Crítica | Sede de Paixões (1949)

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Baseado em quatro contos do livro Sede (1948), da atriz e escritora sueca Birgit Tengroth — que co-adaptou e atuou no filme, no papel de Viola — Sede de Paixões mostra uma série de temas que facilmente identificamos como “bergmanianos”, mas inseridos em uma narrativa caótica, mal editada, com edição e mixagem de som risíveis e pouco espaço para os atores e atrizes (especialmente Birger Malmsten) desenvolverem seus personagens. Ainda que cheia de interessantes questionamentos existenciais, tornando o enredo mais profundo do que aparenta, a película passa por constantes dispersões e elipses narrativas desnecessárias. É quase um milagre que no final de tudo ainda tenhamos um resultado positivo.

Depois de ganhar confiança na direção e entregar um ótimo trabalho exclusivamente seu em Prisão, Bergman já dava sinais de que a investigação da alma de seus personagens e a colocação desse existencialismo no cotidiano era um dos seus interesses primários. Mesmo tendo contribuído tão pouco para roteiro final de Sede de Paixões, ele conseguiu colocar essas ideias, desde a longa conversa no café da manhã entre o casal, dentro do apartamento (o flash do momento, uma semente da Nouvelle Vague?) até a conclusão dos vários dramas pessoais de mulheres dependentes de alguma coisa, correndo atrás de uma felicidade que sempre reside no outro, por mais que abusiva, dominadora e infame seja a relação.

O que chama a atenção é que mesmo sendo um filme sobre alguns íntimos desejos femininos (o diretor voltaria a trabalhar o tema no futuro, em um longa mais azeitado e bem mais simpático chamado Sonhos de Mulheres), as personagens femininas da obra são absurdamente desagradáveis, com destaque principal para a Rut de Eva Henning. Tagarela no pior sentido que esta palavra pode ter, a personagem tem dois momentos no filme. O primeiro, bastante confuso para o espectador, que ainda não entende que a obra mostra a jovem em dois relacionamentos diferentes; e o segundo, com brigas, falas, provocações, choro, gritos e tentativas de reconciliação, várias vezes a cada par de minutos, uma coisa insuportável até mesmo como elemento de construção da personagem, que pelo exagero, perde aquilo que essas mesmas caraterísticas, se bem dosadas, poderiam trazer.

Aí então surgem o paradoxo. Porque se olharmos para a construção e parte do andamento de Sede de Paixões, veremos um filme com uma premissa interessantíssima; bons atores em cena, mas nenhum bem aproveitado; ideias interessantes (mesmo as deterministas) sobre casamento, fragilidade emocional, aborto — e o tormento que isso pode trazer para uma jovem que via na esterilidade a pior coisa que lhe poderia ter acontecido — e sonhos de vida que são simplesmente frustrados pelo tempo. E no presente caso isso, ainda temos o agravante do pós-Segunda Guerra Mundial, já que o filme se passa em 1946. Todas essas nuances e fatos são poderosos e ganham um bom emprego conceitual no filme. As inquietações, a parte psicológica, o abuso dos homens em relação às mulheres, a discussão sobre como um casamento deve ser guiado com os dois lados cedendo e deixando o ego de lado, o lesbianismo sugerido na cena das bailarinas ao final… há muita coisa acontecendo na obra e, a despeito de não haver uma representação exemplar delas, não existe uma verdadeira perde do seu real valor.

A direção de arte e fotografia são os únicos setores técnicos, fora a direção de Bergman, que se salvam. Na primeira, temos o hotel, a cabine do casal no trem e o apartamento da bailarina já aposentada como ótimas concepções de ambiente. Já a fotografia de Gunnar Fischer (que trabalhara com Bergman em Porto) ressalta a variedade de tempos e lugares da obra, tentando até localizar o espectador quando o roteiro não consegue e a edição faz uma verdadeira bagunça na passagem entre os blocos ou na cadência simples dentro de um mesmo evento. Não é de se espantar que muita gente veja Sede de Paixões com maus olhos. Claro que não se trata de um filme ruim, mas ele com certeza dá muita munição que se pense nisso.

Sede de Paixões (Törst) — Suécia, 1949
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Herbert Grevenius, Birgit Tengroth
Elenco: Eva Henning, Birger Malmsten, Birgit Tengroth, Hasse Ekman, Mimi Nelson, Bengt Eklund, Gaby Stenberg, Naima Wifstrand, Carl Andersson, Wiktor Andersson, Verner Arpe, Britta Brunius, Calle Flygare, Sven-Eric Gamble, Inga Gill, Sif Ruud
Duração: 83 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.