Crítica | Seinfeld – 4ª Temporada

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Acho que chega um ponto em toda série em que ela finalmente descobre quem é de verdade. Com Seinfeld, isso aconteceu na terceira temporada, mas seria só agora, no ano que começaria em agosto de 1992 e concluiria em maio de 1993 que essa identidade chegaria. Foi com a quarta temporada que Jerry Seinfeld e Larry David enfim puderam ser realmente dignos daquela que é uma das mais abusadas palavras do vocabulário: gênio.

A temporada já começa de maneira inesperada, e algo que os roteiristas tentariam explorar aqui: arcos de história maiores. Temos o primeiro episódio gravado quase que totalmente em externas, The Trip, que leva duas partes para explorar a busca de Jerry e George (Jason Alexander) por Kramer (Michael Richards), confundido com um serial killer em Los Angeles. É um episódio divertido e que sabe explorar muito bem o louco mundo de Hollywood e as infinitas possibilidades que Kramer poderia trazer.

Já chegando em Nova York, começaria um dos mais marcantes arcos da série, que escancararia sua metalinguagem de uma vez por todas: em The Pitch, Jerry e George têm a ideia de escrever uma sitcom sobre o “nada”, tendo personagens inspirados neles mesmos, situações de cotidianas… Enfim, praticamente tudo o que é Seinfeld; só que com o título alterado para “Jerry” e a inclusão de um mordomo empregado. É um arco que começa no terceiro episódio e só acaba no season finale da temporada, rendendo situações hilárias como a tentativa de George de usar o fato de ser roteirista de televisão para ser atrair mulheres ou a antológica cena em que os personagens precisam escalar o elenco para interpretar a eles mesmos.

Mas se você tinha medo que a série se converteria para algo mais seriado, fique tranquilo. Seinfeld e David estão no ápice de sua imaginação perturbada. Para citar alguns exemplos notáveis, The Bubble Boy consegue divertir pela simples repetição constante da palavra “bubble” (“He lives in a bubble?”, “A bubble!”, “He’s a bubble boy”), no episódio em que a turma planeja ir para o chalé do sogro de George, com a obrigatório visita a um garoto com uma doença rara que o obriga a viver em uma bolha de plástico. Em outro, as clássicas situações de desencontros se manifestam de forma divertida com The Airport e The Movie; no primeiro, Kramer e George estudam a melhor maneira de buscar Jerry e Elaine no aeroporto, enquanto os outros dois enfrentam dificuldades para embarcar em um voo de volta para casa. Já no segundo, o grupo simplesmente não consegue curtir um cinema em decorrência a uma série de pequenas desventuras. Um dos pontos altos do episódio, porém, é a introdução do clássico filme fake da série: Rochelle, Rochelle – Uma estranha jornada erótica de Milão à Minsk.

E, claro, eu deixei o melhor para o final. Temos na quarta temporada aquele que é considerado por muitos como o episódio supremo da série: o clássico The Contest. Aqui, os quatro amigos resolvem fazer uma infame aposta de abstinência de masturbação, depois que George jura nunca mais fazer o ato novamente. E a grande sacada, que revela o excepcional talento de Larry David como roteirista, é que a palavra “masturbação” não é usada uma única vez, sendo apenas sugerida através de trocadilhos como “ser mestre de seu domínio” ou “eu estava sozinho…”, revelando também uma maneira inteligente de driblar a censura. O episódio também traz excelentes “obstáculos” para tentar os personagens: Jerry namorando uma mulher virgem, Kramer tentado com uma vizinha nudista, Elaine (claro que ela está na aposta, e aposto que teria sido um tabu nos anos 90) paquerando um dos membros da família Kennedy na academia e George… Bem, George fica encantado por uma enfermeira que cuida de sua mãe no hospital. É um episódio brilhante, e que termina de uma forma amarrada e enigmática… Quem realmente ganhou a aposta? Só os mais atentos teriam a resposta. Na última temporada…

Essa situação da aposta ainda dá a deixa para uma inversão de fatores sensacional em The Outing, no qual Jerry e George são confudidos com um casal gay por uma jornalista. Não só diversos eventos de The Contest são alterados aqui, como os personagens constantemente repetem a frase “Não que tenha algo de errado com isso”, de forma a deixar bem claro que os roteiristas respeitam a comunidade gay, mesmo fazendo piada. Em outras palavras, é um deboche diretamente ao politicamente correto.

E eu não ousaria deixar este texto sem a menção ao Crazy Joe Davola, um psicopata que é brilhantemente retratado por Peter Crombie em alguns episódios. Sem um motivo claro, ele começa uma doentia obsessão por Jerry, culminando no hilário The Opera, em que o sujeito revela-se um fã devoto de Pagliacci e acaba por sair com Elaine, apenas para descobrirmos ser uma relação igualmente obsessiva:

– Joe, você me assustou!

– Ótimo. Medo é a nossa reação mais espontânea.

Em um longa de suspense, essa seria uma declaração que certamente deixaria o espectador preocupado, e até tenso. Em uma comédia assim, é apenas mais um motivo para soltar uma risada diante do absurdo da situação, já que a série realmente atinge outro nível quando nos apresenta a personagens que tem um apelo para o dramático.

A quarta temporada de Seinfeld talvez, talvez seja a melhor fase da série. Além de faturar Emmys e enfim fincar a bandeira de mestre de seu domínio, iniciaria o período em que teríamos os melhores e mais engraçados episódios. A era de ouro seinfeldiana se inicia.

Melhor: The Contest
Piorzinho:
The Old Man

Seinfeld – 4ª Temporada (EUA, 1992-93)
Criadores:
Jerry Seinfeld, Larry David
Direção: Tom Cherones
Roteiro: Jerry Seinfeld, Larry David, Peter Mehlman, Larry Charles
Elenco Principal: Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Michael Richards, Julia Louis-Dreyfus, Wayne Knight, Peter Crombie, Barney Martin, Liz Sheridan, Jerry Stiller, Estelle Harris
Duração: 22 min. (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.