Crítica | São Paulo, Sociedade Anônima

estrelas 4

“Tudo passaria depressa, como tudo que se passa em São Paulo”

Recomeçar. Quantos anseiam pelo início de uma nova vida? Uma nova oportunidade. O seguir em frente sem olhar para trás. O esquecimento de um passado relacionado à dor e ao fraquejo humano que permeia a vida presente. Um presente que se pudéssemos trocaríamos pela chance de recomeçar. O Brasil, na aura otimista do governo de JK e, mais à frente, nos tormentos prévios do golpe militar de 1964, abraça o desenvolvimentismo, a indústria automobilística. Nos conformes das cidades mais importantes da época, São Paulo recebe de braços abertos o progresso, iludindo o sonho do brasileiro ingênuo e escondendo, muitas vezes até em banheiros imundos, as mazelas da sociedade.

Em uma época que a população urbana crescia exponencialmente, alcançando aos poucos a população rural brasileira, Carlos (Walmor Chagas) é mais um à procura da felicidade, presumidamente concedida de bom grado pelo ilusório “Brazilian” Way of Life, abrasileirado porque sim. Uma ilusão embasada no mito do self-made man. A entrada de multinacionais no Brasil, com a própria produção de automóveis ocorrendo no território, cria a premissa do filme que coloca Carlos diante de várias oportunidades de emprego, permeadas pelo encontro com distintas mulheres. Assim vai-se esgotando a própria vitalidade do homem, que não só percebe a sociedade doentia que habita como se cansa de fazer parte dela. Só resta fugir e por fim recomeçar.

O protagonista – teórico – do filme, Carlos, é levado a interagir substancialmente com três amantes no longa. Em primeiro plano, temos a interesseira Ana (Darlene Glória), apresentada entre, literalmente, tapas e beijos. Pouco explorada pelo roteiro, este a “desenvolve” apenas pontualmente. A narrativa é dada em formato não-cronológico, podendo assim garantir, especialmente na intercessão entre as diferentes relações amorosas na segunda metade do filme, pouco entendimento da história por parte do espectador. É notável que Carlos, com nenhuma delas, aparenta ter alcançado a felicidade tão procurada. Até quando, após encontros e desencontros, casa-se finalmente com Luciana (Eva Wilma) e tem um filho, o personagem demonstra o mesmo desgosto por tudo, totalmente corrompido. E assim foge com tudo, mas sem nada, ironicamente roubando um carro fabricado no Brasil pela indústria automobilística que tanto o corroeu.

A vitimização da figura de Carlos é colocada em oposição aos seus aspectos mais grosseiros. Como sentir pena de um homem que deixa funcionários não regulamentados passar por horas e horas a fio em condições de trabalho péssimas? Tão revoltante quando a cena que meia dúzia de homens, todos esgotados fisicamente, revelam-se de banheiros apertados, escondidos de fiscais trabalhistas, é a cena na qual Arturo (Otelo Zeloni), imigrante italiano e sonegador de impostos, consegue coibir atitudes mais severas dos funcionários públicos. Uma palhaçada, na falta de palavras melhores, que aliada a esperança brasileira de que “tudo vai dar certo no final” não se deixa esvair. Tudo continua, uniformemente variado.

Na área das interpretações o longa-metragem dá algumas derrapadas. É perceptível com facilidade que a personagem Hilda, interpretada por Ana Esmeralda, está sendo dublada, o que torna todas as cenas envolvendo a personagem artificiais, embora o seu texto seja devidamente poderoso. A voz, porém, não se casa com a performance corporal. O argumento envolvendo a figura da intelectual mulher traz a depressão e loucura próximas à busca da identificação com o abstrato, com a arte, sem, de fato, encontrar-se para si mesma justificativas diante de tantas problemáticas. Walmor Chagas, felizmente, consegue sair um pouco dessa fragilidade na direção de atores transmitindo muito bem seus pesares, suas alegrias (poucas a serem mencionadas) e seus desvios morais. Contudo, mesmo que não esteja quebrando a quarta parede, como faz com certa inconstância, o espírito do voice-over acaba misturando-se com os diálogos de fato, revelando uma poesia expositiva de pensamentos. Uma bela poesia, entretanto.

Ademais, percebe-se que nenhuma das cenas foram filmadas em estúdio. São Paulo está viva, e é o personagem principal desta obra, invocando sua presença em cada plano, desde o inicial, onde que encontra-se refletida nos imensos prédios da metrópole cinza, assim definida, mesmo que referenciada em preto e branco. A excelente fotografia dá margem a montagens exuberantes, como na melancólica observação da cidade, pelas janelas, feita pelos olhos da neurótica Hilda, o que maquia muito bem o desespero do homem que emerge da podridão e lá encontra seu descanso. As “brincadeiras” com a profundidade dos ambientes, dado o foco e a sombra, são presentes e muito bem-vindas. Luís Sérgio Person conduz a câmera com bastante ritmo, combinando os belos planos, em ângulos curiosos, com a boa trilha sonora, que muitas vezes falsificam um ar épico, talvez desnecessário, para as mais mundanas situações. O silêncio contribuiria mais para com a dramaticidade de algumas cenas.

O cidadão comum, em sua rotineira vida regular, nem mesmo um pouco diferente da vida de outros cidadãos comuns, encontra-se fascinado com a câmera de Person que busca acompanhar a atuação de Walmor Chagas. Quando não há mais Carlos para protagonizar os planos, há ainda paulistanos para serem filmados pela câmera do diretor. No meio do homem comum, o filme encerra-se, sendo tão ordinário quanto relevante. A pressa das pessoas encontra paralelo com a corrida de São Silvestre, onde corredores buscam ultrapassar seus competidores, enquanto que na vida regular, homens e mulheres, em sua grande maioria dignos da caracterização “do bem” – bons pais e bons maridos, boas mães e boas esposas – são forçados pela organização da sociedade vil a ultrapassarem seus competidores, nada diferente deles mesmos. A rapidez na tomada de decisões convenientes, a facilidade de obtenção de crédito. Tudo garantia da edificação mentirosa da subida de classe por meio do mérito do pobre.

Onde encontra-se o recomeço para o paulistano jovem e de classe média, que mesmo estabilizado permite-se afogar em uma insatisfação pungente? Onde encontra-se o recomeço de uma cidade, em eterna transformação, porém, também em eterna repetição? É de se estranhar que mais de 50 anos depois, São Paulo, Sociedade Anônima pode ainda, dado os parâmetros históricos associados, ser considerado extremamente atual. A alienação da sociedade na esperança da felicidade. O consumismo confortando o enlouquecimento e deturpação coletiva. Uma obra que vocifera debates importantes sobre sistemas, mentalidades e moralidades. Os tempos passaram, mas no fundo tudo termina igual: no mesmo contínuo recomeço.

São Paulo, Sociedade Anônima — Brasil, 1965
Direção: Luís Sérgio Person
Roteiro: Luís Sérgio Person
Elenco: Walmor Chagas, Eva Wilma, Ana Esmeralda, Otelo Zeloni, Darlene Glória, Mário Audrá,
Duração: 107 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.