Crítica | Scanners – A Sua Mente Pode Destruir (1981)

SCANNERS

estrelas 3

Em 1981, o cineasta David Cronenberg já possuía certo prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica, mas o alavancar da sua carreira para manutenção até os dias atuais veio na esteira do sucesso de A Mosca e Gêmeos – Mórbida Semelhança, marcos audiovisuais dos anos 1980. Situado no Canadá, o diretor ganhou notoriedade com Calafrios, em 1975, aos 32 anos de idade, com outros dois filmes pouco conhecidos no currículo.

Ao mostrar-se um realizador que entregava filmes de gênero que respeitavam certas convenções narrativas autorais, Cronenberg demonstrou ser outro “diferentão” do cinema. Buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, indo ás vezes na contramão do tradicional, conquistando um público bem vasto e heterogêneo. Desde 1969, entretanto, com a produção de Stereo, o cineasta se empenhava em apresentar reflexões sobre a subjetividade e o corpo: o tema vai percorrer boa parte da sua carreira, tendo Scanners – A Sua Mente Pode Destruir como um desses representantes.

O filme aborda o mundo dos scanners, pessoas com poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de “herói da resistência”. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale. Uma guerra de titãs se estabelece.

Nesse enredo ainda há o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) e o desenvolvimento do efemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Com terríveis efeitos colaterais, essa substância permite o surgimento de novos scanners, aumentando assim o trabalho planejado por Revok, tudo isso, orquestrado por um cineasta que flerta com a linguagem do vídeo constantemente, entregando ao espectador uma experiência que vai além dos habituais filmes autorais de quem estabeleceu as suas bases na literatura, nas pinturas clássicas e no teatro, haja vista que Scanners – A Sua Mente Pode Destruir é um filme sobre a era do vídeo.

Dentre os elementos técnicos que merecem destaque está o engenhoso trabalho de som, a composição musical bem anos “1980”, assinada por Howard Shore, a montagem de Ronald Sanders e a maquiagem de Dick Smith, o mesmo de O Exorcista e Viagens Alucinantes. Entre perseguições de carros, batidas, conspirações e tiroteios, o roteiro apresenta uma narrativa que consegue se sustentar de forma mediana, mesmo que tenha eventuais falhas, como por exemplo, os infames clichês do vilão caricatural e a mocinha quase incompetente, isca fácil no furioso debate entre protagonista e antagonista.

A direção de arte não teve muito trabalho a fazer. Com problemas orçamentários, a equipe precisou encontrar locais prontos para a composição dos cenários e itens disponíveis para ornamentação do espaço fílmico. O resultado não foi ruim: há um coerente uso do vermelho e locações prontas bem aproveitadas. Voltando ao roteiro, há um paralelo com situações do romance O Almoço Nu, de William Burroughs, um dos autores prediletos de Cronenberg, presença constante em outras produções do canadense.

Com 103 minutos de duração, a produção não consegue se manter entre os melhores filmes do cineasta, entretanto, possui uma das imagens mais marcantes do gênero terror e de toda a história do cinema: uma cabeça explodindo, enquadrada quase em primeiro plano, após uma experiência mal sucedida. A produção mostra o corpo como sustentáculo de algo maior, a mente, bem como a sua capacidade destrutiva. O relativo sucesso não significou satisfação por parte do diretor, pois ele o considera um dos filmes mais problemáticos que já fez. Ganhou duas continuações, ambas extremamente inferiores ao filme ponto de partida.

Scanners – A Sua Mente Pode Destruir (Scanners) – Canadá, 1981.
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: David Cronenberg.
Elenco: Jennifer O´Neill, Stephe Lack, Michael Ironside, Patrick McGoohan, Lawrence Dane, Mavor Moore, Lee Broker, Adam Ludwig, Sonny Forbes.
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.