Crítica | Senhor Destino: Histórias de Origem (1940 – 1978)

O Senhor Destino (Doctor Fate, no original) apareceu pela primeira vez nos quadrinhos na edição #55 da revista More Fun Comics, em maio de 1940. Criado por Gardner FoxHoward Sherman, o herói era manifestado em Kent Nelson, que ao lado de sua companheira (e futura esposa) Inza Cramer, lutava contra as ameaças mágicas e alienígenas que atingiam a Terra. A história de origem do personagem só foi ser publicada um ano depois de sua estreia, na More Fun Comics #67.

Na época de publicação das tramas com o Senhor Destino, a MFC tinha como principal personagem O Espectro, destaque depois assumido pelo Arqueiro Verde, que dominavam praticamente todas as capas da revista. A última aparição de Destino nesta publicação aconteceu na edição #98, de julho de 1944. Durante este período, o personagem também aparecia na All Star Comics, revista onde surgiu a Sociedade da Justiça, da qual o Senhor Destino foi um dos membros fundadores. Em 1942 ele se tornou um físico e se alistou no Exército para lutar na Segunda Guerra Mundial. Em 1944, voltou para a SJA e se tornou arqueólogo, seguindo os passos do pai.

Curiosidades deste período de origens do Senhor Destino além das abordadas dentro das críticas abaixo.

  • MFC #63 (1941): Destino usa as luvas pela primeira vez;
  • MFC #66 (1941): Destino tira o elmo pela primeira vez e estabelece que é humano. Antes desse ponto, a revista apresentava o personagem como “não humano… alguém que não teve juventude, que foi criado pelos antigos deuses e colocado na Terra para lutar contra a magia do mal.“;
  • MFC #69 (1941): Primeira aparição de Ian Karkull;
  • MFC #72 (1941): Destino aparece com meio-elmo pela primeira vez. Nenhuma explicação é dada para isso. Décadas depois foi estabelecido que Kent Nelson fez isso para diminuir o controle e a possessividade de Nabu em relação a ele;
  • MFC #73 (1941): Primeira aparição de Miste Who. Kent indica que sua relação com Nabu mudou, mas seus poderes continuam os mesmos

Este compilado traz as cinco primeiras histórias do personagem mais a sua origem na Era de Ouro. Depois, mais duas críticas para as tramas de origem do Senhor Destino escritas nos anos 1970, uma por Martin Pasko e outra por Paul Levitz.

.

More Fun Comics #55: The Menace of Wotan

estrelas 3

plano critico senhor destino primeira capa doctor fate dr.

A primeira página da primeira história do Senhor Destino.

Quando a gente lê uma história da Era de Ouro, é importante nos despirmos de toda a pompa e circunstância dos quadrinhos às quais estamos acostumados. As tramas desta época são mais cruas, a narrativa dura, essencialmente medíocre (no sentido original da palavra), com ações que aconteciam do nada e pareciam mudar milagrosamente de um painel para o outro. Eu sempre rio quando tenho uma história dessas em mãos, e nessa estreia de um dos meus personagens obscuros favoritos da DC, o Senhor Destino (o original, incorporado por Kent Nelson), não foi diferente.

Criado por Gardner Fox e Howard Sherman, o Senhor Destino aparece aqui lutando contra Wotan, um mago poderoso e com aquela sempre charmosa mania de querer conquistar o mundo, narrando de maneira patética as suas intenções e agindo de maneira indireta, como todo bom vilão desse nível, para conseguir o que quer. Para atingir o Senhor Destino, Wotan tenta matar Inza Cramer, que é amiga ou parceira ou conhecida ou flerte ou algo do tipo… de Kent Nelson (ela seria namorada e esposa no futuro, mas nessa fase inicial das aventuras do Doctor Fate, ela está mais para fantoche de luxo do que qualquer outra coisa).

