Crítica | Sanjuro

Yojimbo – O Guarda-Costas rapidamente adquiriu status de arrasa-quarteirão, tornando-se o filme mais bem sucedido de Akira Kurosawa em termos financeiros. Obviamente, a produtora Toho não poderia passar a oportunidade e encomendou uma continuação. Kurosawa, que, mesmo antes de Yojimbo, já havia transformado em roteiro – mas não filmado – a obra de Shugoro Yamato intitulada Nichinichi hei-an, sobre um espadachim não tão bom assim com a espada, aproveitou seu trabalho e alterou-o de forma a substituir o herói pelo bem sucedido personagem Sanjuro, protagonista de Yojimbo.

Assim, o diretor acabou criando uma continuação que, na verdade, é outro filme com o mesmo personagem icônico e inesquecível vivido por Toshiro Mifune, seu parceiro em dezesseis filmes e o antepenúltimo antes da briga que acabaria separando-os. As diferenças são sensíveis. Para começar, enquanto Yojimbo é mais um western passado em um Japão no fim de seu sistema feudal, Sanjuro parece até um prelúdio, pois se fia fortemente na existência dos clãs e de uma sociedade organizada em castas definidas e protegida por samurais. A visão da sociedade japonesa é muito mais idealizada e singela do que o pessimismo evidente e quase nihilista do ambiente que vemos em Yojimbo.

Mas, independente de quando exatamente o filme se passa, se antes ou depois de Yojimbo, o fato é que Sanjuro nos apresenta ao mesmo personagem-título que vemos no primeiro filme, sem que precisemos ter conhecimento dele. Logo na cena inicial, quando testemunhamos uma reunião de nove jovens samurais preocupados com a corrupção dentro de seu clã, descobrimos que Sanjuro Tsubaki (seu sobrenome muda conforme a planta que ele vê no momento em que o revela) estava lá todo o tempo, no escuro, ouvindo a conversa.

Quando Sanjuro sai do escuro, com seu quimono puído e seu cabelo desfeito, como se tivesse acabado de acordar, ele desconstrói tudo aquilo que ouviu, demonstrando que a interpretação dos jovens samurais sobre os acontecimentos do dia estavam completamente errados. Eles achavam que o tio de um deles, Mutsuta (Yunosuke Ito), velho e feio, seria corrupto, enquanto o superintendente, respeitado, garboso e que demonstrara empatia à causa, era sua única esperança dos jovens. Sanjuro, interpretando a questão como os olhos de um sábio, deixa claro – e prova – que as aparências enganam e que os samurais entenderam tudo ao contrário. A partir daí, começa uma corrida contra o tempo para que os dez guerreiros salvem Mutsuta e acabem com a engrenagem da corrupção que mina o clã.

Mais uma vez, vemos a maestria e detalhismo do trabalho de Kurosawa, juntamente com a fotografia de Fukuzo Koizumi e Takao Saitô. A luta inicial de Sanjuro, de espada embainhada, contra um gigantesco exército de samurais comandados por Hanbei Muroto (Tatsuya Nakadai) é um exemplo disso. À noite, vemos, aos poucos, os homens em seus quimonos escuros se aproximando da casa onde estão Sanjuro e os demais samurais. Eles surgem como surgem monstros em filmes de terror até tomar a tela integralmente, em uma perfeita cenografia. Quando Sanjuro é enfocado, vemos o contraste na contraluz entre ele e seus inimigos, demonstrando, sem que palavras sejam trocadas ou movimentos sejam feitos, a superioridade do herói mesmo diante de tamanho exército. E o combate, com a espada na bainha, seria ecoado, mais para frente, quando a esposa de Mutsuta (Takako Irie) é libertada do cativeiro e diz para Sanjuro que uma espada embainhada é mais poderosa que uma fora da bainha.

Kurosawa dá um tom mais leve à Sanjuro, se comparado a Yojimbo, usando alívios cômicos como um divertido prisioneiro que age da maneira mais polida possível diante de seus captores, funcionando até mesmo como uma espécie de “consciência” para os samurais mais novos e inexperientes. São momentos preciosos como esses que fazem de Sanjuro uma experiência muito agradável, ainda que bem inferior ao primeiro filme.

O problema maior da fita está na estrutura de seu roteiro. Em primeiro lugar, Kurosawa, como reaproveitou trabalho anterior seu, acabou tendo que mudar muita coisa para adaptá-lo à personalidade já estabelecida de Sanjuro. Além disso, muito diferente do filme anterior, em que Sanjuro funciona como um guerreiro silencioso, cujas ações deixam às escâncaras suas intenções, na segunda obra há exposição demais, com cada ação sendo precedida de uma explicação, o que não só parece prolongar o filme como, também, subtrai um pouco da personalidade do herói.

E a necessidade de diálogos mais longos acaba levando ao verdadeiro ponto fraco desse trabalho de Kurosawa: a repetição de temas. As duas lições de moral (“as aparências enganam” e “uma espada embainhada vale mais que uma fora da bainha”) são marteladas no público à exaustão, como se esses aspectos já não tivessem ficado absolutamente claros logo no comecinho do filme e quando da introdução da esposa de Mutsuta à trama.

Mas se a verborragia atrapalha Sanjuro, o mesmo não se pode dizer da coreografia das lutas, que são muitas e bastante variadas. Os movimentos ágeis de Sanjuro chegam a seu ápice aqui, começando pela já citada batalha com a espada embainhada e alcançando seu clímax no duelo final, que encerra a obra com chave de ouro. Nesse embate, Sanjuro e Hanbei fitam-se por longos segundos, um muito próximo ao outro. Suas espadas estão embainhadas. Sanjuro não quer lutar e deixa isso claro, mas Hanbei insiste. E então, em uma fração de segundo, tudo acaba em um jorro de sangue copioso e demorado. Sanjuro quase não se mexeu, mas o complexo movimento que fez tirou sua espada da bainha e permitiu que a lâmina cortasse Hanbei em uma artéria. Não há nada de verossímil na cena e ela não é para ser mesmo assim. Reza a lenda que, tamanha foi a força do jato de tinta que sai da mangueira escondida no quimono de Nakadai, que o ator chegou a momentaneamente flutuar. Kurosawa gritou corta e ficou extremamente satisfeito com o que viu mesmo assim, já que a cena, filmada em apenas um take, realmente encerra a carreira de Sanjuro com uma nota perfeita entre a relutância e a violência inevitável.

Com esses lampejos de criatividade, a impressão que fica, ao final de Sanjuro, é que, se Kurosawa tivesse se concentrado em um roteiro original, teria feito outra obra-prima. Como se baseou em roteiro dele próprio, mas que apresentava outros componentes bem diferentes e que teve que ser modificado algumas vezes, a genialidade completa escapou por entre os parágrafos e o resultado foi um filme ainda de altíssimo gabarito, mas que definitivamente não merece estar no panteão de suas melhores obras.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.