Crítica | Scream Queens – 2ª Temporada

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estrelas 2,5

Quando Wes Craven reuniu a sua equipe técnica e os protagonistas da franquia Pânico para um quarto filme, dez anos depois do último episódio, uma frase de efeito tomou o roteiro e guiou o banho de sangue estabelecido em Woodsboro: “novo filme, novas regras”. Para conseguir ser coerente com o avanço tecnológico da sociedade, a história do psicopata que aterroriza as vítimas com uma ligação, antes do ato criminoso em si, exigia novos rumos. E assim o cineasta fez, de forma magistral.

No que tange aos meandros de produção da segunda temporada de Scream Queens, não podemos dizer a mesma coisa. Tributária da fórmula que mesclou o gênero slasher com pitadas generosas de humor, a série de Ryan Murphy conseguiu ser renovada, mesmo com o estranhamento causado na primeira incursão, um milagre destes que nós dificilmente entendemos. Mas enfim, eis a questão: Scream Queens voltou, mas não conseguiu trazer nada que já não tenhamos visto na temporada anterior.

A pergunta, à priori, paradoxal, é necessária: isso é ruim? Garanto ao leitor que não tanto. Há um momento, desde a primeira temporada, que a seriedade é um elemento que não devemos levar em questão nesta série. Abandonadas as exigências, Scream Queens consegue ser divertida em alguns pontos, com a mesma morbidez e humor politicamente incorreto de sempre. Diante da exposição, basta compreender que para adentrar no mundo por vezes nonsense da série, é preciso dominar os códigos e todas as demais simbologias, aceitando-as para que a atividade tenha fruição.

Com um modelo similar ao da temporada anterior, a série nos traz novos mistérios em meio ao sangue derramado por um (ou talvez mais) assassino (s) mascarado (s), tendo coo foco dizimar as peças centrais do novo enredo, situado em um hospital intitulado C.U.R.E., instituição que pertence a Dean Munsch (Jamie Lee Curtis), a ex-reitora que agora descobriu uma doença aparentemente incurável e decidiu usar o dinheiro que adquiriu mediante os eventos da primeira temporada para encontrar a cura para os seus problemas, bem como o de outros em situação semelhante.

Com o mesmo clima de paródia e sarro com as afetividades das celebridades, a série tem o seu desenvolvimento visual bem sucedido, no hospital situado em um local com uma história macabra: há décadas, numa festa de Halloween, uma gestante levou o seu marido para um atendimento de emergência sem sucesso, o que ocasionou a morte do homem. Jogado no pântano próximo à instituição, neste mesmo dia uma figura conhecida como “monstro verde” saiu das águas e matou várias pessoas no local.

Com cara de zona assombrada e obscura, o hospital vai ganhar mais cor e humor com a presença das estúpidas Chanel’s, afetadas garotas bobas, tipos comuns ao universo cômico de Ryan Murphy, um cara que já mostrou que é bastante versátil. Desta vez não há luxo e riqueza: humilhadas e sem um centavo de dólar, elas conseguem emprego para trabalhar no hospital. Chanel Oberlin (Emma Roberts) continua egocêntrica e histérica; a Chanel nº 03 (Billie Lourd) volta com os seus bizarros fones de ouvido, emplaca um namorico com o atraente Dr. Cassidy Cascade, interpretado por Taylor Lautner (único motivo para qualquer ser humano assistir aos filmes da saga Crepúsculo); e Chanel nº 5 (Abigail Breslin), maior alívio cômico da temporada, tamanha a jornada de sofrimento e humilhação ao longo dos dez episódios.

Contratadas para trabalhar como enfermeiras, elas conseguem acessar o local graças à boa vontade (ou às segundas intenções) do Dr. Brock Holt (John Stomos), um homem que recentemente fez um transplante de mão no hospital e está cheio de vontade de trabalhar. Ah, importante ressaltar: a mão doada foi a de um perigoso serial killer. Será que este evento vai ter algum desdobramento durante a temporada?

Como complemento, temos as ótimas Zayday Williams (Keke Palmer) e Denise Hemphill (Niecy Nash) como personagens responsáveis por dar alguma humanidade ao painel de monstros da série, além da presença dispensável de Lea Michelle, num personagem que tinha tudo para enriquecer o material, mas que no final das contas funciona mais como recurso visual. Sugestão: poderia ser trocada por uma estátua ou réplica, já que a sua imagem nos remete ao ótimo Hannibal, ícone pop de forte apelo dramatúrgico numa série deste quilate, desaproveitado pela falta de consistências do roteiro.

No geral, a temporada que prometia 15 episódios enfrentou problemas de audiência e ficou com 10 incursões suficientes no hospital CURE. As mortes são as mesmas, os personagens continuam as piadas processadas de qualquer jeito e dentro deste esquema, continuam a deixar de evoluir, o que para o espectador é o problema, pois se tornam desinteressantes. Como não faltam piadas ao eixo político (Trump) e cultural (Batman Vs. Superman), a série ganha alguns bons momentos, mas nada que não seja esquecível facilmente.

Scream Queens – 2ª Temporada — EUA, 2016
Principais diretores: Bradley Buecker, Michael Uppendahl, Brad Falchuck e Ryan Murphy.
Roteiro: Brad Falchuck, Ian Brennan e Ryan Murphy.
Elenco: Jamie Lee Curtis, Emma Roberts, Anna Grace Barlow, Abigail Breslin, Anna Margaret, Evan Paley, Diego Boneta, Glen Powell, Jan Hoag, Jim Klock, Gleen Moore, Julian Morris, Lea Michelle, Nick Jonas, Oliver Hudson,  Keke Palmer.
Duração: 42 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.