Crítica | Senhora, de José de Alencar

estrelas 4

Sabe estas séries e filmes com temas femininos que entre uma vanguarda e outra, entre o Festival de Cannes e a cerimônia do Oscar, entre campanhas publicitárias e discussões midiáticas, estão sendo exibidos e consumidos em nossos lares e exibidos nas salas de cinema? Pois bem: pense neles por alguns instantes, enquanto estiver lendo esta reflexão. Muito antes de Carrie escrever sobre os direitos femininos em Sex and The City e Bridget Jones questionar o papel da mulher no bojo da sociedade machista, o escritor José de Alencar já apresentava para os leitores uma heroína totalmente diferente do que se via em seu tempo, o patriarcal século XIX, época demarcada pelo casamento como destino para as mulheres na vida adulta.

Mesmo que ainda preso aos traços do estilo de literatura que produzia, onde não havia redenção para a mulher a não ser através da morte, como acontece no romance Lucíola, o polígrafo José de Alencar ousou ao trazer uma mulher intempestiva e dona da cena até os momentos finais da sua trajetória, quando finalmente mostra que não há espaço para lutar contra as pressões sociais e, num exercício de entrega, cede ao seu amado e entrega-se ao seu papel de esposa obediente.

Voltando ao questionamento realizado na abertura deste texto, somo mais um tópico para reflexão: há alguma diferença entre as mulheres representadas por José de Alencar e as femininas e feministas das narrativas cinematográficas da contemporaneidade? Sabemos que muita coisa mudou no painel social do século XIX aos dias atuais, mas ainda há muitas barreiras que precisam ser vencidas. Um exemplo disso é o filme Alguém Tem que Ceder, comédia romântica dirigida por Nancy Meyers e estrelada por Jack Nicholson, Diane Keaton e Keanu Reeves, talvez um dos melhores paralelos em termos de literatura comparada com o romance alencariano.

A cena final da produção é bastante emblemática: a escritora bem sucedida Erica (Diane Keaton) precisa abdicar do romance com o garotão (Keanu Reeves), ceder às pressões sociais e ficar com um cara do seu nível, ou seja, o personagem Harry (Jack Nicholson), de 63 anos. Não há redenção. As mulheres precisam ceder e colocar-se nos seus devidos lugares, assim como acontece com Aurélia Camargo, ao abdicar da sua personalidade forte e ceder para Fernando Seixas, seu marido comprado, haja vista que a sociedade não aceitaria uma mulher financeiramente poderosa, mas solteira por muito tempo. Entretanto, para compreender essas ilações e mergulhar no universo de José de Alencar, é preciso se ater, a partir de agora, ao livro e o seu contexto histórico, retornando para as relações entre passado e presente mais adiante.

Publicado em 1875, Senhora, junto com Lucíola, forma um dos ápices da prosa urbana do autor carioca embebido pelo desejo de fortalecer cada vez mais uma “literatura nacional”. No romance, o autor confronta os conflitos de interesses e o amor, temas abordados desde A Viuvinha, como foco da história. Dividido em quatro partes, o romance aborda o passo a passo de uma transação comercial: O Preço (contemporâneo à ação narrada na abertura), Quitação (passado de Aurélia), Posse e Resgate.

O fio narrativo nos guia para a história de Aurélia Camargo, órfã de pai e filha de uma humilde costureira. A moça apaixona-se por Fernando Seixas, um homem que a troca por Adelaide Amaral, pois a moça era rica e prometia fornecer uma vida melhor para as ânsias sociais, entre elas, a ascensão e os vigores de estudar na Faculdade de Direito. Após algum tempo, Aurélia recebe uma herança do avô que desconhecia e ascende socialmente. Em seu rito de passagem, começa a frequentar os bailes da alta sociedade e com ressentimentos, decide aderir a boa e velha vingança. Pede a Lemos, o seu tio-tutor para negociar o seu casamento com Fernando Seixas, por um dote de 100 mil réis, sem que esse saiba a identidade da noiva, revelada apenas na véspera do casamento. Para fortalecer o processo, há uma cláusula que reforça a necessidade de sigilo sobre quem seria a noiva.