Esta primeira história não é uma história de origem. E ela é bastante curta, pois era apenas um dos contos que a revista More Fun Comics trazia. A coisa mais próxima de “origem” que temos aqui é a narração que fala de “antigos mistérios que foram parcialmente destruídos quando César queimou a Biblioteca de Alexandria” (só para lembrar que esta é apenas uma das versões sobre a destruição dessa Biblioteca, no caso, durante a Guerra Civil no período de César, guerra que foi de 49 a 45 a.C., sendo o desastre da Biblioteca localizado no cerco de Alexandria, no ano de 47 a.C.), mas não há nada que explique os poderes ou como tudo começou para o Senhor Destino.

O que chama a atenção desde cedo é o uniforme do personagem, um dos mais legais, não só da DC, mas de todo o Universo de super-heróis. As cores amarelo e azul e o excelente formato do elmo demandam atenção imediata, tornando o Senhor Destino um personagem imponente, não necessariamente ameaçador, mas isso também não está fora de questão, dependendo do ponto de vista. O curioso aqui é que Inza torna-se sempre a garota em perigo, que o tempo inteiro pede ajuda para o Senhor Destino e perece deslumbrada a cada ação ou demonstração de poder dele, mas há uma curiosa e perceptível necessidade de que eles fiquem juntos. Nas eras seguintes do herói isso seria explicado, todavia, é interessante notar como esta é uma característica já lançada nas primeiras narrativas do personagem.

O final dessa história me arrancou uma enorme gargalhada, porque o Senhor Destino, depois de um belo soco em Wotan, pega o mago e o joga pela janela, do alto de um prédio! Isso mesmo! Inza até faz umas perguntas estúpidas sobre, mas Fate dá a entender que aquilo era uma “coisa comum entre magos” e que Wotan poderia (!) estar vivo. A edição seguinte usaria dessa deixa para continuar a saga, e o narrador, sem cerimônias, recapitula a história justamente deste ponto.

.

More Fun Comics #56: The Search for Wotan

estrelas 3

plano critico quem e o senhor destino

A primeira “definição completa” de quem é o Senhor Destino, ainda na sua primeira primeira história.

Nesta busca por Wotan, o Senhor Destino e Inza vão até o “mundo subterrâneo” e tentam falar com um Ser de Sabedoria, depois de atravessarem o Rio Estige (ou Styx), ameaçarem Caronte e passarem por uns portões protetores feitos de metal diferente e subirem uma escada de luz. É uma edição mágica, em vários sentidos, um pouco menos boba em termos de história, se comparada com a trama anterior, mas não livre dos cacoetes e pulos narrativos que as histórias da Era de Ouro traziam.

Na tentativa de saber onde estava a alma de Wotan (não fica claro se o Senhor Destino sabia que Wotan ia morrer, quando o jogou pela janela de um prédio), Fate faz aqui a sua primeira jornada e é bem legal ver todos esses espaços percorridos pelo herói e Inza, que é menos inútil desta vez e faz observações bem aceitáveis sobre as coisas. O que me fez rir foi o fato de Howard Sherman desenhar a personagem com biquinho, como se estivesse pronta para um daqueles selfies afetados, sabem? Sem contar que ela tem pés minúsculos, com sapatos de lacinhos, e se veste como uma magnata dondoca dos anos 40, tudo para andar ao lado de um companheiro ou conhecido ou amigo ou namorado [?] — a relação entre os dois é realmente muito estranha — que hospeda um grande poder místico. É bem engraçado.

A resolução do caso é aceitável, não só para os padrões da Era de Ouro. De algum modo, pode ser vista até como cruel, ver Wotan ali, em uma bolha de ar, no subsolo, em animação suspensa. Literalmente enterrado vivo, mas não de uma maneira que fosse matá-lo. Muito bacana mesmo.

.

More Fun Comics #57: The Fire Murders

estrelas 2

capa plano critico senhor destino wotan

A capa da MFC #56 foi a primeira em que o Senhor Destino apareceu.

