Crítica | Sem Reservas

Hollywood é uma máquina de refilmagens. Sem Reservas é um dos produtos deste processo de reprodução de narrativas estrangeiras. Adaptação do alemão Simplesmente Martha, a comédia romântica dirigida por Scott Hicks é cheia de boas intenções e nos apresenta dois lados do perfeccionismo na culinária: o positivo, quando os pratos servidos tornam-se obras de arte para o público apreciador, bem como o negativo, quando a profissional interpretada por Catherine Zeta-Jones perde a mão e deixa a sua vida pessoal ser influenciada pelo controle abusivo que a mesma exerce em sua própria vida.

O nosso texto, entretanto, pretende focar apenas no lado bom do processo. Com roteiro assinado por Carol Funchs, Sem Reservas nos mostra o cotidiano da renomada chef Kate Amstrong (Zeta-Jones), uma mulher obstinada, exemplo de sucesso profissional em Manhattan. O perfeccionismo característico da sua cozinha é uma metáfora para a sua vida pessoal, vivida sem intensidade e conduzida através do autocontrole e de uma seriedade pouco comum.

Certo dia, as coisas mudam bruscamente em sua vida: a sua irmã morre em um acidente de carro e por conta disso, deixa a pequena Zoe (Abigail Breslin) órfã. O desafio da vez será cuidar da menina, além de ter que controlar o humor com a chegada do sorridente e carismático Nicholas Palmer (Aaron Eckhart), chef auxiliar que consegue dar conta de demandas que Kate não sabe sequer por onde começar: ele conquista a complicada sobrinha, para logo mais, tocar o coração da chef durona. Um doce para quem adivinhar o que acontecerá depois disso…

Desafiada, Kate se vê apaixonada e precisará trabalhar o seu humor e comportamento se quiser manter o bom moço como parte integrante da sua nova vida. Um dos principais obstáculos é driblar o seu perfeccionismo patológico. Os pratos são lindos e saborosos, o sucesso profissional é digno de inveja, mas falta o momento “carpe diem” em seu cotidiano. Esta é uma das mensagens desta comédia romântica que busca ser edificante, mesmo com seu resultado mediano no que diz respeito aos elementos narrativos.

Quem conduz a trilha sonora é o sempre eficiente Phillip Glass, adornando até as cenas menos profundas com a sua condução musical densa. O cineasta Scott Hicks prolonga demais algumas situações e o roteiro não trabalha os personagens de maneira cativante, o que dificulta a aproximação do espectador, mas de maneira geral, o filme consegue contemplar a sua proposta central, tendo a gastronomia como espaço para a circulação das metáforas sobre as possibilidades de enxergar a beleza em circunstâncias simples e cotidianas.

Segundo o chef Alex Atala, “a função do profissional de cozinha é fazer com que as pessoas compartilhem dos prazeres da mesa”, afinal, “comer é socializar”. Em cada receita há uma série de mensagens subliminares, reforça o profissional. Kate e Martha, versão estadunidense e versão alemã, sabem exatamente como temperar a vida das pessoas que se alimentam se seus suntuosos pratos e promovem a socialização comum ao meio gastronômico, entretanto, o que ambas não sabem é como dar o devido gosto as suas existências, tampouco tornar as suas vidas sociáveis, lições que aprenderão ao passo que os filmes avançam.

Sem Reservas (No Reservations/Estados Unidos, 2007)
Direção: Scott Hicks
Roteiro: Carol Fuchs, Sandra Nettelbeck
Elenco: Aaron Eckhart, Abigail Breslin, Catherine Zeta-Jones, Jenny Wade, Lily Rabe, Patricia Clarks
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.