Ao descobrir que Aurélia é a mentora do contrato, Seixas fica feliz, mas a sua alegria escorre pelo bueiro da vida quando percebe que há um intricado jogo de vingança por detrás das intenções de Aurélia, a mulher que o comprou para que ele representasse o papel de marido diante de todos. É a partir deste acontecimento que os principais conflitos começam a pulular na narrativa, tornando Senhora um dos romances mais emblemáticos no que tange os comportamentos dos cidadãos da sociedade fluminense da época, fermento temático para muitas produções de Machado de Assis concomitante e posteriormente.

O Brasil passava pelo Segundo Império. O Rio de Janeiro estava cada vez mais urbanizado e a obra surgira na esteira do movimento romântico, com um público leitor ainda incipiente, haja vista o sistema de classes sociais vigente. Era um país guiado pela construção de uma sociedade erguida pela mão de obra africana (escrava) para geração de riqueza dos latifúndios. Naquela época, não era possível ascender socialmente pelo trabalho, o que torna as relações de interesses ainda mais conflituosas, como podemos encontrar durante as páginas do romance carregado de avanços e recuos, diálogos arquitetados por pressões, contornos secretos e muitos atritos. Para demarcar momentos específicos, o autor utiliza acontecimentos importantes, como a Guerra do Paraguai, por exemplo.

Ao fazer uma autópsia da cena urbana brasileira do século XIX, Senhora traz a relação entre as narrativas de cunho romântico e a construção da identidade feminina, já abordado no arrebatador Madame Bovary, de Gustave Flaubert. No entanto, por mais que nos brinde com uma parcela de libertação feminina, a identidade de Aurélia Camargo é construída tendo o homem como reflexo dos desejos da mulher. Ela projeta para a sua vida a felicidade no casamento, mesmo que em alguns pontos da narrativa demonstre que é uma mulher à frente do seu tempo, pouco motivada pelos valores que cristalizaram o papel da mulher na sociedade como o “outro” do homem.

No fundo, Aurélia é um pouco Penélope, a fiel e obediente mulher que aguarda o retorno do marido durante muitos anos, mesmo sem saber se o mesmo retornará da guerra. No caso da heroína romântica, ela apresenta por fora algo que se revela diferente por dentro: no fundo, o casamento e amor obsessivo por Fernando Seixas é o que conta para a sua felicidade. Convenhamos, é irritante hoje, mas era o que tinha para as mulheres daquela época.

Na seara da construção de personagens, temos tipos bem ligados aos traços característicos do que se convencionou chamar de Romantismo, um movimento literário europeu que encontrou ressonâncias no Brasil, um país recém-independente e galgando os caminhos de uma produção literária própria. Aurélia é definida como inteligente, delicada, culta e fria, o que traz horror para Fernando Seixas. Com a sua barba castanha e um bigode considerado pelo narrador como muito elegante, o jovem estudante de Direito é também inteligente, elegante e bem educado.

Entre os coadjuvantes que gravitam em torno do conflito dos protagonistas há destaque para Lemos, um rechonchudo e ótimo homem de negócios; Adelaide, uma moça rica e poderosa, responsável por Seixas abandonar Aurélia inicialmente, mas como sempre fora apaixonado pelo humilde Torquato Ribeiro, casa-se com o rapaz, graças ao apoio velado de Aurélia; D. Firmina, uma viúva que se torna acompanhante de Aurélia nos bailes e demais passeios de luxo pela cidade; Eduardo Abreu, um homem que sempre foi apaixonado por Aurélia, tendo ajudado a custear o enterro da sua mãe enquanto a moça ainda era pobre; Pedro Camargo, filho de Lourenço Camargo, um homem que ao morrer, deixa a herança para a sua neta, Aurélia, fazendo-a se tornar a “senhora” do título, uma mulher petulante, aparentemente dona de si e excelente jogadora no campo de aparências que é a sociedade da época. O romance, uma metáfora para uma sociedade adornada por luxo e desejos, tem ainda Lisa Soares, Amaralzinho e Alfredo Moreira como personagens, digamos, “terciários”, mas que ocupam certa importância em minúsculos momentos da narrativa.

