Crítica | Sem Evidências

 

estrelas 2

Poucas vezes a tradução de um título na versão brasileira chega a agradar, transmitindo não só sobre o que a obra se trata, como seu próprio tom. Sem Evidências é uma dessas exceções, conseguindo trazer, ao espectador já tendo assistido o longa-metragem, toda o desgaste emocional proporcionado pelo filme. Baseando-se em fatos, mais especificamente no livro investigativo, Devil’s Knot: The True Story of the West Memphis Three, Atom Egoyan revisita esse controverso caso de assassinato, já abordado por outras produções, como o documentário West of Memphis.

Atendo-se à premissa e própria narrativa de seu material de origem, Sem Evidências acompanha a investigação e julgamento do assassinato de três crianças em uma pequena cidade. A comunidade local prontamente acusa três jovens, conhecidos por seu interesse no ocultismo, utilizando mais preconceito que, efetivamente, evidências para suportar o caso. Temendo uma possível injustiça, que levaria a uma pena de morte, o investigador Ron Lax (Colin Firth) oferece ajudar os advogados de defesa.

Os problemas de Sem Evidências começam a se apresentar desde cedo na projeção, trazendo um estranho desconforto ao espectador enquanto este assiste uma obra que não ousa se distanciar do livro ou mesmo nos fatos nos quais foi baseado. Estamos diante de algo que funciona como lembrete de como a justiça pode ser falha e não necessariamente como produto audiovisual. Tornando clara esta limitação, auto-imposta pelo roteiro de Paul Harris Boardman e Scott Derrickson, está a montagem de Susan Shipton, que cria uma estrutura praticamente capitular na obra. Vemos a oscilação entre diferentes focos narrativos: Ron Lax, a polícia e a mãe de um dos meninos, Pam Hobbs (Reese Witherspoon). O problema destas constantes mudanças de perspectiva, contudo, gera um grande problema de imersão, ao confundir o espectador constantemente sobre a temporalidade dos eventos e inserindo uma overdose de informações a cada sequência, fazendo-nos perguntar qual personagem é qual.

O produto de tal deslize é o pouco entendimento que temos do caso como um todo, ao passo que não nos é transmitido com clareza quais são as peças deste complexo tabuleiro. Mesmo os nomes das vítimas e suspeitos nos são jogados de imediato, sem cerimônias, sem fixar em nossas mentes quem eles são efetivamente, tornando-nos praticamente apáticos a todo o procedimento legal. Neste ponto entramos na salvação da obra, personificada por Colin Firth, que, como de costume, realiza seu papel com precisão, roubando as cenas. Devo, aqui, tecer elogios pela sua interpretação sulista, contando com um discreto sotaque que até nos fazem esquecer que estamos diante de um ator britânico. Através de Firth, a incredulidade de Ron Lax ganha vida, cativando a audiência que, rapidamente, se identifica com o investigador.

Por outro lado, ao entrarmos no mérito da retratação de Pam Hobbs por Reese Witherspoon, chegamos a cenas demasiado exageradas, que imploram pela simpatia do público, funcionando somente para afastá-lo. O deslize, contudo, é da direção que opta por retratar de tal forma a mãe de uma das vítimas e do próprio roteiro, que, facilmente, poderia nos mostrar sequências mais curtas e em menor frequência deste impacto sobre a família, algo feito similarmente na ótima série Broadchurch, que também envolve o assassinato de uma criança.

Com claras intenções de obter um impacto maior, Sem Evidências consegue entreter as audiências, mas sem marcá-las. É um filme preso à fidelidade de adaptação, que tira a possibilidade de criatividade da equipe. Tal característica se mantém durante toda a projeção, alcançando seu ápice no anti-clímax exibido nos minutos finais, que encerra a narrativa de forma apressada e sem cativar o espectador, fazendo pouco uso do forte personagem (Ron Lax) que construiu. Mais uma vez nos vemos diante de uma obra cujo desfecho se resume a algumas palavras exibidas após as últimas cenas. O desgaste emocional está presente pro sabermos que este é um acontecimento real, mas fica em nossa mente o potencial com o qual a obra poderia tê-lo abordado.

Sem Evidências (Devil’s KnotEUA, 2013)
Direção: Atom Egoyan
Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrickson (baseado no livro de Mara Leveritt)
Elenco: Reese Witherspoon, Colin Firth, Alessandro Nivola, James Hamrick, Seth Meriwether, Kristopher Higgins, Amy Ryan, Robert Baker, Collette Wolfe, Rex Linn, Bruce Greenwood.
Duração: 114 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.