Crítica | Sem Essa, Aranha

Em uma cena singular de Sem Essa, Aranha, o cineasta Rogério Sganzerla capta a fala de um personagem que reflete a década de 1970, mas parece uma análise do Brasil contemporâneo: “vender a alma ao demônio, essa é a saída do brasileiro por enquanto”. Em tempos de crise, o exagero, o grito de socorro e o caos tornam a produção um reflexo do que vivemos na atualidade: um país longe de resolver os seus dilemas sociais, tais como a miséria, a fome, a criminalidade e as desigualdades sociais, principalmente diante do cenário de um Estado corrompido e articulado para defender apenas pequenos interesses.

Esse trecho é apenas a ponta do iceberg de contradições que ainda vivemos, complementada pela afirmação de Luiz Gonzaga em outra cena peculiar. Personagem do filme, o músico olha para a câmera em determinado momento e diz “não sei se vocês perceberam, mas estamos vivendo um anti-Brasil, não sabemos o que vai ser nem onde vamos parar”. Quer algo mais atual que isso? “É Tudo Brasil”, tal como o título do documentário de Sganzerla, produção posterior do cineasta.

Em seu terceiro longa-metragem, Sganzerla demonstra as suas influências culturais, tendo na figura de Glauber Rocha a busca por “imagem e semelhança”. As tensões e abordagens críticas do cineasta de Deus e o Diabo na Terra do Sol estão presentes na produção de Sganzerla, realizador que busca acrescentar uma dose a mais de caos para exprimir o seu ponto de vista sobre as coisas. Sganzerla já havia experimentado a bilheteria positiva com O Bandido da Luz Vermelha, prova cabal da sua essência popular. Em Sem Essa, Aranha há requisitos que o tornam, tal como Limite, de Mario Peixoto, salvas as devidas proporções, um dos filmes-mito do cinema brasileiro: em ambos há a renegação dos que constroem a história oficial, a ojeriza da crítica e o nebuloso contexto de surgimento, o que alça ambas as produções ao patamar de “mitológicas”.

Montado por Júlio Bressane, a “narrativa” não busca contar uma história linear, mas podemos depreender alguns pontos específicos. Basicamente é a trajetória de Aranha (Jorge Loredo), um banqueiro em contato com as suas três mulheres (Aparecida, Helena Ignez e Maria Gladys). Entre diversos pedacinhos do Rio de Janeiro e uma passagem pelo Paraguai, a produção retrata o caos dos transeuntes enquanto delineia alguns pontos de Aranha e de seus relacionamentos sociais, numa terra onde as pessoas alegam que “sempre tiveram a impressão que o diabo ia com a cara delas”. Um dos marcos da Belair, produtora criada por Sganzerla em parceria com Helena Ignez e Júlio Bressane, Sem Essa, Aranha é um exemplar sinônimo de transgressão audiovisual.

Sabemos que todo filme é capaz de registrar o momento histórico no qual se insere. Com Sem Essa, Aranha não é diferente, mas há algo na produção que a torna capaz de expressar o seu contexto de maneira mais visceral. O registro desta época se traduz nas imagens do filme, através de seu esquema de produção clandestino, caótico, guerrilheiro e armado por um discurso feroz de revolta. É um cinema anárquico, onde o cinema experimental entra em choque com a indústria, num conflito entre a elite e os esfomeados, numa “narrativa” que também tem na profanação de símbolos religiosos um recurso para tecer a sua crítica social.

No que fiz aos aspectos estéticos, o filme é uma revolução. Deveríamos, inclusive, tratar da sua antiestética. Sganzerla cria a sua “aberração”, a “besta” cinematográfica desobedecendo aos ditames da gramática do cinema. Longe da perfeição, elabora a sua crítica ao Brasil dos anos 1970 com acidez não apenas no que diz, mas como as coisas são ditas com a sua câmera em muitos momentos na mão, repleto de ideias na cabeça. É uma nação hipocritamente vivendo o ufanismo numa era de domínio militar angustiante. Em cada frame, o cineasta escancara o que os brasileiros das classes privilegiadas não queriam sequer saber: a fome, a miséria, a sujeira, o Brasil longe dos cartões-postais vendidos para os alienados. Circulam pelo filme alguns tipos específicos: figurantes e coadjuvantes e seus improvisos, com imagens insubordinadas ao clássico esquema comercial.

Filmada numa nação que vivia sob a rédea curta do regime militar, a produção espelha não apenas a sua equipe de produção em alguns momentos metalinguísticos, mas também as fragilidades de um espaço territorial com todas as suas contradições. Inspirador, Sem Essa, Aranha deu ao singular Caetano Veloso uma das suas canções mais famosas: Qualquer coisa. Ciente do filme que referencia, o compositor capta bem a essência de Sganzerla. “Berro pelo aterro/pelo desterro/ Berro por seu berro/pelo seu erro”. Ao longo de seus 102 minutos, a história do banqueiro aventureiro e caricato é um caldeirão de referências ao Brasil, um verdadeiro “berro cinematográfico”, tipo de manifestação singularmente ecoada em nossa história cultural.

Sem Essa, Aranha — Brasil, 1970
Direção: Rogério Sganzerla 
Roteiro: Rogério Sganzerla
Elenco: Jorge Loredo, Aparecida, Moreira da Silva, Luiz Gonzaga, Guará Rodrigues,  Maria Gladys, Neville de Almeida
Duração: 102 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.