Crítica | Secrets From Another Place: Creating Twin Peaks

Twin Peaks secrets plano critico

estrelas 4

Spoilers da série original!

Charles de Lauzirika já fez de tudo um pouco no cinema e na televisão. Dirigiu longas e curtas-metragens; documentários e ficção; produziu filmes, escreveu, foi diretor de fotografia, assistente de direção e uma série de outros trabalhos técnicos na indústria. Seu fascínio por documentar o mundo das artes e navegar por caminhos metalinguísticos o levou a procurar David Lynch e Mark Frost para darem entrevistas em um documentário que estava realizando, sobre a produção das duas temporadas de Twin Peaks, sobre a música de Angelo Badalamenti, sobre os atores, atrizes, diretores, técnicos e temas abordados na icônica série dos anos 90.

Lynch não conseguiu espaço para dar entrevistas, mas Frost fez as honras da casa e, junto com uma grande parte do elenco original, falou sobre a manufatura de Twin Peaks, começando por seu primeiro encontro com o parceiro David Lynch e a tentativa de escreverem algumas coisas juntos (os roteiros de Goddess/Venus Descending e One Saliva Bubble são desta fase, mas nunca foram produzidos) e o convite que receberam da ABC para a produção de um Piloto, inicialmente esquecido por conta de uma greve de roteiristas e retomado pouco depois, quando os dois escritores tiveram que sentar às pressas para dar pronto um enredo e apresentá-lo em uma reunião com os chefões da rede.

Desde o início, Frost deixa claro que nem ele e nem Lynch precisavam fazer televisão naquele momento (ou mais televisão, no caso de Frost). Não era exatamente algo que eles buscavam e, por isso mesmo, exigiram completa liberdade, o que a emissora, mesmo a contragosto, concedeu. Temendo o que poderia vir, foram solicitados dois produtos: um Piloto para análise da emissora e um final fechado para a mesma história, caso o Piloto não desse certo. Se este fosse o caso, a produção seria exibida como um telefilme e o dinheiro investido pela rede não seria perdido. Anos depois, esse produto alongado seria conhecido como “versão europeia” ou “versão internacional” do Piloto original, que possui basicamente a mesma estrutura de início e desenvolvimento, com 22 minutos adicionais, compostos de uma bizarra cena de sonho e a revelação do assassino de Laura Palmar, na verdade, uma dupla demoníaca não muito harmônica formada por MIKE e BOB.

Vindo em uma época em que a televisão estadunidense não tinha muitos dramas que arrancassem o fôlego dos especadores, ou um diretor famoso e indicado ao Oscar fazendo televisão (hoje isso é mais do que comum, mas não na época), foi “fácil” para Twin Peaks ganha terreno. Os episódios da primeira temporada foram exibidos aos domingos, o que dava a oportunidade de as pessoas falarem a respeito no dia seguinte. Desde o Piloto, os números de audiência impressionaram a todos e, após a exibição do primeiro episódio, Twin Peaks se tornou um hit nacional. Ao final da 1ª Temporada, podia-se considerar um hit internacional, o que era um feito e tanto para uma série fora da curva, feita por diretores não convencionais e com uma história cheia de misticismo, profanações, violência e dramas que normalmente incomodavam (e ainda incomodam) uma grande parcela de espectadores puristas. A regra, porém, não representava Twin Peaks, pois todo mundo parecia assistir ao show e especular sobre o seu grande mistério: quem matou Laura Palmer?

Uma das coisas interessantes sobre o documentário é que as divisões por temporadas nos dá um conhecimento sólido da percepção das pessoas envolvidas e a mudança dessa visão quando falam do segundo ano do programa. Assim como eu e uma grande parte dos fãs, os atores e técnicos concordam que a revelação de Leland como assassino, possuído por BOB, foi um verdadeiro tiro no pé. Demoraria de 8 a 10 episódios (em uma temporada de 22!) para que as coisas voltassem ao normal. Todos também parecem dividir a opinião de que o ponto que tornava o show atrativo em seu primeiro ano, a ponto de diversos diretores implorarem para trabalhar no programa — sabendo que poderiam colocar suas próprias ideias nas filmagens, sem se prenderem a um modelo fixo e pouco inovador — acabou sendo minado pela enorme quantidade de atores e atrizes convidados e estranhezas sci-fi na primeira parte da temporada.

Confesso que o elemento de ficção científica foi o que menos me incomodou em Twin Peaks 2. Aliás, penso que esse tipo de gênero combina com a base da série e que foi muitíssimo bem desenvolvido nos 5 episódios finais do programa, que voltou ao grande estilo, com Lynch e Frost retornando de seus projetos pessoais no cinema e assumindo novamente o controle de produção, infelizmente, tarde demais para salvar o show do cancelamento. De todo modo, a ABC não era fã de Twin Peaks, que apresentava temas controversos e ia contra ao que a maioria da mesa diretora da casa (imensamente conservadora e que não sabia porque tinha aceitado assinar um contrato com Lynch e Frost para começo de conversa) acreditava, portanto, foi uma bênção o fracasso de metade da 2ª Temporada, pois era a oportunidade de ouro para tirar o programa do ar.

Quando falamos de arte, o efeito “envelhecer” tem um papel muito importante. Algumas obras passam muito mal por esse teste, mas outras, sobrevivem e se tornam ainda melhores na opinião do público. Twin Peaks já tinha status de cult quando foi cancelada, mas essa tag foi ano a ano aumentada pelos novos espectadores. A série nunca deixou de despertar o interesse das pessoas, mesmo tendo passado por um período fraco (mas ainda assim, bom, se comparado à maioria das coisas feitas para a TV na época e ainda hoje). Este é o segredo das boas histórias.

Twin Peaks começou e terminou muitíssimo bem. Lynch e Frost pensaram grande e conseguiram fazer com que seu programa tivesse força o bastante para resistir ao tempo e parecer bom, relevante e interessante até para uma geração de tempos líquidos, acostumada com explosões, didatismo, romance e humor menor. Séries assim só aparecem de quando em quando, mas a influência que deixam dura muito mais do que seu tempo de exibição na TV. Essa resistência à passagem dos anos no imaginário popular, é um dos elementos que todas as verdadeiras obras de arte compartilham. Twin Peaks está no meio delas.

Secrets From Another Place: Creating Twin Peaks (EUA, 2007)
Direção: Charles de Lauzirika
Roteiro: Charles de Lauzirika
Elenco: Mark Frost, David J. Latt, Johanna Ray, Sheryl Lee, Ray Wise, Kimmy Robertson, Joan Chen, Kyle MacLachlan, Gary Hershberger, Michael Horse, Piper Laurie, Catherine E. Coulson, Duwayne Dunham, Richard Hoover, Gregg Fienberg, Harley Peyton, Lesli Linka Glatter, Todd Holland, Sherilyn Fenn, Caleb Deschanel, Angelo Badalamenti, Mädchen Amick, Miguel Ferrer, Charlotte Stewart, Carel Struycken, Mary Jo Deschanel, Don S. Davis
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.