Crítica | Senhor das Estrelas [Histórias solo] – Parte 1

Líder da versão atual dos Guardiões da Galáxia, Peter Jason Quill, o Senhor das Estrelas (Star-Lord), foi criado em 1976 por Steve Englehart e Steve Gan em uma publicação em preto e branco, em formato de revista. Logo na aparição seguinte do personagem, ele mudaria de mãos e seria escrito pelo lendário Chris Claremont, com desenhos de John Byrne, que já faria o primeiro retcon no personagem.

Mas o Senhor das Estrelas ainda passaria por muitas outras modificações ao longo dos anos, até reentrar definitivamente no Universo Marvel por intermédio das sagas Aniquilação e Aniquilação: A Conquista.

As críticas abaixo são das primeiras aparições solo do Senhor das Estrelas, ainda em versão completamente diferente da atual.

Marvel Preview #4
(janeiro de 1976)
roteiro: Steve Englehart
arte: Steve Gan

estrelas 3

marvel preview_vol_1_4O próprio Steve Englehart nunca escondeu o fato de que, quando foi chamado para escrever um novo personagem cósmico para a Marvel, ele se inspirou no seu então nascente interesse pela astrologia (não confundir com a ciência astronomia). Apesar de elementos astrológicos realmente existirem na narrativa, eles apenas se desenvolveriam nas edições seguintes, mas o personagem passou para Chris Claremont, que deu novo viés a ele.

De toda forma, a origem do Senhor das Estrelas é, no mínimo, muito intrigante e a razão para essa conclusão é muito simples: ele é um daqueles personagens Marvel que quase não se parecem com um personagem Marvel, pelo menos não um que um dia tivesse a chance de se tornar mainstream. Englehart não mede palavras e nos apresenta a uma origem trágica e uma evolução de Peter Quill que nos faz detestar o personagem.

Vamos a ela.

Nos momentos iniciais, testemunhamos o nascimento de Peter Quill, filho de Meredith Quill. No entanto, seu pai, aparentemente insano, o retira do colo da mãe segundos após o nascimento afirmando que a criança não seria filho dele e parte para levar Peter para o mato onde pretende mata-lo. Mas seu pai, então, tem um ataque cardíaco e morre, deixando o bebê por uma hora olhando as estrelas (vejam o lado astrológico aí, como uma espécie de criança predestinada) até ser resgatado pela mãe.

Peter cresce, mas sua mãe mudou muito depois dos traumáticos eventos do nascimento e mais parece em perpétuo estado catatônico, ainda que cuide do jovem. Mas sua vida já complicada ficar pior ainda quando Peter testemunha a chegada de uma nave espacial com seres espaciais lagartóides. Ele chama sua mãe correndo, somente para os monstros a matarem. Peter, então, jura vingança vendo a nave desaparecer no espaço.

peter quill first

Primeira aparição de Peter Quill como Senhor das Estrelas. O senhor com barba é o Mestre do Sol (ou Deus, depende de sua interpretação).

O tempo passa e vemos Peter estudando para se tornar astronauta. Ele é obsessivo e se afasta completamente do convívio social, tornando-se um ser intragável e antipático. Ele só quer saber de ser o melhor astronauta para ter a chance, um dia, de se vingar do assassinato de sua mãe. A partir daí, vemos Quill bem sucedido em seus estudos, mas seu lado antissocial o impede de viajar pelas estrelas, deixando-o transtornado. Outra oportunidade surge e, com muito esforço pessoal para se socializar mais, Quill é enviado para uma estação espacial onde ele e seus colegas testemunham a misteriosa aparição de um ser flutuando no espaço dizendo que se chamava Senhor das Estrelas e que ele precisaria de um sucessor entre os humanos.

Quill não é escolhido entre seus pares, o que novamente o deixa transtornado, ao ponto de invadir a base espacial e no mínimo ferir gravemente seus colegas. Com isso, ele acaba fugindo e sendo colhido pelo Mestre do Sol, um senhor misterioso que parece com a imagem que temos de Deus, que finalmente lhe entrega o poder do Senhor das Estrelas e lhe permite, em ambiente simulado e virtual, obter sua tão desejada vingança. Seus poderes, porém, são extensos, com capacidade de voar, superforça, resistência aos rigores do espaço sem roupa espacial, além de uma arma que controla os quatro elementos e que só é limitada pela imaginação de seu usuário.

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Primeira aparição de “um” Senhor das Estrelas, ainda sem Peter Quill no uniforme.

Como se pode ver, Quill nasce com uma alma torturada e só vê redenção quando chega às estrelas, mas ele lá chega da pior forma possível. Não há como simpatizar com a tragédia do personagem, pois ele não cresce positivamente, mas sim de maneira destruidora e pesada. É isso que torna Peter Quill, o Senhor das Estrelas, o herói Marvel menos “Marvel” que existe.

Isso, pelo menos, até Chris Claremont embarcar no projeto, claro.

Em termos de arte, o trabalho de Steve Zan é lindo. Sim, estou generalizando e sendo pouco técnico, mas é verdade. Seu traços são esguios, com muito movimento e seu rostos são detalhados, com cada personagem ganhando muita personalidade, especialmente, claro, Peter Quill. E Zan ainda consegue uma bela transição de quadros, não se contentando com passagens burocráticas e muitas vezes lembrando – de longe, vale afirmar – as transições fluidas do mestre Will Eisner.

