Crítica | Sangue Negro

estrelas 5,0

Eu sou um falso profeta e Deus é uma superstição.

Contém spoilers.

Na virada do século XIX para o século XX, os Estados Unidos viram suas terras até então infrutíferas tornarem-se valiosas cobiças, enquanto mais e mais petróleo era descoberto na região, agora próspera para o investimento de capital. Dos estados que mais se valiam disso, a Califórnia despontou como uma das principais produtoras do material fóssil. Não é por menos que compete a tal ser pano de fundo dessa história saída das mãos talentosíssimas de Paul Thomas Anderson, em um roteiro vagamente baseado no romance de Upton Sinclair, Petróleo!. O homem personificado do sonho americano – o velho pretexto do trabalhador ordinário em busca, simplesmente, de sustento para sua prole – sucumbe às loucuras provindas da significação deturpada de grandeza, num cenário contraditório, que não por acaso gradativamente sedimentou aos pedaços uma atualidade extremamente complexa e hipócrita. No contexto da expansão de petróleo na América, Daniel Plainview (Daniel Day Lewis) é apresentado durante 15 minutos iniciais isentos de diálogos. Dessa forma, Paul Thomas Anderson busca levar ao espectador as nuances do tratamento feito sobre o personagem de Daniel, o qual, durante o filme, se aventurará por caminhos inimagináveis, em antítese do ser vitorioso com o ser fracassado. O cansaço de I’m finished, no original, revela um ser acabado, ao passo que produz uma conclusão ambígua, a qual nos leva a visualizar com veracidade esse caráter mais insano do “homem do petróleo”.

Tendo isto em mente, a relação entre Daniel e H.W. Plainview (Dillon Freasier), menino que é adotado ainda bebê pelo protagonista em decorrência de um acidente laboral que mata seu pai, é a chave para que o espectador observe, e consequentemente entenda em sua visão particular, as diferentes camadas que envolvem o personagem de Day-Lewis. O ator assombra em todas as suas cenas, das mais caladas, em paralelo com uma expressividade tremenda, as mais prolixas, aliadas a um forte texto de Thomas Anderson. Aquele homem destemido, mas duramente fraquejado pelas suas próprias ações, é encarnado em corpo e alma. O diretor deixa o intérprete brilhar a vontade, nesse que é mais um dos esplêndidos trabalhos de ambas as carreiras, impulsionando o talento de Day-Lewis com uma direção que sabe traduzir ao público o melhor de uma interpretação. Nessa relação de pai para filho, contudo, o roteiro indicará tanto caminhos mais afetuosos, quanto caminhos mais secos, possibilitando ao espectador uma interpretação própria da condução feita pelo cineasta. O amor intrínseco esbarrará em uma aproximação por interesses: ele se preocupa tanto com os danos causados pela explosão que destrói um dos poços de petróleo, quanto com a saúde de seu filho, o qual ficou surdo após esse acidente.

No final das contas, Daniel abandonou H.W., uma atitude indiscutivelmente cruel, mas também, quando o fardo pesou, trouxe-o de volta. O que pensar do seu diálogo final com o garoto já crescido, senão como proveniente de um homem exaustivamente debilitado, preparado para estragar por definitivo os últimos resquícios de bondade que ajudou a criar? A solidão, notada inúmeras vezes quando comentado sobre a ausência de uma mãe para o garoto, também é abordada, mas intimamente, sem muitos adornos, senão a pura genialidade de um audiovisual que fala por si só.  A complexar ainda mais o personagem de Day-Lewis, o embate entre ele e o pastor Eli Sunday (Paul Dano) será a veia condutora que aproximará o espectador desta história austera, moldando pontos antagônicos, que, independente de tudo, são muito mais similares em virtudes e pecados quanto aparentam ser. Da idealização de terras propícias à exploração, o controle e popularidade da igreja dominada pelo pastor será um caminho a ser ultrapassado das mais diversas maneiras por Plainview. Concorrentes, os quais podem assumir diversas faces, são objetos de ódio pelo petroleiro, que encontrará o fundo do seu próprio poço, ironicamente, quando chegar ao ápice de sua riqueza e êxito mercadológico. Os tempos de glória nunca antes soaram tão destrutivos quanto estes; um estudo de personagem formidável.

Em outro plano, do caminho de ascensão e, paralelamente, derrocada de Daniel, muito pode ser tirado da forma áspera que Anderson aborda o batismo do homem. Como aponta Eli, tendo em vista que a inauguração do poço não fora acompanhada por uma bênção dele, maus sucessivos ocorreram ao “homem do petróleo”. O mesmo, movido por pura ganância, acaba obrigado a se render à fé no Senhor, clamando, embora contrariado, o fato de ter abandonado a sua criança. Por falar nele, Dano mostra, depois de seu ótimo trabalho em Pequena Miss Sunshine, ser um dos mais talentosos atores de sua geração, carregando todos os maneirismos do espetáculo religioso que cria, e exteriorizando, em seus últimos minutos, toda aquela angústia levada consigo de forma muito visceral. Tão humilhante e ascosa quanto a que traz Plainview maltratando o pastor, é a sequência na qual o jovem avança sobre o seu próprio pai, diante das frustrações gerados pelo negócio fechado com o petroleiro. Paul Thomas Anderson ainda introduz o personagem Henry (Kevin J. O’Connor), o qual, surpreendentemente, não é acompanhado por uma narrativa destoante da principal, fortalecendo a níveis extensos o âmbito dramático que envolve o protagonista. O final desse arco, que se encerra lá pelo segundo ato do longa, é a mudança de perspectiva no olhar do público com o, agora intensamente instável, personagem de Day-Lewis.

A ilustrar a trilha sonora tétrica de Jonny Greenwood, a fotografia de Robert Elswit encontra o balanceio correto, oscilando em busca do tom exato para levar ao longa-metragem tonalidades e cores que invoquem as sensações certas que o diretor quis exprimir com o filme, nesse diálogo que é muito bem manejado. Dos planos abertos, o inóspito deserto acaba dando lugar a belíssimas paisagens, esticadas o necessário para que não sejamos impedidos de desfrutar dessas representações de cenários não mais possíveis de serem contemplados em vida. A favor desses outros aspectos mais técnicos, a edição de som torna algumas sequências de Sangue Negro, experiências realmente intensas, como o já citado anteriormente, segmento do poço de petróleo em chamas. Entre tanto refinamento acertado, esse retrato histórico dos Estados Unidos do início do século passado é, sem sombra de dúvidas, um filme de excelência, que não se permite em momento algum deixar suavizar-se perante o prenúncio  de sangue trazido pelo título original. Mesmo com a aura pessimista e duramente aterradora que acompanha a pista de boliche da mansão de Plainview, permanecemos, embora friamente descrentes, com uma fé inexorável. Na esperança de que algum dia, não mais nos contentemos em derramar sangue nessa luta incessante por domínio.

Sangue Negro (There Will Be Blood) — EUA, 2007
Direção: 
Paul Thomas Anderson
Roteiro: 
Paul Thomas Anderson (baseado no livro de Upton Sinclair)
Elenco: 
Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Barry Del Sherman, Ciarán Hinds, David Willis, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor, Russel Harvard, Hans Howes, Sydney McCallister, Colleen Foy, Jim Downey
Duração: 
158 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.