Crítica | Sem Amor (2017)

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Depois de trabalhos aclamados pela crítica como Elena e Leviatã, o segundo chegando a concorrer a estatueta da Academia para Melhor Filme Estrangeiro, Andrey Zvyagintsev entrou no radar de muitos pela sua sensibilidade por trás das câmeras. Com Sem Amor, ele acaba aperfeiçoando seu cinema.

Com uma proposta simples, este é um daqueles filmes que pode ser melhor aproveitado sem qualquer bagagem através de trailers ou algumas sinopses que entregam mais do que o necessário. É um filme pesado e bastante pessimista que procura debater temas sobre família e, por falta de uma definição melhor e para deixar um pouco das surpresas do filme intactas, o peso de nossas ações e o efeito que causamos em quem mais amamos, seja por negligência ou pura insatisfação.

Sem Amor pode ser bem difícil de assistir para alguns, além de trazer uma atmosfera intensa e angustiante com seus personagens trágicos, tem um ritmo lento e é um daqueles filmes que toma seu tempo, aproveita cada momento de silêncio e se entrega totalmente ao vazio, estabelecendo os dois núcleos principais com cuidado, o que pode ter sido um dos motivos para este filme ser tão carregado de significados, revelando todas as peças do seu quebra-cabeça com elegância. Assim que a obra revela a sua verdadeira proposta, é evidente a mudança em tom, que não compromete o que antes foi construído.

A trama pode ser um pouco mais inerte quando tenta executar seus personagens, o que pode ser um incômodo mínimo, mas fácil de evitar para um filme que zela tanto por seu simbolismo. O foco em repetir alguns pontos da característica dos personagens torna-se repetitivo e desnecessário, mesmo quando trata nossas idiossincrasias do cotidiano, como o vício na tecnologia. Esse meu problema com os personagens é, como disse antes, mínimo, e agora posso dedicar o resto da crítica ao que realmente faz deste filme um enorme avanço na filmografia de Zvyagintsev.

Este é facilmente um dos filmes mais atraentes que já assisti e a direção de fotografia é impecável e cheia de planos bem abertos em locais que representam bem a aura de abandono e melancolia. É um espetáculo intensificado pela composição musical aterrorizante da dupla Evgueni e Sasha Galperine e a entrega dramática do elenco. O filme marca o primeiro trabalho de Matvey Novikov, o que não o impede de surpreender com o olhar desolador, mas é em Maryana Spivak onde encontramos um personagem tão genuíno e complexo que fica difícil assistir sem simpatia ou condenação. É um longa provocante que não tem medo de botar o dedo na ferida de muitas relações, seja entre pais e filhos ou aqueles que acabaram fazendo parte deste meio mesmo sem querer. Sem Amor pode ser moroso e depressivo, mas também é belíssimo e não deixa de ser uma experiência inesquecível e facilmente um dos melhores que você vai assistir esse ano.

Loveless (Nelyubov) – Russia, 2017
Direção: Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Oleg Negin, Andrey Zvyagintsev
Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Matvey Novikov, Marina Vasileva, Andris Keiss, Aleksey Fateev, Sergey Borisov, Natalya Potapova, Anna Gulyarenko
Duração: 127 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie