Crítica | Scream Queens – 1ª Temporada

estrelas 4

Os filmes de terror dos anos 1980 estão com a memória resgatada com toda força ultimamente. Entre os marcos do ano passado, tivemos a estreia internacional relativamente bem sucedida de The Final Girls (comédia que satiriza filmes ao estilo Sexta-Feira13) e as estreias de duas séries situadas no universo do slasher movie: Scream (baseada em Pânico, de Wes Craven) e Scream Queens, criada pelo trio Ryan Murphy, Brad Falchuck e Ian Brennan, uma comédia carregada de exageros sobre crimes em uma universidade.

A sequência de abertura já estabelece o tom: é uma referência aos filmes de terror dos anos 1980. A série começa com uma festa em 1995, com uma integrante da universidade tendo um bebê e morrendo (assassinada) em seguida. O clima ao estilo Pânico é estabelecido e a série mostra “a sua cara”: satirizar os costumes da geração juvenil contemporânea com muito deboche e ironia, itens às vezes utilizados com um toque tão carregado que chegam a causar estranhamento.

A temporada possui o seu enredo focado numa série de assassinatos envolvendo os estudantes de um campus universitário, principalmente as integrantes da fraternidade Kappa Kappa Tau. Liderada por Chanel Oberlin (a nº 1, Emma Roberts, ótima), o local é habitado por suas seguidoras, garotas intituladas de Chanel nº 2, nº 3 e por ai vai, todas súditas e alienadas, em constante estado de adoração a sua diva maior, Chanel nº 1.

Oberlin precisa lutar contra as garras da temperamental reitora, a Sra. Cathy Munsch (Jamie Lee Curtis), uma profissional que vive em constante perseguição contra a mocinha. A “guerra civil” entre as duas alcança maior impacto depois que a reitora amplia o edital para a próxima Chanel da fraternidade, dando espaço para pessoas que saiam dos parâmetros normativos da instituição repleta de futilidades: agora, negras, latinas, obesas e deficientes de qualquer segmento podem se inscrever e tornarem-se possíveis representantes deste lar de futilidades.

Enquanto há conflitos de pais desaparecidos, filhos rebeldes, traições de namorados bonitões e outros dramas menores, as garotas tornam-se o alvo de um assassino em série, uma figura que se veste do mascote local, o Diabo Vermelho, e mata as suas vítimas através dos elementos da seguinte fórmula: arma branca + dor + humor – piedade + exageros = jovem morto esquartejado.

O mote da série, então, é estabelecido desde o começo: descobrir a identidade do assassino e as motivações para a realização de crimes tão hediondos, além de compreender como o nascimento do bebê em 1995 mudou a vida das pessoas que habitam a fraternidade, tendo em vista que o acontecimento é uma das lendas urbanas mais famosas do local. Apesar de bem dividida entre outros personagens, a centralidade da série é a fútil e divertida Chanel Oberlin, um personagem curiosamente construído para impactar de tão exagerada.

Carregando toda sorte de estereótipos imagináveis, Chanel Oberlin despreza as pessoas excluídas e é a metonímia do lado fútil da sociedade estadunidense. Mimada, boba, mandona, irritante e arrogante, principalmente pelo fato de ser filha de pais milionários. A sua prepotência não é construída com base na sagacidade de seus pensamentos, mas por deter dinheiro e poder de persuasão por seu status social no local onde vive.

Visualmente estilizada, Scream Queens conta com uma cenografia rica em cores fortes, como o vermelho, tendo como aliado um gritante trabalho de iluminação dos ambientes internos, tendo cada objeto em cena valorizado e até associado ao centro da ação dramática. A ideia do ambiente visual construído pela série é recorrer ao exagero, ao artificialismo, em suma, ao excesso, ao que grita aos nossos olhos de tão absurdo, unindo, desta maneira, exageros visuais e temáticos, haja vista que alguns diálogos são tão absurdos que só rindo mesmo.