Por ser a personagem que intitula o romance, Aurélia, por sua vez, é a mais complexa. Contraditória, nos faz achar que é diferente do padrão estabelecido para a sua época, mas acaba por entregar-se aos estereótipos do processo de construção da felicidade apenas através do casamento. O que diferencia de fato a personagem das suas “colegas” de estantes das livrarias e bibliotecas, como por exemplo, A Moreninha e Diva, é a consciência e compreensão dos mecanismos que engendram o mundo em que está inserida. Ela sabe que usar Seixas como escravo branco era um status perecível, pois em algum momento a sociedade lhe cobraria o casamento, já que a virgindade, o talismã das narrativas românticas, ainda estava devidamente protegido pela personagem.

A técnica de José de Alencar foi muito avançada para a sua época, cheia de digressões e com um narrador onisciente bastante intruso na trama, sempre a opinar e apresentar-se ao leitor. A narração, por sinal, é próxima do que chamamos de literatura cinematográfica. Basta observar os trechos que narram o leito de nupcial de Aurélia, iluminado assim como a abertura do romance, que aponta “Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela”. Mais “espetaculoso”, teatral e prenúncio para o que seria a linguagem do cinema, impossível.

Em suma, Senhora é um romance que evidencia a identidade da mulher como projeção para o desejo masculino. Aurélia constantemente coloca-se como alvo da busca masculina. Sendo assim, é um romance interessante para compreensão do pensamento social do século XIX, uma radiografia de um período onde a mulher recusa o papel feminino. Um final bem aristocrático e falocêntrico, mas ainda um destaque dentre as representações femininas no contexto romântico.

E mais uma vez, retornando ao contemporâneo, vamos refletir. Há heroínas com poderes especiais, narrativas que colocam a mulher numa posição mais centralizadora, como Resident Evil e X-Men, mas, na maioria das vezes, as personagens femininas representam o ideal do homem. Precisam da sua proteção e projetam o casamento como caminho para a dita “felicidade”. Em alguns casos, quando possuem alguma força, são masculinizadas ou despidas de qualquer arquétipo feminino. Exemplos: Tenente Ripley (Alien), Clarice Sterling (O Silêncio dos Inocentes) ou qualquer personagem interpretada pela “de sempre” Michelle Rodriguez.

Mesmo que seja uma das piores coisas produzidas nos últimos anos, não há como esquecer a tosca cena de Bela, personagem do romance Lua Nova, da Saga Crepúsculo, atirando-se de um penhasco para “atrair” o seu amado Edward. Esse é apenas um dos exemplos de que há muitas atitudes patriarcais do século XIX, bem como posturas contrárias aos movimentos feministas, no âmbito das ficções (e na realidade) contemporâneas.

À guisa de curiosidade, Senhora foi adaptado para um filme homônimo, dirigido por Geraldo Vietri e tendo Elaine Cristina e Paulo Figueiredo como o par romântico Aurélia Camargo e Fernando Seixas. Lançado em 1976, é uma das diversas adaptações da obra de José de Alencar, um escritor constantemente resgatado pelas narrativas audiovisuais brasileiras. Arrufos, de Belmiro de Almeida, a pintura que estampa o topo desta crítica, é uma das representações mais emblemáticas da cena final do romance e de muitas narrativas de amor situadas no movimento romântico brasileiro, obras que precisam ser lidas com certo distanciamento, num exercício de descolamento que o leve ao passado, mas o mantenha com os pés fixados na contemporaneidade.

Senhora (Brasil, 1875)
Autor: José de Alencar.
Editora: Ática – Série Princípios.
Páginas: 190.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.