Crítica | Senhor Milagre #1 a 5 (1971)

PLANO CRITICO SENHOR MILAGRE NOVOS DEUSES

De todas as criações do Quarto Mundo de Jack Kirby, a que melhor manteve a grande qualidade ao longo de seu primeiro ano de publicações foi a série do Senhor Milagre. Começando de maneira despreocupada, com um ensaio de escapismo de um velho artista chamado Thaddeus Brown, auxiliado por seu assistente Oberon, a trama faz referências diretas às gangues já apresentadas em Povo da Eternidade e Novos Deuses, indicando a mão de Darkseid ou de outros indivíduos da fauna vilanesca de Apokolips em diversos lugares da Terra e com distintos planos em andamento. Mas o autor não perde tempo tornando esses vilões terrestres em figuras de destaque. Há apenas uns poucos quadros nas edições #1 e 2 em que isso acontece, mas a aparição é rápida.

Como uma metáfora para a ansiedade, a série vai conquistando o leitor paulatinamente, dando explicações compassadas sobre a origem do Senhor Milagre e sobre seu empenho em treinar e se tornar um grande escapista para ganhar dinheiro em apresentações, assim como Thaddeus Brown, de quem Scott Free segue o legado e homenageia, ao assumir o manto de Mister Miracle. Em pouco tempo sabemos que Free está na Terra foragido de Apokolips, após passar uma breve temporada nas masmorras da Vovó Bondade, que ganha destaque na segunda edição, tentando prender Scott e Oberon em uma de suas armadilhas.

O leitor não só cria a expectativa sobre as escapadas do Senhor Milagre, mas aguarda com ansiedade pelo próximo indivíduo de Apokolips que aparecerá para desafiá-lo e levá-lo de volta para a sua “bondosa treinadora”. Então chegamos à edição #3, The Paranoid Pill!… e o que temos ali é uma verdadeira obra-prima de ação e suspense, protagonizada por um herói que a cada nova revista traz novidades sobre as suas origens, capacidades e maneira quase cínica e um pouco preocupada de encarar o mundo. Aos poucos, Scott Free se sente à vontade para fazer piadas, mesmo em momentos de tensão, chegando até a brincar e desejar que algumas ciladas fossem preparadas para ele ter de onde escapar.

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Scott Free, Oberon e a maravilhosa Grande Barda.

Na revista da “pílula da paranoia” temos uma armadilha muito inteligente planejada pelo Doutor Bedlam, que coloca o Senhor Milagre em um prédio cheio de pessoas com as mais diversas manias de perseguição e tendências violentas. Esta é a missão de Scott Free aqui. Escapar do arranha-céu onde em cada andar existem dezenas de pessoas inocentes querendo matá-lo. E tendo Jack Kirby aproveitado ao máximo a variedade de armadilhas e de terrestres e Novos Deuses se cruzando, é nessa edição que ele cria a melhor dinâmica de grupo de todo o arco, inclusive com excelentes ângulos de ação para Milagre, perspectiva dentro dos grandes quadros (destaque para o baú onde ele está sendo jogado do alto do prédio) e maneiras diferentes de o herói se livrar dos humanos paranoicos sem machucá-los.

A coisa é tão incrível que a edição três, sozinha, daria um excelente filme de ação com gordas camadas de psicologia e humor ácido. Mas a coisa ainda melhorara. Porque na quarta revista, The Closing Jaws of Death!, temos a chegada da incomparável Big Barda, que conquista o leitor desde o primeiro momento em que ela aparece, quase matando Oberon do coração. Seu humor, coragem, poderes e relação com Scott são trabalhados por Kirby de maneira instigante, aparecendo em momento oportuno, na fase final da escapada do prédio com o povo paranoico. A interação entre os dois personagens é tão boa, que logo na edição seguinte, Murder Machine!, onde Virman Vundabar aparece pela primeira vez, o grande destaque é exatamente o escapismo sob um duplo ponto de vista, destacando a pergunta: “o que Scott e Barda poderiam fazer para deixar seus captores gritando de raiva?“.

Divertida, livre de amarras (ba dum tsss!) e relacionando muitíssimo bem o Quarto Mundo com personagens e questões puramente terráqueas, esta primeira fase da série do Senhor Milagre é daquelas leituras que nos deixam pedindo por muito mais. Uma excelente adição à galeria das criações inesquecíveis de Jack Kirby.

Senhor Milagre #1 a 5 (Mister Miracle Vol.1 #1 – 5) — EUA, abril a dezembro de 1971
DC Comics
No Brasil:
 Jack Kirby – Senhor Milagre n° 1 (contendo Mister Miracle Vol.1 #1 – 5, com os títulos originais das revistas traduzidos: O Míssil Mortal, Cova X, A Pílula da Paranoia, Às Portas da Morte e Máquina Assassina) — Opera Graphica, 2003
Roteiro: Jack Kirby
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Vince Colletta / Mike Royer (apenas na edição #5)
Capas: Jack Kirby, Vince Colletta
Editoria: Jack Kirby
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.