Crítica | Sem Escalas

estrelas 3

O cinema nunca foi legal com quem tem medo de voar.

Não é de hoje o grande número de filmes sobre desastres aéreos (fictícios ou reais) ou voos onde cobras, aranhas e outros bichos povoam as aeronaves, isso sem contar sequestros, bombas, pilotos malucos, cientistas do mal, passageiros desequilibrados… enfim, uma fauna diversa de comportamentos e birutas que podem estar sentados ao seu lado num voo qualquer. O problema é que em alguns casos – pelo menos mais na ficção do que na realidade – esses malucos colocam seus planos em ação. E o caos está feito. Esta, de modo geral, é a premissa de Sem Escalas, o novo filme de Jaume Collet-Serra.

Quem já assistiu pelo menos aos dois filmes anteriores do diretor (A Órfã e Desconhecido) sabe que ele tem a capacidade incrível de criar uma sessão permeada de tensão e suspense, com eventos marcantes espalhados por toda a trama e revelações instigantes a cada bloco de sequências. Esse modelo também pode ser visto em Sem Escalas, mas com um fator de novidade, porque trata-se de um filme com praticamente uma única locação e um perigo mortal em jogo, anunciado logo no início do filme.

Falaremos melhor das motivações dos vilões e o por quê ajudam a diminuir a qualidade geral da fita, mas por hora, vamos nos centrar em outros aspectos do filme.

O roteiro, escrito a seis mãos, não perde tempo com contextos demorados e motivações psicológicas. Não precisamos de cinco minutos para entender quem é o Agente Federal Bill Marks, personagem interpretado de maneira bastante aceitável por Liam Neeson. Somos inseridos na história ao mesmo tempo que ele, e, nesse início, temos os reflexos comprometidos, resultado do consumo de álcool por parte do protagonista, antes de sua chegada ao aeroporto. E é com lentes desfocadas que temos vislumbres das pessoas no saguão de embarque, futuros passageiros na viagem da qual também faremos parte.

Dessa apresentação estilizada até o momento em que a ameaça se inicia, a direção de Collet-Serra é louvável. Contando com uma boa equipe técnica (especialmente a montagem de Jim May, eficiente do começo ao fim), o diretor apresenta todo o contexto do mistério e do suspense numa boa variedade de ritmos internos, fazendo com que cada passageiro pareça suspeito, mas não de forma gratuita. A câmera investiga e observa ao mesmo tempo, captando olhares, posturas, manias e comportamentos individuais para depois confundir o público no velho jogo de “quem é o arquiteto de tudo isso?”.

Quando o primeiro assassinato acontece, nossa expectativa para com o filme aumenta grandiosamente. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. Eu não esperava absolutamente nada da obra, mas o modo como as coisas foram sendo encadeadas nessa primeira fase realmente me chamou atenção. E a inteligentíssima isca usada pelo vilão para a execução do primeiro passageiro fez com que as esperanças de que este seria um um filme fenomenal aparecessem. O que foi um grande erro do meu termômetro cinéfilo, porque, embora a história não caia num abismo de desinteresse, todo o virtuosismo da apresentação vai aos poucos se dissipando. A emoção ainda existe – e aos montes -, a tensão jamais deixa a tela (exceto na última cena, quando as coisas já estão resolvidas), mas a qualidade simplesmente não é a mesma.

É aí que entram as motivações dos vilões do filme. Talvez por virem rápido demais à tona ou por serem mal explicadas, tudo parece muito artificial na revelação. Existe uma desaceleração momentânea cujo o impacto só é recobrado pela bem realizada sequência do pouso forçado. Levando em consideração que o objetivo do filme era nos fornecer esse tipo de entretenimento, devo dizer que essas surpresas e sequências de suar as mãos realmente valem a pena. Mas a coisa toda desbota quando entendemos o verdadeiro motivo que fez tudo acontecer. E pior: quando vemos o rumo de rápida recuperação dos passageiros e abertura para a aproximação romântica na última cena. Eis aí algo do qual não precisávamos nem ter indicação na tela. A sugestão de um possível relacionamento entre Bill e Jen deveria ter ficado nas cenas do avião.

Para um filme do qual não esperávamos muita coisa, é impressionante o quanto Sem Escalas nos divertiu. Mas o custo pago em certos momentos do filme chega a ser alto demais. Num cômputo geral, vale bastante a pena encarar a sessão. Mas que se vá ao cinema de sobreaviso… Não se pode ter tudo.

Sem Escalas (Non-Stop) – EUA / França, 2014
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: John W. Richardson, Christopher Roach, Ryan Engle
Elenco: Liam Neeson, Julianne Moore, Scoot McNairy, Michelle Dockery Nate Parker, Corey Stoll, Lupita Nyong’o, Omar Metwally, Jason Butler Harner, Linus Roache, Shea Whigham, Anson Mount
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.