Crítica | Santa Clarita Diet – 1ª Temporada

estrelas 4

Depois de um bom tempo fora dos holofotes, os zumbis novamente se tornaram populares, principalmente através do seriado The Walking Dead. Desde então, inúmeras produções, dos mais diferentes gêneros sobre as criaturas pipocaram nos cinemas e televisão, como iZombieZ NationMeu Namorado é um Zumbi, Guerra Mundial Z, dentre dezenas de outras, que solidificaram a posição desses seres novamente no imaginário popular. Eis que no início de 2017, a Netflix nos traz mais uma dessas obras, mas dessa vez consideravelmente diferente do que já vimos antes. Santa Clarita Diet é uma série de comédia, criada e comandada por Victor Fresco sobre uma mulher que, de uma hora para a outra, passa a se alimentar de carne humana.

Para começar, não estamos falando de um universo pós-apocalíptico e sim da vizinhança mais do que comum de Santa Clarita, uma pequena cidade na Califórnia. Ali vivem Sheila (Drew Barrymore) e Joel Hammond (Timothy Olyphant), junto de sua filha Abby (Liv Hewson). Em um dia como qualquer outro, a esposa repentinamente morre e acorda pouco depois diferente, mais solta, impulsiva – o único porém é que agora ela sente a necessidade de se alimentar de carne humana fresca. Começa, então, a jornada do casal para entender e se acostumar com essa nova dieta de Sheila, tudo enquanto o marido desesperadamente procura uma possível cura.

Santa Clarita Diet é uma mais que evidente sátira ao American Way of Life, a típica família tradicional dos Estados Unidos, que vive uma vida perfeita em uma casa financiada em trocentas vezes. Há uma constante e deliciosa ironia que permeia todos os episódios, que vem repletos de uma grande porção de humor negro, especialmente quando há um cadáver em cena, ou está prestes a aparecer um. A crítica aparece com toda a clareza quando Joel tem revelações sobre o que fazer enquanto faz compras, dialogando perfeitamente com o consumismo irrefreável e a clássica shopping therapy.

Para construir esse quadro, o seriado assume uma iluminação bastante clara, como se todos os dias estivessem ensolarados, com cores vivas, criando uma suculenta oposição com todo o gore que vemos em tela. O mundo feliz dessa família se choca com a inevitável violência dessa nova dieta e não há como conter risadas quando Sheila aparece com uma capa de chuva rosa para não se sujar com o sangue de suas vítimas. Aqui já aviso: se você tem estômago fraco, esteja preparado, você verá tripas e mais nesse seriado – não é a toa que decidimos o incluir em nossa coluna semanal, o Sábado de Sangue.

Um dos pontos interessantes do roteiro é como Victor Fresco não tem medo de se livrar de personagens: verdadeiramente, ninguém está a salvo da fome animal da protagonista e isso traz o doce sabor do inesperado ao espectador. A constante quebra de expectativa em episódios, que seguem uma linha narrativa  coesa e sem muitos devaneios, nos mantém atentos do início ao fim. A curta duração de cada capítulo (apenas trinta minutos) nos deixam com um gosto característico de quero mais, por mais que a série acabe tropeçando em alguns de seus exageros, mais especificamente quando sai do humor negro e tenta outro tipo de humor, que simplesmente não se encaixa bem com sua proposta. Felizmente, os roteiristas não desperdiçam muito tempo para resolver as situações criadas, possibilitando que cada episódio nos traga uma problemática diferente.

Outro deslize constante é o foco na filha do casal, Abby, que nos afasta do foco principal do seriado. Não reclamo de mostrarem os efeitos desse novo estilo de vida da mãe sobre a filha, mas sim da forma mais comum como a subtrama da personagem é conduzida, nos tirando dos apetitosos absurdos que preenchem a nova vida de Sheila e seu marido. Isso é contornado quando um ponto levantado nesse outro foco é retomado no principal, criando um orgânico diálogo entre a trama e suas ramificações.

Dito isso, o principal tempero de Santa Clarita Diet consegue nos afastar de seus problemas, esses são Drew Barrymore e Timothy Olyphant. A atriz é uma travessa cheia de ironia, uma mulher repleta de oposições que conseguimos acreditar, por mais surreais que sejam. Desde seus momentos “mamãe” até a nada experiente caçadora nos vemos fixados em sua atuação natural, que entende perfeitamente a proposta descontraída da série, sem se levar demais a sério. Olyphant, por sua vez, é a cereja no topo do bolo, o toque final dessa receita, que mantém o humor como uma constante. Suas reações, provenientes da tentativa de se acostumar com esse novo modo de vida são simplesmente hilárias – o ator faz uma cara de incredulidade diante de tudo que perfeitamente marca o sarcasmo da série, enquanto dialoga com o espectador, como se ele fosse nosso representante ali dentro. Tudo ainda fica melhor quando levamos em conta sua surreal tentativa de ajudar a esposa, que o leva às mais inesperadas situações.

Santa Clarita Diet traz um novo aroma às séries de comédia de trinta minutos, um frescor que a torna diferente da grande maioria das produções do gênero, ao assumir a ironia, o sarcasmo e o humor negro como elementos centrais de sua construção narrativa. Estamos falando de um seriado com um ar descontraído, repleto de cômica violência que explora o gore de forma divertida, explorando toda a ironia da coisa sem ser extremamente visceral. Certamente a Netflix nos trouxe uma diferenciada obra sobre zumbis, que é um prato cheio tanto para os fãs desses seres quanto para aqueles que apenas querem dar umas boas risadas.

Santa Clarita Diet – 1ª Temporada — EUA, 2017
Showrunner:
 Victor Fresco
Direção: Ruben Fleischer, Marc Buckland, Ken Kwapis, Craig Zisk, Lynn Shelton, Steve Pink, Tamra Davis, Dean Parisot
Roteiro: Victor Fresco, Clay Graham, Michael A. Ross, Chadd Gindin, Leila Cohan-Miccio, Ben Smith, Aaron Brownstein, Simon Ganz, Sarah Walker
Elenco: Drew Barrymore, Timothy Olyphant, Liv Hewson, Skyler Gisondo, Richard T. Jones, Ricardo Chavira, Mary Elizabeth Ellis
Duração: 10 episódios de aprox. 30 minutos.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.