Crítica | São Jorge (2016)

estrelas 4

São Jorge, do diretor Marco Martins, é um documentário mascarado de ficção, segundo as palavras do próprio diretor, e surgido a partir de muita pesquisa sobre pugilismo, clubes de boxe e os efeitos da crise econômica de Portugal (já tratada de maneira contundente, na safra anterior, por Miguel Gomes, na trilogia em As Mil e Uma Noites), destacando o ponto de vista social.

Em 2011, uma cooperação entre o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia formaram a Troika, tríade que passou a negociar com os países membros dos programas de crédito da zona do euro permitindo o surgimento de filiais menores para oferecer e cobrar, de maneira mais intensa (violenta) os empréstimos cedidos a pequenos e médios empresários ou a cidadãos comuns. É nesse cenário que se destaca o personagem de Jorge, gloriosamente vivido por Nuno Lopes (de Alice, do mesmo diretor).

Jorge é um boxeador que, assim como a economia portuguesa, já viu dias melhores. Ele trabalha em uma fábrica que está à beira da falência e em atraso de meses no pagamento dos funcionários. Os sindicatos estão presos em pequenas armadilhas de negociações, os operários insatisfeitos e a produtividade baixa, o que torna toda a situação uma bola de neve difícil de se dissociar do programa de austeridade português, que em sua proposta de “corte de gastos” e reestruturação econômica – via bancos – deixou a população à mercê dos credores, sem muita alternativa de saída.

O filme transcorre em um tipo de transe embalado por uma bem escolhida e pontual trilha sonora, e às vezes temos a impressão de que não acontece nada, especialmente na primeira metade. Jorge passa os dias indo e vindo, à procura de Susana, sua ex-companheira e mãe do seu filho; ou treinando e servindo como saco de pancadas para outros atletas no ringue, em troca de algum dinheiro para manter “o puto”. Com isso, ele imagina que, talvez, possa convencer Susana a voltar para ele e desistir de retornar para o Brasil.

Toda a questão familiar dá mais humanidade ao protagonista, contudo, de pouco serve para o corpo dramático na primeira parte da obra, porque o roteiro a expõe de maneira aberta e difusa, sem muito peso, algo que só viria depois, quando as muitas migalhas e silêncios de todos esses espaços já eram conhecidos do público.

Entre um momento e outro de Jorge em cena, são colocados alguns depoimentos de trabalhadores ou reuniões de comitês sociais falando de previdência, de assistência social, de empréstimos, processos jurídicos, financiamentos e perda de casa ou outros bens materiais. Isso combina bastante com o que o diretor deu a entender sobre a relação do roteiro com um documentário socioeconômico, especialmente porque mostra a população pagando muito mais caro por bens de primeira necessidade, isolando cada vez mais os suburbanos e os que já começaram mal a largada, como os imigrantes, que aparecem na discussão tal qual uma pedra no sapato, e fica claro o tom racista e xenófobo de muitos portugueses para com eles. Todavia, esse aspecto inteiro da fita –exibido com interrupções da trama principal – acaba destoando do texto.

Quando Jorge se vê engolfado por uma situação insustentável (ele precisa ganhar dinheiro a qualquer custo, caso contrário, perde o filho e a mulher que ama), um emprego suspeito lhe é oferecido e, deste momento em diante o personagem se destaca ainda mais dentro da história, mostrando o alcance dramático do ator Nuno Lopes e o lado nada bonito das “agências de bairro” da Troika.

O grande destaque imagético do filme é a fotografia noturna, com forte contraste de luz, câmera inquieta e filtros amarelos para destacar a doença social e individual dos portugueses sem dinheiro e desempregados. Nós vemos claramente quando cada ato começa, pois a câmera destaca alguma cena de luta ou preparação de Jorge, e o diretor faz uma tomada em pequeno plongé sobre os ombros de Lopes, que se alonga e limpa o suor da cabeça. A cada momento desses, sabemos que ele está se preparando para a batalha, como se estivesse vestindo as armas de São Jorge, seu santo protetor, a quem faz a famosa oração no início da fita.

Ao abordar a crise econômica portuguesa, Marco Martins escolheu os dramas pessoais do português médio, especialmente os trabalhadores de fábricas e os pequenos e médios empresários, filmando como essas pessoas fazem para sobreviver em um país que resolveu fechar os olhos para todo o resto, desde que sua dívida seja paga e a economia vigore, refloresça. A obra tem uma direção cuidadosa, excelentes atuações, desenho de produção urbano, saturado, sujo e ações morais que mostram o lado nada discreto e charmoso da austeridade para aqueles que seguram o lado mais fraco da corda social.

São Jorge (Portugal, 2016)
Direção:
Marco Martins
Roteiro: Ricardo Adolfo, Marco Martins
Elenco: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Beatriz Batarda, Jean-Pierre Martins
Duração: 112 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.