Crítica | Santos Justiceiros

Santos Justiceiros é um filme que estava na minha lista “para ver” há bastante tempo. O filme é de baixo orçamento, meio underground, fez pouquíssimo sucesso no cinema, mas que, com o tempo, angariou uma enorme quantidade de seguidores e fãs depois que foi lançado em vídeo doméstico, com direito até mesmo a uma continuação, dez anos depois. A pergunta que se deve fazer é: esse sucesso todo – mesmo que relativo – é efetivamente merecido?

Creio que a resposta mais honesta seja essa aqui: se o espectador aprecia os chamados “filmes de brucutu dos anos 80”, em que a qualidade da obra era medida pela quantidade de corpos empilhados e pela originalidade como as execuções aconteciam, então Santos Justiceiros é a resposta noventista a essa tendência. O outro lado da moeda também é verdadeiro e quem tem aversão à violência descerebrada dispensada por uma dupla invencível de pistoleiros deve fugir da obra dirigida por Troy Duffy, cuja carreira cinematográfica é quase que completamente inexistente e restrita, basicamente, a este filme e sua continuação.

Em breve resumo, já que o roteiro não é algo que importe muito aqui, Santos Justiceiros narra a história de dois irmãos descendentes de irlandeses, profundamente religiosos e moradores de Boston que, um dia, depois de um ato em autodefesa, recebem uma mensagem divina para acabarem com todo o mal (sim, isso mesmo). Com muita sorte e alguma habilidade (e muitas armas, claro) eles causam um rebuliço na máfia local ao mesmo tempo que são investigados por um agente do FBI.

O filme é daqueles que deve ser categorizado na prateleira mental intitulada “deixe seu cérebro de lado”, mas ele, diferente de muitos outros da mesma época, não tem vergonha de ser o que é, jamais tentando iludir o espectador com elementos sutis ou uma história edificante que não seja tão rasa quanto o pires usado como sustentáculo para a trama. No lugar de profundidade, temos uma fotografia cinética que tenta – e até certo ponto consegue – destacar o filme em meio a vários do mesmo tipo que se amontoaram nos anos 90 sem o mesmo charme de suas contrapartidas oitentistas. Sim, é estilo sobre substância em sua expressão máxima, mas nem sempre isso é algo puramente ruim e Troy Duffy, com muita energia e sequências incessantes de ação, entrega uma fita que consegue divertir aqueles que estiverem procurando apenas isso.

As atuações de Sean Patrick Flanery e Norman Reedus, como os irmãos Connor e Norman McManus são engajantes, assim como os 15 minutos de tela que o carismático Billy Connolly tem, no papel de Il Duce. Mas quem rouba o show completamente é Willem Dafoe como Paul Smecker, um agente do FBI que os persegue. O grande artifício inteligentemente usado para o personagem de Dafoe é que, além de ser um brilhante detetive, que consegue reconstruir cenas de morticínio complexas em sua cabeça, ele é gay, muito gay. Essa combinação cria momentos excepcionais, especialmente aqueles em que ele ensina como ser detetive para o bando de idiotas da polícia local que usam até caderninhos para anotar o que Smecker fala. Dafoe parece estar se divertindo muito no papel e, no processo, enriquece toda a experiência audiovisual.

Outro que merece atenção é o pândego David Della Rocco, no papel de… Rocco, um amigo dos irmãos McManus. Rocco é um mafioso principiante que espera, há 18 anos, a chance de subir os degraus da máfia. A chance que lhe é dada, porém, não é das melhores e ele acaba ajudando os irmãos em sua cruzada divina. O personagem é responsável por outros ótimos momentos no filme, como as sequências no confessionário e a do gatinho, além de ser muito hábil no emprego multifacetado do verbo to fuck.

A fotografia, como deixei mais do que apenas nas entrelinhas, é estilosa, repleta de câmeras lentas (tendendo para o cansativo, claro) e empresta ao filme um quê de sofisticado que nos faz esquecer a inexistência de uma trama decente e a implausibilidade do que vemos acontecer. Algumas breves sequências de ação são geniais e nos fazem lembrar, por efêmeros segundos, os melhores momentos de Quentin Tarantino.

Santos Justiceiros é uma versão polida dos filmes oitentistas de pancadaria, carregando o estilo mais cinético e menos “brutamontes” que marcou os anos 90. É perfeitamente possível compreender como a obra foi, ao longo dos anos, angariando  seguidores ao ponto de justificar uma sequência. A diversão é constante, desde que o espectador não espere nada mais do que isso.

Santos Justiceiros (The Boondock Saints, EUA/Canadá – 1999)
Direção: Troy Duffy
Roteiro: Troy Duffy
Elenco: Sean Patrick Flanery, Norman Reedus, Willem Dafoe, David Della Rocco, Billy Connolly, David Ferry, Brian Mahoney, Bob Marley, Richard Fitzpatrick, William Young, Robert Pemberton, Bill Craig, Dot-Marie Jones, Scott Griffith, Layton Morrison
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.