Crítica | Seis Mulheres Para o Assassino

Seis Mulheres para o Assassino

estrelas 3

Muito antes de Jason afiar o seu facão nas numerosas incursões da franquia Sexta-Feira 13, o cineasta Mario Bava lançou o que alguns especialistas consideram como as bases do subgênero giallo: Seis Mulheres Para o Assassino, um frenético e deslumbrante horror com mortes sangrentas e bastante sensualidade.

Com roteiro assinado por Mario Bava, Giuseppe Barilla e Marcelo Fondato, o filme nos mergulha no mistério acerca do assassinato da modelo Isabella (Francisca Ungaro). Antes de encontrar violentamente a morte, a moça trabalhava no ateliê da condessa Cristina (Eva Bartok) e Max Marian (Cameron Mitchell).

É quando o inspetor Silvester (Thomas Reiner) é chamado para a investigação. Confuso diante do acúmulo de pistas que se estabelece ao longo da narrativa, o investigador terá de se esforçar para dar conta da resolução do caso (algo não muito complexo para o espectador mais atento).

Logo mais, o diário de Isabella é encontrado por Peggy (Mary Arden). Interessante observar que todos parecem interessados no material. Há, no entanto, motivações para deter os escritos da modelo. Saberemos adiante que ela era uma chantagista e que guardava segredos de todos os envolvidos cotidianamente no ateliê.

Sendo assim, de maneira épica, tamanha a grandiosidade estética do filme, acompanhamos as mortes, uma a uma, até a revelação final, elemento clássico do gênero, com o uso efetivo do que se convencionou chamar de estilo whodunit (quem matou?).  Todos são suspeitos até o momento em que morrem, pois se Isabella guardava revelações secretas de cada um, há motivações gerais para o assassinato da moça.

Esqueça os detalhes dramatúrgicos de Seis Mulheres Para o Assassino. Sabemos que sem roteiro um filme dificilmente consegue se guiar, mas no caso deste giallo seminal, o que importa e o faz sobreviver ao tempo, catapultado ao Olimpo da linguagem cinematográfica é a sua estética barroca, com elementos góticos e profusão de cores.

A câmera de Bava vagueia pelos espaços e através de um eficiente espetáculo visual, contempla cada personagem, dando ênfase aos seus respectivos comportamentos, tendo sempre como foco situá-los no espaço narrativo, através de enquadramentos que se assemelham aos mais primorosos trabalhos da história da arte ocidental.

Durante os 90 minutos, Seis Mulheres Para o Assassino nos apresenta uma história de violência excessiva (um choque para os anos 1960) mediada por uma atmosférica condução narrativa, esteticamente muito bem sucedida, mesmo que falhe nos absurdos do roteiro e nas atitudes pouco verossímeis de alguns personagens. Cabe ressaltar: poucos filmes utilizaram o vermelho de maneira tão estética e psicologicamente eficiente.

Em 1963, Bava já havia trazido o esquema whodunit para a trama de Olhos Diabólicos, mesmo ano que lançou As Três Máscaras do Medo, também conhecido como Black Sabbath, filme em três episódios em que um deles, O Telefone, flerta com os seguintes elementos: luvas de couro pretas, facas afiadas e brilhantes e bastante sensualidade, bem como o uso estético e psicológico da cor vermelha. Some o elemento narrativo (whodunit) + elementos estéticos (luvas, facas e vermelho) = giallo. Este é o resultado da equação, um estilo narrativo que ganharia a Itália nas décadas seguintes e seria trabalhado exaustivamente, tornando-se o slasher mais tarde, nos Estados Unidos.

Em suma, a trama nos oferta o que devemos considerar como as bases do terror nas décadas seguintes (1970 e 1980): um assassino em série, crimes repletos de sadismo, jovens sendo perseguidos até o encontro com a morte, geralmente criativa e absurda, além de uma trilha sonora bastante incisiva e desempenhos dramáticos questionáveis.

Seis Mulheres Para o Assassino (Sei Donne Per L’Assassino) – Itália, 1964
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Barilla, Marcelo Fondatto
Elenco: Cameron Mitchell, Eva Bartok, Thomas Reiner, Ariana Gorini, Dante DiPaolo, Mary Arden, Luciano Pingozi, Lea Lander, Massimo Righi
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.