Marvel Preview #11
(junho de 1977)
roteiro: Chris Claremont
arte: John Byrne

estrelas 4

marvel preview 11 finalUm ano e meio depois de sua primeira – e até então única – aparição editorial, o Senhor das Estrelas volta às páginas da revista Marvel Preview tomando, dessa vez, toda a publicação. Em aparência, ele ainda é o mesmo. Roupa azul com detalhes brancos, luvas e botas amarelas, um capacete com visor bem característico e uma poderosa arma que controla os quatro elementos.

No entanto, Chris Claremont está no leme, acompanhado de John Byrne nos desenhos e de também de Terry Austin, ou seja é a primeira vez que uma das trincas mais famosas dos quadrinhos – e que viria a literalmente recriar os X-Men – se juntava. Além disso, essa publicação marca a primeira vez que o Senhor das Estrelas sofre grandes modificações em sua personalidade e em seu passado, em um processo que o tornaria mais palatável para integrar de verdade o Universo Marvel de super-heróis.

De maneira muito inteligente, Claremont inicia seu épico no planeta Windhölme. Houve uma invasão muito recentemente, com a população sendo dizimada e os sobreviventes sendo levados do planeta para o comércio de escravos. O foco é em Kip, um jovem revoltoso entre os capturados que logo se une a Sandy, de outro grupo capturado anteriormente.

peter quill first 2

Senhor das Estrelas e “Nave”, na primeira página de Marvel Preview #11

Os dois iniciam o embrião de uma rebelião quando chega o Senhor das Estrelas em sua nave consciente chamada simplesmente de “Nave” (Ship, no original). Essa já é a primeira grande modificação de Claremont. No lugar de fazer o Senhor das Estrelas voar pelo espaço por si próprio, como Englehart fizera, Claremont empresta um ar mais de ficção científica à narrativa criando “Nave” para fazer companhia ao Senhor das Estrelas e tornando mais crível suas viagens espaciais. E, em uma jogada muito interessante, ele ainda faz com que “Nave” e o Senhor das Estrelam compartilhem uma ligação simbiótica, com um sentindo o que o outro sente, além de uma ligação, digamos, “amorosa” entre eles.

É claro que, depois de resgatar os escravos e deixa-los em Windhölme, Kip e Sandy vão com o Senhor das Estrelas para descobrir quem é o responsável pelo massacre de vários planetas para o recolhimento de força escrava. A investigação cósmica, ajudada pela consciência extra-sensorial de Kip, acaba levando o grupo até Sparta, onde eles descobrem que há um plano do tio do Imperador Jason para derrubar o governo.

E, coincidências das coincidências, depois de um desenrolar com muita ação, descobrimos que foi esse tio quem mandou matar Meredith Quill na Terra, pois ela seria a mãe do verdadeiro herdeiro do imperador. Ou seja, Claremont refaz toda a história pregressa de Peter Quill, revelando que quem parecia ser seu pai era apenas seu padrasto (pois heróis, aparentemente, não podem ter pais homicidas) e que Jason de Sparta é que teria caído na Terra e se apaixonado por Meredith, deixando-a grávida quando tem que voltar para seu planeta.

Com isso, não só o passado de Peter Quill ganha um verniz heroico e romântico como ele também consegue, finalmente, sua verdadeira vingança, ao ter a oportunidade de matar tanto seu tio, que ordenou o assassinato de sua mãe, como do lagarto antropomorfizado que efetivamente a matou, Rruothk’ar, o sith-lord da Confederação de Ariguan.

Ah, antes que alguém tenha um treco lendo a frase acima, é isso mesmo: trata-se da primeira vez que a expressão “sith-lord” (com hífen, nesse caso) é usada, bem antes dela aparecer pela primeira vez na novelização de Star Wars: Episode IV (a expressão “sith”, sozinha, aparecera bem antes, como uma espécie de inseto marciano nas crônicas marcianas de Edgar Rice Burroughs). Que tal essa, hein, meus caros leitores?

mosaico star-lord 1

(1) Kip e Sandy tendo uma conversa com Senhor das Estrelas e um avatar de “Nave”. (2) Senhor das Estrelas se vingando do assassinato de sua mãe.

Bem voltando à narrativa de Claremont, apesar dele fazer das tripas coração para embelezar o passado do Senhor das Estrelas, o fato é que tudo é coincidente demais, conveniente demais para não soar forçado. Entre todos os planetas do universo que ele poderia salvar, ele tem que se envolver com um que o leva diretamente a seu pai perdido? O autor exige um pouco demais da suspensão da descrença de seus leitores.

Mesmo assim, seu épico funciona em grande parte como uma boa releitura do Senhor das Estrelas, ainda que essa releitura retire do personagem aquilo que o diferenciava completamente dos demais heróis Marvel. É o começo do caminho para o Senhor das Estrelas que conheceríamos como líder dos Guardiões da Galáxia.

A arte de John Byrne é, sem sombras de dúvidas, uma obra de arte à parte. Se Steve Zan já havia feito um bom trabalho na primeira origem do Senhor das Estrelas, Byrne eleva o trabalho à décima potência e apresenta uma arte irrepreensível, com traços fluidos, bela utilização da progressão de quadros em contraponto a splash pages, além de um cuidado extremo com detalhes que vão desde o rosto e roupas dos personagens, até a recriação completa de mundos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.