Enfrentando Magno the Mighty e as Legiões do Rio Styx, o Senhor Destino resolve uma série de assassinatos misteriosos, de pessoas que parecem que são inteiramente incineradas mas não existe nenhum vestígio de fogo no local. Se não fosse o modelo mais leve da época e se a temática fosse realmente bem explorada, o resultado seria incrível, porque a junção de magia com dilemas morais envolvendo humanos inocentes sempre dá base para um bom roteiro, basta saber usar esses ingredientes.

Magno é outro (adivinhem!) mago (!!!) e manda seu foguinho incinerador matar as pessoas que se recusam a pagar grandes quantias de dinheiro. Por um estranho motivo, Fate sai da investigação de um dos assassinatos e vai para a casa de Inza, que convenientemente é atacada no mesmo momento, chegando a desmaiar (claro!). Na trama, a personagem fica gritando “HELP! HELP! HELP, DOCTOR FATE!”, chegando ao cúmulo do ridículo na encarnação da donzela em apuros. Há alguma similaridade entre a resolução dessa aventura com a anterior mas aqui, Fate transforma Magno e seus asseclas em estátuas de lama, ao que tudo indica, não mortos, mas congelados no tempo. Novamente um fim interessante.

O que já cansa o leitor é que além do óbvio (mas não bem utilizado) poder de gerar campo de força com o manto, e de teletransporte, o Senhor Destino só consegue manipular a realidade soltando fogo pela mão. Toda e qualquer representação que ele fez de seus poderes, até aqui, teve algo a ver com foguinho. A coisa fica pior quando entra em cena um mago que também usa fogo como demonstração visual e material de seu poder. Parece que em 1940 isso realmente impressionava as pessoas.

.

More Fun Comics #58: The Theft of the Book of Thoth

estrelas 3,5

The Immortal Dr fate plano critico senhor destino more fun comics 57

A primeira página da MFC #56: A Busca por Wotan.

Pela primeira vez aparece aqui a Torre do Destino, lar do Senhor Destino, que Gardner Fox descreve de maneira grandiosa, destacando a sua idade e capacidades mágicas. Aqui, o inimigo é um mago não nomeado que rouba o Livro de Toth (conjunto de textos egípcios antigos que supostamente foram escritos por… Thoth –pois é! –, o deus da escrita e do conhecimento) e que cria uma série de encantamentos para impedir que Fate e Inza cheguem até o local onde o bruxo do mal estava.

A narrativa simples favorece a rapidez da trama e traz uma maior organicidade nos diálogos entre Destino e sua companheira. Achei interessante o próprio personagem dizer o por quê “precisa” da companheira (de novo: não dá para saber direito se é namorada, amiga ou coisa do tipo). Ele afirma que passa muito tempo em sua Torre e que está desconectado do mundo, informações que Inza pode suprir para ele. Sem utilizar justificativas futuras do por quê isso acontece, é meio estranho essa afirmação vir de um mago poderoso como Destino, mas claro, dá para aceitar a coisa sem muitos problemas.

O final do mago malvado é cruel: ele cai de uma grande altura, em batalha contra Fate e, claro, morre. E também cruel, mas perfeitamente compreensível, é o final do poderoso Livro de Toth, que devido aos seus encantamentos (Fate até diz que foi com a ajuda dele que Atlantis afundou!) era um risco se continuasse existindo, então Destino incinera o volume. Não parece que ele sequer domina todos os encantamentos ali escritos, mas a decisão de destruir o livro parece mais urgente do que salvar todo esse conhecimento, o que me parece algo bem estúpido.

.

More Fun Comics #59: The People from Outer Space

estrelas 2,5

Aqui temos o Senhor Destino enfrentando alienígenas que dominam eletricidade em várias formas, manipulando-a inclusive na formação de objetos sólidos, diante do que é possível se entender de um quadrinho dos anos 40. Novamente temos um fim trágico, o que é engraçado constatar hoje em dia, quando qualquer tipo de ação de um herói gera a maior polêmica, como se fosse tudo novo e como se os quadrinhos nunca tivessem apresentado esse tipo de destino tenebroso para determinados vilões.

