Crítica | Scoop – O Grande Furo

estrelas 3,5

SPOILER!

Match Point (2005) foi para Woody Allen o que A Sombra de uma Dúvida (1943) foi para Hitchcock. Este primeiro filme europeu – londrino – de Allen, alcançou um enorme sucesso de público e crítica, e ele o considera a sua melhor obra. Mas a película que sucedeu a tão bem cotada realização, Scoop (2006), não alcançou igual prestígio.

O filme conta a história de Sondra Pransky, uma estudante de jornalismo que, ao entrar uma uma caixa mágica, recebe a visita do espírito de um importante jornalista recém-falecido. O espectro diz o nome de uma importante personalidade da cidade e dá a entender que este jovem rico provavelmente seja o famoso “assassino do tarô”, um serial killer procurado pela polícia. Intrigada, a jovem pede ajuda ao mágico (o próprio Allen), para fazer o espírito reaparecer, o que acontece quando a dupla menos espera. Depois da segunda aparição, o mágico Splendini e a bela jornalista investigarão o suspeito denunciado pelo espírito e enormes surpresas, pinceladas de suspense e humor, farão parte da empreitada.

Scoop é quase uma típica comédia woodyana. Se nos lembrarmos de Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (1983), Édipo Arrasado (1989) e O Escorpião de Jade (2001), encontraremos elementos místicos e mágicos que reaparecem nesse filme europeu como núcleo de todo um grande problema. A própria sequência do mágico Splendini, com a bela saturação de vermelho, no palco, e a sutil fotografia, são praticamente idênticas à sequência do mágico de Édipo Arrasado, inclusive o truque da caixa mágica.

Mas a tragédia de Match Point parece ter impregnado o roteiro seguinte de Woody Allen, que acabou filmando a sua comédia mais “ambígua”. Scoop faz rir, mas carrega algo novo: um suspense angustiante que lhe dá um ar tão genial e tão estranho ao mesmo tempo, que o produto final chega a causar um riso nervoso no espectador e não há nada mais incômodo do que essa reação ao final de um filme. Além disso, Scoop está “perdido” entre dois fortes dramas woodyanos, o citado Match Point (2005) e O sonho de Cassandra (2007). Portanto, não podemos negar a mente do diretor estava mais para a tragédia do que para a comédia e talvez por isso mesmo, Scoop tenha esse caráter tragicômico em toda a sua duração.

A abertura e música-tema do filme é a pequena peça Dança dos Cisnes, o antepenúltimo ato d’O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. O efeito obtido com essa escolha acentua o ar dialético entre a tragédia e a comédia. Sim, porque em cada sequência em que a peça é usada, o espectador é apresentado a uma nova onda de sensações, ora medo e anseio, ora alegria e descontração. Mais uma vez, podemos ver a importância e significado da trilha sonora para os filmes do cineasta, e como, a cada obra, ele tem usado de diversos meios para conseguir o seu intento dramático de identidade sobre a imagem fílmica através da música.

A morte, a imprensa e a personalidade pública são as colunas do filme. Mais uma vez, desde Crimes e Pecados (1989), Woody Allen nos entrega um homem bem-sucedido que efetua um crime para salvar a sua imagem de bom cidadão. Desta feita, a “outra parte” é uma prostituta. O diretor expõe uma cena de bastidores e ridiculariza como isso afeta e define a ação de um ser humano na vida pública. A imprensa, então, é o “Olho de Deus”, uma espécie de justiça falha, mas necessária, que trará à tona o crime. Mas a própria jornalista não exerce a profissão que queria e é o evento sobrenatural que a empurra para as investigações, sendo o sucesso da reportagem pura obra do acaso – entre utilitarismo e facilidades segue, a Londres de Woody Allen.

E por fim, a Morte. Allen faz uso de efeitos especiais e representação dantesca para dar conta desse seu tema-raiz. Pelo que me lembro, esta é a segunda vez que uma personagem interpretada por Allen morre e se encontra com a Morte. A primeira foi em A última noite de Boris Grushenko (1975).

A fotografia de Remi Adefarasin (o mesmo de Match Point) é muito sutil, embora tenha uma tendência para a saturação da cor (uma preferência de Woody Allen, especialmente para vermelho, amarelo e laranja). A cor, em Scoop, também serve para opor mundos, ou espaços cênicos, pelo menos nas primeiras sequências, todas em lugares diferentes, com tratamento visual, planificação e angulação completamente diferentes:

  • Sequência nº 1: Igreja. Velório de Joe Strombel.
  • Sequência nº 2: Bar. Amigos de Joe conversam sobre ele.
  • Sequência nº 3: O barco da morte.
  • Sequência nº 4: Sondra Pransky e o cineasta.
  • Sequência nº 5: Sondra Pransky no quarto da amiga.
  • Sequência nº 6: O show de mágica.

A direção de arte de Nick Palmer me fez sentir muita falta da cenografia de Santo Loquasto (que trabalhou com Allen de A Era do Rádio (1987) até Melinda e Melinda (2004), voltando, depois, em Tudo Pode dar Certo). Em relação à cenografia, há um clamor e um gemido no filme. O interessante é que em O sonho de Cassandra, Nick Palmer faz um trabalho bem mais artístico, muitíssimo superior à secura que imprimiu à maioria das sequências de Scoop. Destaco aqui apenas três espaços cênicos muito bons: o barco da morte, o teatro do show de mágica, e a fazenda de Peter Lyman.

O elenco é bem dirigido, e mesmo Scarlett Johansson atrás daqueles terríveis óculos, consegue manter a sensualidade, e esbanjar beleza. Hugh Jackman impressiona com a naturalidade e a composição fria, indiferente e completa do personagem que interpreta.

Mesmo não sendo um filme genial, Scoop é uma boa peça woodyana, uma bem dirigida (embora modicamente) tragicomédia com ares de suspense. O filme lembra um pouco as suas comédias mais leves dos anos 1990, mas que ninguém se engane: Scoop pertence a um novo tempo e Woody Allen é um exímio perito em captar sintomas de momentos históricos diferentes, é só assistir para entender isto. Sua longeva carreira e filmografia estão aí para provar.

Scoop – O Grande Furo (Scoop, Estados Unidos, UK, 2006)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Ian McShane, Woody Allen, Charles Dance, Romola Garai, Kevin R. McNally
Duração: 96min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.