, dentre outras situações divertidas que funcionam ainda mais se você domina os códigos do meio cinematográfico. Em um momento chave da história, há um debate sobre a polêmica da necessidade ou não de um roteiro para um filme no Brasil, já que muitos produzem apenas para ganhar editais, pois logo adiante, filmam algo totalmente diferente.

Por falar em roteiro, os diálogos são afiados, há mescla orgânica entre elementos eruditos e populares, bem como um debate latente sobre a justificativa de uso da verba pública para a produção cinematográfica no Brasil, um país cheio de lacunas no bojo da sociedade. Wagner Moura, Fernanda Torres, Camila Pitanga, Bruno Garcia e Lázaro Ramos dão o toque especial ao filme, uma pitada de charme que fez a narrativa ficar ainda mais interessante.

Ramos é um dos personagens mais importantes, pois aparece em cena como um profissional que é chamado para dar acabamento ao filme e transformá-lo numa película cult, haja vista o mercado para filmes “trash” em constante manutenção na seara da indústria cinematográfica independente. Os demais coadjuvantes que aparecem em cena são somas que não atrapalham a condução da narrativa, transformando o filme num excelente fluxo de ideias audiovisuais gravitando em torno de sua exibição.

Á guisa de conclusão, percebemos que o filme trata com sutileza e humor refinado a situação da produção cinematográfica no Brasil contemporâneo, vide as políticas públicas que focam de democratização da cultura e na alfabetização audiovisual. Estamos diante de cidadãos diante das burocracias nossas de cada dia. Um dos envolvidos já foi subprefeito e o outro foi membro de uma comissão de moradores, o que lhes dá mais segurança para correr atrás dos direitos básicos enquanto cidadãos que pagam os seus impostos. Um filme leve, mas com camadas de crítica social pungentes, perceptíveis para os mais atentos ao atual estado do Brasil. Para os demais, uma comédia divertida e bem edificada, em suma, um filme completo.

Saneamento Básico — Brasil, 2007
Direção:
 Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Bruno Garcia, Camila Pitanga, Fernanda Torres, Janaína Kremer, Lázaro Ramos, Paulo José, Tonico Pereira, Wagner Moura
Duração: 112 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.