Crítica | Sense8 – 1ª Temporada

estrelas 4

Ao contrário do que defende uma parcela da crítica, considera-se aqui que a carreira dos irmãos Wachowski engloba obras, em sua maioria, de boa a ótima qualidade – seja com o divertido e independente Ligadas pelo Desejo, com o revolucionário universo de Matrix, que dispensa comentários, como roteiristas da provocativa e emocionante adaptação cinematográfica de V de Vingança, com a contemplativa live action de Speed Racer ou com o ambicioso A Viagem -, exceto pelo recente fiasco de O Destino de Júpiter. O ponto é que quem desconhece o trabalho independente dos irmãos, ainda mais associando-os à Matrix, pode julgar que a dupla é mais dependente da ficção científica para a construção de suas narrativas do que realmente é.

Muito se especulou acerca de Sense8, seja por ser a primeira produção televisiva dos Wachowski ou por ter sido anunciada para 2014 e depois adiada para 2015 pelo serviço de TV pela internet Netflix – atraso que não surpreende, dada a logística de filmagens em quatro continentes. Se a publicidade enganosa acerca do programa se deu por razões estritamente comerciais ou, o que é mais provável, também por conflitos de comunicação internos resultantes do adiamento da produção, não se sabe. Fato é que a primeira temporada de Sense8, que teve seus doze episódios liberados em 05.06.15 pelo Netflix, não nos oferece predominantemente o que foi vendido nos trailers e em todo o material de divulgação da série, o que nem por isso torna a trama menos interessante, apenas deve decepcionar em termos de público-alvo.

Conforme foi divulgado, a série realmente trata de oito pessoas em diferentes partes do mundo: uma DJ islandesa que mora em Londres, um policial de Chicago, a filha de um executivo de Seul que também é secretamente uma lutadora de kickboxe, um ladrão de cofres de Berlin, uma farmacêutica de Mumbai, um ator mexicano que esconde um segredo, um motorista de van de Nairóbi e uma ativista transexual de São Francisco. São os sensates (traduzidos como sensitivos ou sensíveis, na versão dublada), que, após a morte de uma mulher misteriosa (Daryl Hannah), são conectados telepaticamente. Essa conexão se manifesta aos poucos, para crescente assombro dos oito, pela troca de sons, cheiros, visões e dos demais sentidos até a partilha de conhecimento e de sentimentos. O controle das interações entre um e outro parece caótico a princípio, mas aos poucos vai se estabilizando. Ao contrário do que ficou parecendo pelos anúncios, porém, cada capítulo não trata de um sensate em particular; a narrativa alterna entre um e outro, embora eventuais episódios foquem mais neste ou naquele personagem.

O mais importante, contudo, e talvez o mais grave, é que a divulgação nos prepara para um thriller de ficção científica, com muitas reviravoltas, suspense e mistério, mas não é o que vemos nesta primeira temporada na maior parte do tempo, e sim os dramas da vida de cada sensate, com suas culturas, conflitos e noções de realidade entranhados com suas escolhas, ilusórias ou não, e sequências de ação eletrizantes, porém breves, a episódios de distância uma da outra – ainda que produzidas com esmero cinematográfico. São parte das poucas sequências, aliás, que normalmente justificam a trama enquanto ficção científica e estão entre os momentos mais belos da produção, já que mostram a dinâmica do trabalho em equipe dos sensates. As relações entre os conectados se dão gradualmente, com menor ou maior confiança e, aos poucos, assistimos à bela dinâmica da união de forças para que cada qual busque sobrepujar a própria realidade e as intempéries do dito “condicionamento”, seja em prol do coletivo ou do individual, culminando, é verdade, com um emocionante final de temporada, que por sinal lembra em muito a conclusão do primeiro Matrix. O grande mistério envolvendo a conexão dos oito e a ameaça que paira sobre o grupo são abordados com lentidão e mesmo esquecidos de um episódio para o outro, talvez o ponto mais incômodo e problemático do programa – que o diga o nono capítulo, que de tanto mirar na contemplação sofre uma queda de ritmo exagerada em relação aos demais.

A dinâmica narrativa da série lembra muito a vista em outro trabalho dos irmãos: A Viagem, não apenas pelo incrível trabalho de montagem conectando os protagonistas – nesse quesito, sem dúvida um novo marco para a televisão, que cada vez mais rivaliza com o cinema em qualidade e ousadia técnica, mas a inovação termina por aí. Neste ponto, esbarramos na singularidade Wachowski, também perceptível em A Viagem e que gerou tanta controvérsia. É a singularidade de se contar uma história recheada de elemento humano, com conexões que aos poucos se apresentam de um modo mais abstrato do que concreto, com um objetivo difícil de definir e com a ficção científica, na maior parte do tempo, servindo como mero meio de conexão; meio que funciona para a experiência da série, embora pudesse ser substituído por tantos outros, como internet, celulares ou mesmo livros, cartas, diários ou qualquer produto da vontade humana de se veicular ou se afastar do outro – os próprios Wachowski afirmaram que Sense8 surgiu de uma discussão entre eles sobre o poder que a tecnologia exerce sobre o homem. É por isso que, para alguns, Sense8, assim como A Viagem, pode falar, falar e não dizer nada, não levar a lugar algum, e ao mesmo tempo dizer muito e nos levar a diversos lugares, enquanto outros ainda podem ver a coisa só por um extremo ou por outro. Embora todos os dramas sejam cativantes graças à narrativa, também alimentadas pelo elenco, destaque para o apelo reflexivo de Jamie Clayton como a transexual Nomi e para Doona Bae como Sun, uma coreana que encara a submissão apesar de esbanjar personalidade. A trilha sonora também se destaca, das faixas originais orquestradas, que pendem entre o fúnebre e o cartunesco para uma narrativa que trabalha com o dramático evocando o fantástico, às faixas selecionadas, dialogando com cada cultura retratada.

Vale lembrar que Sense8 não é a primeira experiência dos Wachowski com uma narrativa episódica – os irmãos dirigiram a minissérie animada Animatrix. Também é importante dar o devido crédito pela produção de Sense8 a J. Michael Straczynski, criador da cultuada série Babylon 5, nome que parte da crítica parece simplesmente ter esquecido.

Em sua totalidade, Sense8 tem cinco temporadas planejadas por seus criadores, com contratos supostamente fechados com o elenco principal para todas elas. É torcer para que tanta confiança na receptividade do público seja acertada e para que as temporadas seguintes sejam aguardadas pelo que de fato propuserem.

Sense8 (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: J. Michael Straczynski, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Direção: Dan Glass, Andy Wachowski, Lana Wachowski, James McTeigue, Tom Tykwer
Elenco: Miguel Ángel Silvestre, Jamie Clayton, Brian J. Smith, Max Riemelt, Erendira Ibarra, Anupam Kher, Sara Sohn, Ari Brickman, Jeronimo Best, Aml Ameen, Daryl Hannah, Naveen Andrews, Tuppence Middleton, Aml Ameen, Doona Bae, Tina Desai, Freema Agyeman, Terrence Mann, Alfonso Herrera
Duração: 720 min (12 episódios)

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.