Fate batalha contra os Space Men, que chegaram à Terra em um avião muito parecido com os nossos. Era a “nave espacial”, no caso. Estabelecidos em algum lugar da Oceania, os aliens tentam algumas coisas incompreensíveis, o que faz a notícia aparecer na rádio e Inza Cramer ouve e entra em contato com o Senhor Destino, através de algo similar a uma bola de cristal. Os homenzinhos haviam sequestrado um navio que estava passando (?) e inicialmente não pareciam querer fazer mal às pessoas, mas depois de atacados, reagiram e mataram os homens, o que levou à ação cuidadosa mas no final, fatal do Doctor Fate (ba dum tsss!).

.

More Fun Comics #60: The Menace of the Little Men

estrelas 0,5

more fun comics 60 plano critico inza

Inza encontra os homenzinhos na MFC #60.

Algumas perguntas importantes precisam ser respondidas aqui. O autor realmente nos quis fazer entender que Inza dirigiu de Nova York até Salém? Em 1940? Com aquela roupinha e pose dondoca? Chegando tão rápido? Como é que ela pode ter chegado tão rápido à Torre? Como ela sabia onde este lugar ficava? Simplesmente não faz sentido o começo dessa história, que mostra um péssimo plano de invasão — até aí tudo bem, em termos artísticos e de concepção, porque estamos em plena Segunda Guerra Mundial — de pequenos homens chamados Norns. Quando o leitor pensa que a história está melhorando e o ataque vai ser resolvido rapidamente e Inza voltará para a Torre pegar seu carro, o Senhor Destino diz que precisa conhecer o lugar de onde vieram os homenzinhos e então se depara com uma caverna onde existem gigantes similares aos homenzinhos.

Além de ridícula e mal escrita, a parte final da trama mostra o Senhor Destino selando “para sempre” a caverna e levantando um assunto, dando a entender que eles possuíam algum tipo de segredo da Terra e da humanidade, mas sequer se deu o trabalho de perguntar ou procurar vestígios a respeito. Nada aqui faz sentido. Que história horrenda!

More Fun Comics Vol.1 #55 a 60 (EUA, maio a outubro de 1940)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Howard Sherman
Letras: Howard Sherman

.

More Fun Comics #67: The Origin of Doctor Fate

estrelas 2,5

plano critico a origem do senhor destino

Depois de um ano de publicações, Gardner Fox e Howard Sherman trouxeram a origem do Senhor Destino.

Vale de Ur, 1920. Kent Nelson, com 12 anos de idade, está com o pai Sven Nelson em uma expedição arqueológica no Egito. Pois é, a trama já começa sem muito sentido, porque a cidade de Ur foi uma importante Cidade-Estado da Suméria, atual Tell el-Muqayyar, no Iraque. Mas vamos dar um desconto para Gardner Fox e dizer que ele tenta aqui juntar algumas informações fornecidas anteriormente, como a constante citação dos “mistérios do Oriente Médio” que são guardados por um hospedeiro.

Nesta história de origem conhecemos Nabu, que aparece pela primeira vez e é acordado pelo pequeno Nelson, que não sabia o que estava fazendo. Da morte de Sven até a chegada de Kent à vida adulta, não há nada, infelizmente. O salto é literalmente de décadas. No quadro seguinte, temos Kent adulto conversando com Nabu e recebendo dele o amuleto e, mais adiante, o uniforme, com o elmo e tudo o mais.

Não há nenhuma indicação dos Lordes da Ordem e Lordes do Caos. A trama realmente foca no surgimento do Senhor Destino e segue com uma indicação insatisfatória do primeiro encontro com Inza, em Alexandria e a história bem ruim de um homem que é atormentado por almas penadas, trama que Kent tenta resolver, colocando o uniforme de Senhor Destino e indo enfrentar Negal, o Governante do Charn. Se fosse só pela primeira parte, a nossa percepção seria diferente, mas a história de continuação é bem ruim. Não podemos dizer que a origem do Senhor Destino é insatisfatória. Ela só tem o mínimo do mínimo de informações. Graças aos deuses egípcios que isso seria ampliado e melhorado nos anos seguintes.

