Crítica | Seinfeld – 5ª Temporada

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Em 1993, Seinfeld já era o rei do pedaço. Após a quarta temporada receber nada menos que doze indicações ao Emmy e sair de lá com três troféus, incluindo o de Melhor Série de Comédia, Roteiro (por The Contest) e a primeira vitória de Michael Richards como Kramer. Agora, Larry David e Jerry Seinfeld precisavam manter o nível de qualidade do programa, ao mesmo tempo em que necessitavam de novas e engraçadas histórias sobre o niilismo cotidiano.

Ao contrário da anterior, a quinta temporada descartou a ideia de construir longos arcos. Há alguns personagens que são introduzidos aqui para voltarem depois (como Poppie, apresentado em The Pie), mas a temporada segue um fluxo de histórias isoladas. Uma escolha apropriada, já que mantém a tradição original da sitcom e permite que David, Seinfeld e o roteirista Larry Charles (uma das grandes forças por trás do Writer’s Room) possam criar o mais louco tipo de situação.

Um dos grandes ícones da temporada é definitivamente The Puffy Shirt, no qual Jerry acaba concordando sem saber – ou melhor, sem ouvir – em usar uma extravagante camisa bufante projetada pela namorada de Kramer, convencida de que a nova moda dos anos 90 seria inspirada no visual de piratas. “But I don´t wanna be a pirate” transformou-se em um dos novos jargões da série, vide a situação absurda e a rejeição infantil de Jerry diante do figurino ridículo. Não é só a pirataria, esse episódio também traz uma excelente subtrama na qual a situação financeira de George força-o a voltar para a casa de seus pais (esse sim um arco que permaneceria por algumas temporadas por vir), levando-o ao inesperado emprego de modelo de mãos. A maneira como o roteiro une uma camiseta bufante com modelo de mãos é desastrosa… Para os personagens, para o espectador é um resultado hilário e surpreendente.

A estrutura de amarrar diferentes histórias acontece durante praticamente toda a série, mas para não me alongar, prefiro resumir esses exemplos a dois episódios particularmente impecáveis. Primeiro, The Marine Biologist traz Elaine servindo como editora para o livro de um excêntrico autor russo (envolvendo uma infame piada com Tolstói e o título original de Guerra e Paz), George se passando por um biólogo marinho para impressionar uma antiga paixão do colégio e Kramer com o recém-adquirido hobby de jogar golfe na praia. Todas as improváveis subtramas se encontram no hilário terceiro ato, com Jerry sendo o elo de ligação entre as três.

A outra é um de meus preferidos de toda a série: The Pie. A trama principal já é brilhante por representar perfeitamente o “niilismo” perturbado da série, que traz Jerry obcecado em descobrir porque sua namorada recusou – de forma estranha – um delicioso pedaço de torta: não estava cheia, nem de dieta e adora doces… Qual poderia ser o motivo de tamanho mistério? Agradeço até hoje por nunca saber a resposta. Mas enfim, o episódio também traz a impagável situação em que Kramer descobre um manequim idêntico a Elaine, enquanto George tenta encontrar o terno perfeito para uma entrevista de emprego. Novamente, os artifícios utilizados para unir as diferentes narrativas é trabalho de gênio, ainda mais por repetir com precisão o gesto de rejeição da torta em três situações diferentes. No mínimo, merece ser exibido em alguma masterclass de roteiro de ficção.

Mas a sitcom também não perderia a chance de tentar repetir o feito de The Contest, o premiado episódio sobre masturbação. Agora, em uma dose menor de ambição, David e Seinfeld abordam o orgasmo feminino, ao mesmo tempo em que… Bem, falam sobre frutas frescas, sempre com metáforas afiadas e associações certeiras ; além de uma elaborada forma de se apreciar o valor da vitamina B. Deixo aqui um trecho do monólogo de stand up de Jerry, com mais uma de suas comparações geniais:

“Sabe, há dois tipos de orgasmo feminino: o real e o falso. E vou te falar agora, como homem, nós não sabemos. Não sabemos, porque para um homem, sexo é como um acidente de carro e determinar o orgasmo feminino é como se perguntassem ‘o que você viu depois que o carro perdeu o controle?, ‘eu ouvi muitos arranhados, Eu lembro que estava encarando o lado errado uma hora. No final, meu corpo estava jogado no chão!”

Um ponto alto que definitivamente não pode ser esquecido é o season finale, The Opposite. Sempre uma ideia divertida quando os produtores flertam com elementos mais “sobrenaturais”, aqui vemos George no fundo do poço de sua vida. Quando começa a tomar absolutamente o contrário de todas as decisões que normalmente faria, sua vida começa a melhorar assombrosamente. O mais engraçado é que, com isso, a vida de Elaine começa a ir ladeira abaixo em relação a namoro e carreira, enquanto Jerry se beneficia de “se neutro” – como na cena em que Elaine pega 20 dólares de Jerry e joga pela janela, apenas para que a nota surja nas mãos de George e que o comediante encontre outra nota em seu casaco.

Ultrapassando a metade de sua vida útil, Seinfeld ainda se prova uma série hilária e surpreendentemente inventiva, seja em seu método narrativo quanto de situações cotidianas. Com as novas mudanças profissionais de George e Elaine, fica lançado um gancho muito interessante para a sexta temporada.

Melhor: The Pie
Piorzinho: The Bris

Seinfeld – 5ª Temporada (EUA, 1993-94)
Criadores:
 Jerry Seinfeld, Larry David
Direção: Tom Cherones
Roteiro: Jerry Seinfeld, Larry David, Peter Mehlman, Larry Charles
Elenco Principal: Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Michael Richards, Julia Louis-Dreyfus, Wayne Knight, Peter Crombie, Barney Martin, Liz Sheridan, Jerry Stiller, Estelle Harris
Duração: 22 min. (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.