Crítica | Satyricon de Fellini

estrelas 2

Imagine uma “crônica secular” que narra o cotidiano de uma parte da sociedade, com destaque para os novos-ricos e em alguns casos, com requinte de detalhes. Agora aplique essa “crônica” à Roma do Imperador Nero e você terá a conhecida obra de Petrônio, Satyricon (c. 60 d.C.), uma sátira em verso e prosa que expõe os costumes e a política de seu tempo, com passagens cômicas e trágicas, e que conhecemos em seu formato desconexo e episódico, já que nunca foram encontrados todos os manuscritos originais.

Aproveitando-se desse ponto mais livre no desenvolver da narrativa de Encólpio (o personagem narrador do Satyricon de Petrônio), Federico Fellini e Bernardino Zapponi escreveram um roteiro que se baseava livremente nos acontecimentos do livro, destacando-se aí o amor de Encólpio por Gitão e sua luta contra Ascilto, uma luta permeada por momentos de amor, companheirismo, traição, ódio e desejo.

O último longa-metragem de ficção dirigido por Fellini antes de Satyricon havia sido Julieta dos Espíritos (1965), e para o diretor, era chegado o momento de ousar como ele nunca ousara. Infelizmente, porém, a ousadia acabou se transformando em um filme cujo propósito e motivações são nulos, o exagero beira o mal gosto e por pouco não caiu na lixeira cinematográfica. Mas o que salvou Satyricon disso? A gloriosa equipe técnica, com destaque para os setores de figurino, fotografia e direção de arte; e a direção de Fellini.

O verdadeiro problema deste filme, cuja intenção era mostrar a decadência, luxúria, paganismo e organização social e cultura da Roma Antiga, é o roteiro preguiçoso, que usa de um motivo literário (a narrativa episódica) para mostrar elementos desconexos no tempo e no espaço, tendo como componentes fixos apenas o miserável Encólpio, interpretado com carisma astronômico por Martin Potter.

Entre orgias, ironias e desgraças, vemos Fellini apresentar uma série de momentos vividos por Encólpio, iniciando com sua aparição sombria (assim como a apresentação de Ascilto), e culminando com um final aberto, assim como a obra de Petrônio. É possível, com algum esforço, identificar as manifestações sociais romanas do primeiro século, o comportamento latino em relação a lendas e escrita da História (com destaque para a narrativa oral), canções tradicionais e principalmente a presença e atitudes dos que estavam à margem da sociedade, opondo-se imensamente às prósperas e libidinosas festas dos senhores de Roma – vide a sequência do Banquete de Trimalquião.

Mas tudo não passa de um retrato teatral e absurdamente exagerado, onde o foco narrativo se perde completamente, chegando ao ponto de massacrar a edição de Ruggero Mastroianni em prol de uma exibição que não conseguimos entender. As sequências são mal equilibradas, dando-se atenção em demasia de um lado e nenhuma ou pouca atenção para plots que poderiam ser realmente interessantes, como a sequência do semideus hermafrodita ou mesmo as representações de narrativas/flashbacks, que deveriam servir não apenas de ilustração, mas de alguma forma, ligar-se com as desventuras encontradas por Encólpio durante seu caminho – ou qualquer coisa que não fizesse com que sua colocação no decorrer do filme parecesse apenas uma tentativa barata de fugir do ponto ativo da história.

A direção de Federico Fellini é notável e, como já disse, a equipe técnica faz um trabalho maravilhoso, mas o roteiro de Satyricon abriu as portas da perdição para o próprio filme, e me dói dizer, mas este é uma das obras que eu gostaria de esquecer que foi dirigido por alguém como o diretor, tamanho é o abismo de nonsense e teatralidade barroca desnecessária e desconexa que o forma, um oposto tenebroso em relação à obra louvável do diretor, tanto antes, quanto depois deste filme.

Satyricon de Fellini (Fellini – Satyricon) – Itália, 1969
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi, Brunello Rondi (adaptação da obra de Petrônio)
Elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Max Born, Salvo Randone, Mario Romagnoli, Magali Noël, Capucine, Alain Cuny, Fanfulla, Danika La Loggia, Giuseppe Sanvitale
Duração: 128 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.