More Fun Comics Vol.1 #67 (EUA, maio de 1941)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Howard Sherman
Letras: Howard Sherman

.

1st Issue Special #9: The Mummy That Time Forgot

estrelas 3,5

plano critico khalis mumia

Nova origem, nova explicação para o amuleto e a apresentação da múmia Khalis, o maluco sacerdote de Anúbis.

Sumido dos quadrinhos já há muito tempo — tendo apenas participações em HQs da Sociedade da Justiça e outros grupos, em ocasiões especiais, desde a década de 1940, quando deixou de ter as suas histórias individuais na More Fun Comics — o Senhor Destino da Era de Ouro voltou para uma história de origem misturada com uma nova aventura. Martin Pasko explica rapidamente como tudo começou e aborda um pouco as sugestões de Gardner Fox em The Origin of Doctor Fate (1941), da qual vocês leram a crítica logo acima. Três anos depois, Paul Levitz voltaria para reafirmar essa origem, cobrindo os detalhes que faltavam, mas aqui já temos claramente uma boa explicação para o que aconteceu. E como bônus, a verdadeira origem do “Amuleto de Nabu” que, na verdade, é (ou era) de Anúbis.

Inza, esposa de Kent Nelson, está lamentosa, na Torre do Destino, sentindo-se prisioneira. O leitor encontrará a mesma posição da mulher em This Immortal Destiny (1978), o que nos dá a entender que era mais ou menos uma visão comum dos escritores olharem para Inza e vê-la como uma pessoa amargurada, confusa, sem saber muito como lidar com a dualidade entre Kent e o Senhor Destino, a entidade que toma conta do corpo quando o elmo é colocado — bem, pelo menos são dissociadas neste momento da história do personagem.

A múmia Khalis aparece pela primeira vez, e descobrimos também a sua origem. Egito, 2030 a.C. Na cidade de Bubastis, a antiga capital dos gatos que floresceu no Baixo-Egito, tendo sua decadência apenas nos primórdios do período cristão, havia um tempo da deusa Bastet, uma divindade solar, deusa da fertilidade, protetora das mulheres. Então aparece um certo Sacerdote apregoando um novo deus, Anúbis. Isso foi muito interessante perceber, porque colocou em cena uma “briga de deuses”, abrindo espaço para a temática ser ampliada no futuro. O roteiro é rápido na construção da briga e também em resolvê-la. Com a arte interessante de Walt Simonson, com acabamento mais rústico, temos realmente a impressão de algo antigo sendo mostrado, sensação ainda maior quando vemos a construção dos balões de fala, que no caso da múmia Khalis, são literalmente quebrados.

A trama serve mais para mostrar um pouco do passado do personagem do que para apresentar algo novo. O chamado que Khalis faz para Anúbis, quando recupera o amuleto que lhe foi dado, parece barato demais, sem muita coisa que mostra o momento a seguir, algo que não tem exatamente um grande peso mas que soa estranho para o leitor, como uma falta que não precisava existir.

A certo ponto, a paciência se esgota quando vemos outra e mais outra repetição no roteiro, normalmente da parte da Inza, de que o Senhor Destino e Kent Nelson são entidade e pessoa diferentes. Talvez o autor não quisesse deixar dúvida nenhuma a este respeito, e de fato tudo ficou claro, a um preço de repetições chateantes no meio da história.

A relação entre Inza e Kent ainda é estranha, justamente pelo “terceiro elo” no meio do caminho. Mas ele tira o elmo algumas vezes, então vemos que além dos momentos de salvar o mundo, o personagem tem uma vida (solitária, mas ok) ao lado da esposa na Torre. De certo modo, é perfeitamente compreensível os surtos de ansiedade e desespero de Inza. Não há uma história anterior dela, mas fica claro para nós que vem de um ambiente cheio de pessoas, com boas relações sociais e nada de isolamento (parte disso já podia ser visto nas história da Era de Ouro), de modo que os dias na Torre do Destino realmente parecem uma grande prisão.

