Crítica | Seinfeld – 9ª Temporada

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estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Todas as coisas boas chegam ao fim, e a cobertura do Plano Crítico sobre a sitcom americana definitiva culmina aqui, com a 9ª temporada de Seinfeld. Novamente sem o auxílio de Larry David (ao menos, no início), Jerry Seinfeld presentearia o mundo pela última vez com seus incríveis personagens e situações bizarras, tendo se expandido no espaço entre Setembro de 1997 e Maio de 1998. O texto pode parecer melancólico, mas muito pelo contrário; esta é uma das melhores temporadas da série.

Os quatro primeiros episódios já nos revelam como a série estava indo longe em sua proposta “surrealista”. The Butter Shave nos mostrava um Kramer agora obcecado em utilizar manteiga para fazer a barba e se bronzear (levando até mesmo ao impagável desejo de Newman em… comê-lo, graças ao cheiro bom), The Voice traz Jerry encantado pela habilidade da barriga de sua namorada em produzir um som que se assemelha a um canto de baleia enquanto dorme, já The Serenity Now traz os efeitos devastadores dessa frase criada aparentemente para acalmar os nervos (isso só podia ser obra de Frank Costanza) e, por fim, The Blood é de chorar de rir ao apostar em uma série de transfusões de sangue ao longo da trama, rendendo um dos finais mais hilários da temporada.

Outros episódio absolutamente clássico é The Strike, que trouxe a revelação bombástica de que Kramer na realidade tem um emprego em uma loja de donuts, mantendo uma greve por mais de uma década. Enquanto isso, Jerry tem a situação mais surreal em termos de relacionamento, quando sua namorada atual misteriosamente troca de faces dependendo da iluminação do local, transitando entre linda para monstruosa em um piscar de olhos. Mas o grande destaque, claro, é o Festivus. O feriado anticonsumista inventado por Frank Costanza consiste na admiração de um cano de alumínio e um jantar onde todos os presentes discutem sobre como cada um os decepcionou de formas diferentes. Ah, e a demonstração de força. São diversos elementos distintos que se amarram muito bem no roteiro de Dan O’Keefe, Alec Berg e Jeff Schaffer.

Mas agora preciso falar sobre aquele que é o melhor episódio da série em minha opinião. Antes de Christopher Nolan dar um nó na cabeça dos espectadores com Amnésia e Gaspar Noé nos chocar com Irreversível, The Betrayal nos presenteou de forma brilhante com uma narrativa de trás para frente. A trama envolve a turma comparecendo a um casamento na Índia, envolvendo Jerry dormindo com a namorada de George, Elaine tentando se tornar a melhor amiga da noiva e Kramer lidando com uma ameaça misteriosa de um certo FDR. Não há um propósito temático para o uso desse mecanismo, mas é algo que garante piadas muito acima de qualquer outra série do gênero. Tome como exemplo a cena em que Kramer aparece com um palito de pirulito, apenas para que cada corte nos leve alguns minutos de volta ao passado, e o doce vai progressivamente retomando sua forma até ser desembrulhado do plástico. É uma gag visual perfeitamente eficiente e didática da narrativa do episódio, que também se beneficia de cenas enigmáticas que não fazem o menor sentido até a revelação de suas origens nos minutos derradeiros: por quê Kramer fica tão feliz em receber uma bolada de neve no rosto? O que inicia a perseguição de FDR? Qual é a da frase que George constantemente joga para Jerry, e o por qual motivo ele usa botas Timberlands o episódio inteiro? Todas as respostas valem a pena, e o episódio termina com chave de ouro ao nos levar a um inesperado flashback que procede o início da série.

E como não poderia faltar, vamos falar sobre o final. O grande finale da série. Tão poderoso que conseguiu trazer Larry David de volta uma última vez, rendendo uma narrativa de duas partes que dividiu completamente os fãs. The Finale traz Jerry, George, Elaine e Kramer sendo inesperadamente jogados em um processo jurídico, que acaba trazendo à tona todas as desventuras e ações imorais do grupo, contando com inesperadas participações de praticamente todos os coadjuvantes marcantes: a velhinha do pão, a ex-namorada com implantes e o infame Nazista da Sopa.

É mais do que uma mera conclusão para a história, é uma verdadeira homenagem à série e seus grandes momentos, quase soando como um episódio de recordações mais elaborado e estruturado dentro de uma narrativa. A decisão do júri ao final é controversa para muitos fãs, mas apenas representa toda a essência de Jerry, George, Elaine e Kramer: são pessoas politicamente incorretas, os zeros à esquerda e o humor negro existente dentro de todos nós. A solução final de Seinfeld e Larry David não apenas é inesperada e bem bolada, mas brilhante, ainda mais por espertamente oferecer uma grande rima com o primeiro episódio ao trazer de volta o diálogo de Jerry e George sobre o botão de camisa. “Já não tivemos essa conversa antes?”

Seinfeld permanece até hoje como uma fonte de humor impecável e sem igual. Sua temporada final fez jus à toda a sua irretocável trajetória na TV americana, encerrando-se pelo motivo nobre de Jerry Seinfeld ter achado este o limite de sua criatividade com o programa, recusando a oferta milionária da NBC para mais uma temporada – e até se inspirando na carreira dos Beatles, que terminou após 9 anos.

Bem, a comparação entre os dois não é nenhum absurdo, já que ambos são seminais em suas respectivas Artes.

Melhor: The Betrayal
Piorzinho:
The Wizard

Seinfeld – 9ª Temporada (EUA, 1997-98)
Criadores:
 Jerry Seinfeld, Larry David
Direção: Andy Ackerman
Roteiro: Jerry Seinfeld, Larry David, Peter Mehlman, Larry Charles
Elenco Principal: Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Michael Richards, Julia Louis-Dreyfus, Wayne Knight, Peter Crombie, Barney Martin, Liz Sheridan, Jerry Stiller, Estelle Harris
Duração: 22 min. (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.