Crítica | Sangue Francês

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estrelas 3,5

Em seu segundo longa-metragem, Sangue Francês, Diastème traz, através do enfoque em um único personagem, uma história do neonazismo na França, explorando o surgimento e as transformações profundas que o movimento encarou ao longo de sua história. Perturbador e intimista, o filme procura abordar o psicológico de seu protagonista, demonstrando como a maturidade, decorrente da passagem dos anos, altera a percepção do mundo das pessoas. Com uma premissa instigante, a obra desliza muito pontualmente, nos deixando, ainda, com uma percepção positiva de seu todo e, sobretudo, de sua mensagem.

O longa mantém seu foco em Marco López (Alban Lenoir) um skinhead neonazi extremamente devoto a ideologia de seu grupo. O passar dos anos, porém, altera profundamente suas convicções, ao passo que sua tolerância, aos poucos, vai sendo resgatada. O diretor emprega em suas transições uma estratégia bastante similar àquela de Boyhood, fazendo do próprio cenário um outro personagem. O grande problema é que, mesmo com um grande afastamento temporal entre o princípio e o fim, as mudanças físicas no protagonista são extremamente discretas, se resumindo basicamente a sua barba e corte de cabelo (naturalmente um fator essencial dentro da narrativa). Para melhorar a percepção de passagem do tempo do espectador algumas legendas são empregadas, evidenciando o ano que estamos no momento – escolha que ainda não dá conta do recado em minimizar nossa confusão temporária.

O interessante do enfoque narrativo escolhido por Diastème é como, mesmo nos minutos iniciais do longa, Marco soa completamente humano. Não há uma vilanização do personagem ou até um maniqueísmo marcado pelo contraste entre sua condição inicial e final. Tal fator em muito contribui para a fluidez da trama e sentimos como se, efetivamente, estivéssemos diante de uma pessoa real. O naturalismo é evidente e atua como uma das principais qualidades da obra, nos fazendo entender – por mais que sejamos contra – as convicções desse grupo de extrema direita. A transformação que passa o movimento neonazista é o que se dá de maneira mais radical. De um grupo de skinheads passam a ter representação política legal, e essa mudança evidentemente gera constantes tensões no espectador.

Criando as oposições e buscando tornar clara a metamorfose do protagonista, a montagem procura criar sutis ironias ou até mesmo chocantes contraposições que perfeitamente ilustram a evolução de Marco. Uma delas em específico chega a ser bastante tocante, envolvendo o hino nacional Francês, primeiro no centro do grupo de direita e depois diante de uma tela na qual a copa do mundo é transmitida. Mesmo essa edição precisa, porém, não consegue disfarçar a dilatação da trama do longa, que poderia contar com uma maior agilidade a fim de não cansar o espectador. A mensagem é, sim, captada, mas perde muito de sua força pela forma lenta como a narrativa é conduzida.

Dito isso, Sangue Francês ainda consegue cativar suas audiências, representando um olhar maduro sobre a situação da extrema-direita francesa. Um filme com nítidos deslizes, mas que consegue ser potente de qualquer forma, especialmente para quem deseja ter uma maior compreensão da ideologia seguida por tal grupo. Sobretudo, porém, uma história de redenção e de como qualquer pessoa pode se aprimorar, por piores que tenham sido seus erros no passado.

Sangue Francês (Un Français – França, 2015)
Direção: 
Diastème
Roteiro: 
Diastème
Elenco: 
Alban Lenoir, Samuel Jouy, Paul Hamy, Alban Lenoir, Samuel Jouy, Paul Hamy
Duração:
98 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.