Crítica | Seinfeld – 7ª Temporada

Seinfeld_Season07

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Se por alguma circunstância bizarra e completamente hipotética eu estivesse amarrado a uma cadeira em uma armazém sujo e mal iluminado, sendo interrogado por algum tipo de sequestrador aficionado por cultura pop, e ele subitamente me apontasse um revólver e me ordenasse: “Qual a melhor temporada de Seinfeld?” eu responderia que é um empate cruel entre a 4ª temporada e a 7ª. Eu certamente sairia da tortura surreal com vida.

Exibida entre Setembro de 1995 e Maio de 1996, a sétima temporada de Seinfeld é excepcional por uma série de motivos. Não apenas pela qualidade de seus episódios, mas também pelo fato de ser o último ano de Larry David na produção criativa (seu desejo de sair já era evidente há tempos), mas também pela aposta de uma longa e inesperada trama: o casamento de George Costanza. Foi uma ideia arriscada, mas que revelou-se certeira. Em The Engagement, George reencontra a executiva da NBC Susan Ross (Heidi Swedberg) e, inspirado pelo novo relacionamento sério de Jerry, a pede em casamento repentinamente. Claro, a série nos leva a uma dicotomia na qual George no fundo não deseja se casar, algo mais do que apropriado para o neurótico alterego de Larry David. Basta observarmos o hilário desespero de Costanza ao tentar adiar a data do casamento em The Postponement, sem sombra de dúvidas um dos pontos altos da performance de Jason Alexander em toda a série.

 Entre todas as situações típicas de um casamento, e fico feliz que Seinfeld e David tenham evitado clichês como a escolha de vestidos de noiva, bandas de casamento e locais de festa (você deve ter lembrado de algumas 2 milhões de séries que apostaram no formato), preferindo manter o foco em coisas simples. E há algo mais constrangedor do que um encontro entre sogros? Em The Rye, Estelle Harris e Jerry Stiller brilham como Frank e Estelle Costanza, convidados para jantar na casa dos pais de Susan. Na tentativa de impressionar seus sogros de alta classe, Frank leva um refinado pão de centeio para sobremesa, mas o leva de volta quando o casal se esquece de servir. Isso coloca George e Jerry em uma missão secreta para comprar um novo pão e plantá-lo na casa dos Ross, a fim de evitar… Bem, más aparências. Um episódio sólido que também é favorecido pela subtrama de Kramer trabalhando como cocheiro de um cavalo flatulento (fiquem calmos, não é escatologia gratuita) ou o namoro de Elaine com um saxofonista que nos dá ainda mais pano de fundo sexual com trocadilhos espertos – agora porque o sujeito é incapaz de praticar sexo oral; “Well, since you’re there…”. Mas todos nos lembraremos para sempre da antológica cena no qual Jerry toma uma decisão instintiva para conseguir um novo pão de centeio. Como tirar doce de idoso…

Não que o noivado de George roubasse a atenção. Susan passa a tornar-se uma coadjuvante recorrente, mas ainda teríamos situações geniais aqui. Vamos começar com o pé na porta e falar sobre um dos clássicos de toda a série: The Soup Nazi. A turma descobre um local que aparentemente tem a melhor e mais barata sopa de Manhattan, mas o estabelecimento é regido por um sujeito (Larry Thomas) autoritário e cruel que logo é apelidado de o Nazista da Sopa. É um dos personagens mais icônicos da série, sendo hilário ver as diferentes interações com os integrantes do grupo (irrita-se facilmente com Elaine, demonstra um lado emocional com Kramer) e a representação do tipo de pessoa que com certeza todos nós já encontramos alguma vez na vida durante nossa jornada por comida. Vale apontar também a ótima subtrama do armoire que Elaine compra numa venda de rua, nos apresentado à dupla de ladrões afetados de John Paragon e Yul Vazquez.

Outro acerto homérico é The Gum, que novamente demonstra a habilidade dos roteiristas em unir diferentes linhas narrativas. O núcleo é a reinauguração de um cinema tradicional, pelas mãos de um dos colegas de Kramer, logo atraindo a atenção da turma e de um certo Lloyd Braun (Matt McCoy), um antigo colega de George que ficou marcado por sofrer um colapso nervoso e por um apetitoso chiclete chinês. Esse é o cenário principal, e de hot-dogs estragados até óculos perdidos, o que o roteiro de Tom Gammill & Max Pross faz é certeiro. Não nos esquecendo que esta trama fornece destaque especial para Ruth Cohen, uma figurante presente em quase todos os episódios como a caixa do café do Monk’s

Então, chegamos ao… excêntrico season finale, The Invitations. Seria o último episódio da série com o envolvimento criativo de Larry David, incubido de oferecer um desfecho para a trama do casamento: George realmente se tornaria um homem casado? A solução causou polêmica na época, mas com a poeira já há muito tempo abaixada (ou seja, spoilers aqui) todos podemos concordar que a morte de Susan foi uma saída muito esperta, principalmente pela causa: envenenamento por cola estragada de convites de casamento excessivamente baratos – comprados, claro, por George.

Foi um excelente ano para a série. Definitivamente uma das melhores temporadas, o que é dizer muito para a grande comédia americana.

Agora, Jerry Seinfeld teria a árdua tarefa de tocar o barco sozinho.

Melhor: The Soup Nazi
Piorzinho: The Bottle Deposit

Seinfeld – 7ª Temporada (EUA, 1995-96)
Criadores:
 Jerry Seinfeld, Larry David
Direção: Andy Ackerman
Roteiro: Jerry Seinfeld, Larry David, Peter Mehlman, Larry Charles
Elenco Principal: Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Michael Richards, Julia Louis-Dreyfus, Wayne Knight, Peter Crombie, Barney Martin, Liz Sheridan, Jerry Stiller, Estelle Harris
Duração: 22 min. (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.