Cabe ressaltar a montagem como outro setor de destaque da série, pois o ritmo empregado colabora com o dinamismo proposto pelos diálogos. É algo na linha do “triscou, pegou”. Ou você pega a piada de imediato e associa ao seu background ou vai ficar voando e sem entender  certas imagens dispostas nas cenas mais divertidas da série, como por exemplo, a referência ao clássico Psicose, além de um final de episódio com luz verde e uma detetive num porão, em busca do criminoso (isso te lembra algum filme sobre uma agente e um canibal numa parceria psicológica eletrizante?).

Há algumas críticas sociais que podem soar dispersivas ou desnecessárias, como as piadas com o Tinder e a Black Friday, mas Scream Queens é isso: uma baita sátira ao consumismo, ao vazio de algumas narrativas hollywoodianas situadas em faculdades e escolas de ensino médio, ao protagonismo excessivo de certos cidadãos, ao modo de encarar a competitividade, dentre outras questões que fazem parte da pauta diária da cultura estadunidense.

Entre os episódios mais interessantes destaco “Serra Elétrica”, o terceiro da temporada. Na trama o professor exibe o filme O Massacre da Serra Elétrica numa sala de aula e depois promove um debate sobre a produção. Da aula, os temas do filme “ganham” vida, sendo o objeto de Leatherface a arma para a realização dos crimes durante o episódio, numa exibição audiovisual com 42 minutos de membros cortados, gritos, sangue e muito, mas muito humor. É nesse mesmo episódio que uma das integrantes da fraternidade descobre que o seu pai biológico é ninguém menos que Charles Manson, um dos maiores assassinos em série de história recente.

Diante do exposto e da observação de outras opiniões em nosso campo crítico, posso inferir que Scream Queens é uma série pouco compreendida. Fraca? Não. Boba? Depende do ponto de vista. Sem nexo? Não se observarmos com base no conceito de nonsense. Exagerada? Sim, excessivamente, mas de forma proposital. Uma das questões que circundam a recepção desta série está na codificação da mensagem. Se o espectador não possui o código, provavelmente não conseguirá ir muito longe. É preciso dar conta da boa e velha metalinguagem: os diálogos acelerados disparam piadas como metralhadoras, referenciando filmes e nomes caros ao campo dos filmes de terror.

A audiência inicialmente não foi das melhores e a série vai precisar se esforçar para conseguir manter-se em exibição. As campanhas publicitárias foram massacrantes na mídia estadunidense e em outros países, como o Brasil, por exemplo. Celebridades do mundo jovem foram convidados a fazer participações especiais, como Ariana Grande e Nick Jonas, além da série dispor da maior scream queen da história do cinema: Jamie Lee Curtis, atriz indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz por Série de Comédia.

A série estreou dia 22 de setembro de 2015 e inicialmente entregaria quinze episódios de 42 minutos ao público, mas teve o seu número reduzido para o cabalístico 13. Com segunda temporada garantida pelos produtores, Scream Queens segue o estilo American Horror Story: a cada temporada os personagens deslocam-se para temas diferentes. A primeira teve o foco nos filmes de terror com assassinos mascarados. De acordo com as notas oficiais, a próxima temporada será num hospital psiquiátrico, espaço onde os médicos realização experiências com os pacientes.

Scream Queens – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Principais diretores: Bradley Buecker, Michael Uppendahl, Brad Falchuck e Ryan Murphy.
Roteiro: Brad Falchuck, Ian Brennan e Ryan Murphy.
Elenco: Jamie Lee Curtis, Emma Roberts, Anna Grace Barlow, Abigail Breslin, Anna Margaret, Evan Paley, Diego Boneta, Glen Powell, Jan Hoag, Jim Klock, Gleen Moore, Julian Morris, Lea Michelle, Nick Jonas, Oliver Hudson,  Keke Palmer.
Duração: 42 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.