Crítica | “Secret Garden” – Angra

estrelas 4,5

Quase toda grande banda sempre passa por inúmeras mudanças durante sua carreira. O Angra é um grande exemplo disso. O grupo já passou por mudanças de bateristas, guitarristas, baixistas e teve dois vocalistas – André Matos e Edu Falaschi – amados por diferentes fãs. Depois da saída de Edu em 2012, Fabio Lione – vocalista do Rhapsody Of Fire e Vision Divine – assumiu a posição de vocalista convidado para a turnê de 20 anos de Angels Cry e, aos poucos, se tornou o novo vocalista da banda. Agora chega Secret Garden, primeiro álbum com Lione a frente da banda e após mais de 4 anos desde o último trabalho do grupo, Aqua.

O disco conceitual conta a história ficcional de Morten Vrolik, cientista que após a morte de sua amada embarca em uma jornada interna sobre tudo que acredita, tratando de filosofia, religião e auto-conhecimento. A história pode ser analisada quase como uma metáfora para a história da banda, que passou por várias mudanças em seus mais de 20 anos e até hoje tenta manter sua essência.

Tudo começa com o barulho da chuva e, em seguida, o quebrar de vidros e um choque: o acidente que levaria a morte da personagem e toda a busca de Morten. Assim abre Newborn Me, com uma letra que dita tudo que está por vir a partir dalí. A jornada de questionamentos sobre vida, morte e auto-conhecimento em uma faixa que é um soco na cara de quem criticou as últimas sonoridades da banda. As letras preenchem espaços perfeitos na canção e Lione a interpreta com intensidade. Há o instrumental pesado cheio de excelentes riffs e com direito a uma dinâmica folk fantástica em sua metade.

Em seguida, temos Black Hearted Soul, uma das faixas mais pesadas e viscerais do Angra, com um solo inspiradíssimo e veloz que te leva pra outro ambiente, prova disso é como o clima muda com o retorno do refrão. A famosa característica “power metal melódico” está mais para somente “power metal” em Secret Garden. Final Light exemplifica isso no seu riff mais pesado que o de costume pela banda, além de um Fabio Lione que parece ter se adaptado ao estilo do grupo, com uma voz bem melhor, sem agudos muito exagerados característicos do Rhapsody Of Fire. Storm Of Emotion, o single que virou videoclipe, possui refrão e tons melódicos que lembram faixas do clássico Temple Of Shadows.

É importante lembrar que o disco possui um ar de metal progressivo, isso mais devido a sua temática e a alguns arranjos exóticos, mas sem canções com longas durações ou muitas firulas. Esses arranjos mais distintos se encontram em canções como Upper Levels, que possui riffs bem dinâmicos e uma introdução com ar brasileiro. O tom perfeito na voz do vocalista lidera uma jornada interna onde tentamos nos conhecer (“What’s The Image Of You/ Exactly How Do You Picture Yourself?”).

A vocalista da banda Epica, Simone Simons, surge na canção que nomeia o álbum apresentando o “Jardim Secreto” com uma ótima letra, além da bela voz da cantora, que traz para a faixa características do metal sinfônico. A fúria e a velocidade das guitarras do antigo Angra aparecem com força total em Perfect Symmetry que deve ser considerada pelos fãs uma das melhores de Secret Garden. O álbum fecha com a (excelente) melodia acústica quase gospel de Silent Call, assim como uma letra simplesmente arrebatadora que resume a mensagem de toda obra.

Secret Garden é um álbum de metal bem redondo, em moldes que não se vê todo dia, além de um dos melhores do Angra nos últimos anos. A banda conseguiu recuperar seu valor mesmo após tempos turbulentos de mudanças. André Matos teve seu Angels Cry, Edu Falaschi seu Temple Of Shadows e agora Fabio Lione parece ter seu Secret Garden. No fim, cada um teve sua importância pra banda e todas podem ser chamadas de obras fantásticas.

Secret Garden
Artista: Angra
País: Brasil
Lançamento: 16 de janeiro de 2015
Gravadora: Universal Music (Brasil), Edel Music (EUA e Europa)
Estilo: Power Metal, Metal Progressivo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.