Ao mesmo tempo que olha para o passado e traz algumas origens, A Múmia Que o Tempo Esqueceu é uma trama do presente, que de certo modo problematiza as relações entre Kent e a mulher, além de mostrar a fragilidade dele, em alguns pontos, e que Nabu, surpresa-surpresa, não lhe contou tudo sobre os poderes. Uma ótima escolha de Pasko, que anos depois voltaria a escrever sobre o herói por alguns meses, na história secundária da revista The Flash.

The Mummy That Time Forgot (1st Issue Special Vol.1 #9) – EUA, Dezembro de 1975
Roteiro: Martin Pasko
Arte: Walt Simonson
Letras: Ben Oda, Walt Simonson
Capa: Joe Kubert, Tatjana Wood, Gaspar Saladino
Editoria: Gerry Conway, Paul Levitz
24 páginas

.

DC Special Series #10: This Immortal Destiny

estrelas 4

Inza lamenta demasiadamente nessa nova história de origem do Senhor Destino.

Inza lamenta demasiadamente nessa nova história de origem do Senhor Destino.

Este Destino Imortal é uma (nova) história de origem. Ela foi publicada originalmente na revista DC Special Series #10, juntamente com os contos da Canário Negro e Magtron (ou Solis ou Lightray). Esta série especial trazia tanto enredos originais quanto reimpressões, levando em consideração que o que interessava no título era o formato gigante, o que atraía bastante gente.

A trama começa com Inza Nelson, esposa de Kent, escrevendo em seu diário e se lamentando pelo fato de ter um esposo que sai para batalhar contra inimigos místicos e que ela só queria ter uma vida normal. Como não existe nenhum background para a mulher — o roteiro de Paul Levitz foca unicamente na origem de Fate –, o leitor tem a impressão de que Inza é uma mulher chata que depois do que parece ser um tempo considerável, ainda não entendeu que é casada com um homem que tem uma entidade mística guardiã no corpo, fazendo-o muito poderoso e imortal (bom, a não ser que o guardião nele decida o contrário e o permita tirar o elmo). Isso, porém, pode ser interpretado de uma forma mais humana, embora o texto realmente cause a impressão negativa.

Fala-se aqui dos Lordes da Ordem e dos Lordes do Caos lutando no Multiverso, e também de Nabu, que adotou a forma humana e esteve no Egito, acabando em animação suspensa e sendo revivido por Kent Nelson criança, quando explorava a região com seu pai, que morreu no lugar. Algo que não havia na versão original e que aparece aqui é o fato de Nabu retirar o luto da mente do pequeno Kent e substituir pelo conhecimento de magia. Analisando bem, não é uma atitude moralmente comum/normal/aceitável, mas como estamos lidando com seres místicos, levar decisões difíceis em conta não parece grande coisa, porque seres místicos não pensam ou possuem valores morais como os humanos comuns.

Com uma arte graciosa, boa diagramação de página que homenageia a tipologia dos quadrinhos clássicos, procurando colocar o Senhor Destino “invadindo” um quadro ao lado ou abaixo, esta história termina com um lamento de Inza, logo após ela lembrar-se, ainda cheia de dúvidas, do caminho que fez de seu esposo um dos heróis mais interessantes da DC Comics e, infelizmente, um que não tem toda a atenção que merece.

This Immortal Destiny (DC Special Series #10) – Janeiro de 1978
Roteiro: Paul Levitz
Arte: Joe Staton
Arte-final: Michael Netzer
Cores: Adrienne Roy
Letras: Shelly Leferman
Capa: Walt Simonson
Editoria: E. Nelson Bridwell, Nicola Cuti
10 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.